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Ponto de Vista: Novelas – uma mercadoria arriscada

Você, meu caro telespectador e noveleiro de carteirinha, me responda a uma pergunta: o que acha que é uma telenovela?

Criatividade? Diversão? O momento fugaz de distração depois de um dia cansativo? A história de personagens que você acompanha e quase é capaz de vê-los no mundo real? Pura fantasia?

Sim e outras coisas mais. A história nos mostra que novelas na verdade são mais do que simplesmente ficção. São investimentos financeiros de alto risco e seus autores sofrem as mais diversas pressões do mercado para criar um produto rentável. Sua exibição é mais que um trabalho de criatividade ou consideração a um autor como “dono” de sua obra.

Muito pelo contrário. Em uma trama com números abaixo do esperado, descobrimos o quanto um escritor pode ser apenas um mero subordinado sob ordens de patrões irascíveis. E não falo somente das emissoras. Faz ideia do quanto os telespectadores podem ser enjoados?

No momento há um exemplo bem claro no ar: Tempos Modernos, escrita por Bosco Brasil que vem com a alcunha de maior fiasco do horário dos últimos dez anos segundo a revista Veja. A trama agora passa pelo tormento de dar ao público o que é de seu gosto, descaracterizando suas propostas e mudando seus rumos. A tecnologia, que era um de seus elementos mais importantes perdeu praticamente todo o espaço, personagens se converteram em estereótipos e se perderam em situações estranhas e dramas esquisitos – sem citar aquela de Leal (Antônio Fagundes) não saber ler, difícil de engolir.

Mas Tempos Modernos não é um fenômeno inédito. Várias outras ficaram na memória pelas intervenções desesperadas para salvar seus produtos: O Dono do Mundo (1991) de Gilberto Braga, cuja heroína foi rejeitada esmagadoramente, ou Bang Bang (2005) de Mário Prata, que a história tornou-se uma chanchada no meio do caminho, usando o humor para agradar.

Francamente, entendo que as novelas sejam um produto lucrativo e sendo assim precisa render, mas fico imaginando o que acontece na cabeça de um autor nesse momento, que começa a trabalhar em uma história que na verdade não lhe pertence. O caráter de uma obra aberta é estar disponível para mudanças, mas não para a descaracterização total. Tempos Modernos tinha esse nome devido a um tom de abordagem tecnológica, agora traduz o desalento de Leal (Antônio Fagundes), seu protagonista com a falta de palavra dos dias atuais, tendo como resposta padrão a expressão “Isso são os tempos modernos, seu Leal, tempos modernos…”

É nessas horas que a ficção se despe de sua aura de magia e a telenovela torna-se o produto: um investimento sem espaço para falhas e que se deixa guiar a frieza dos números, sem um pingo de criatividade voluntária, sendo apenas suor.

Trabalhar como autor na novela escrita – porcamente ou não – pelos telespectadores deve ser uma batalha diária contra si mesmo. Um pesadelo.

Esses merecem respeito.
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* Perfil: Emanuelle Najjar – Jornalista, formada pela FATEA em 2008, pesquisadora da área de telenovelas. Editora do Limão em Limonada (limaoemlimonada.com.br)

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