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Lado a Lado deveria ser reconhecida

Horário de verão, a alta temperatura, a forte violência que assombra São Paulo e acaba atraindo a atenção do telespectador aos noticiários policiais ou então por se tratar de uma trama de época. O que não falta são tentativas de ser justificar a baixa audiência de Lado a Lado, novela de João Ximenes Braga e Claudia Lage, supervisão de Gilberto Braga e direção de Dennis Carvalho. Mas em nenhum momento algo é questionado: sua qualidade. Lado a Lado pode ter sim o seu ritmo não tão eletrizante como o de Avenida Brasil, mas se trata de um trabalho refinado, algo pesquisado e feito com muito cuidado, o que os seus fãs agradecem e faz com que não percam nenhum dia.

Temas como o preconceito da mulher que decide trabalhar e se divorciar ou então que já não é mais virgem antes do casamento (ou “moça” como era dito na época), do negro que venceu a escravidão e tenta trabalhar e até mesmo da cultura africana, são temas recorrentes e que só enriquecem a produção. São assuntos que vão sendo questionados e nos fazendo pensar o quão difícil era a aceitação de coisas do nosso cotidiano e de algumas que outros ainda insistem em realizar e retroceder, como o racismo e preconceito contra outras culturas. A novela também aborda a vinda do futebol ao país e como o samba foi ganhando reconhecimento e deixando de ser considerado algo de quinhão inferior.

Além disso, a novela não deixa de ter os clichês que estão sempre presentes: bons vilões, casais que torcemos para que fiquem juntos, a parte cômica que dá leveza e também segredos a serem revelados. São ótimos núcleos e com excelentes atores dando o tom certo aos seus personagens, amados ou odiados por quem acompanha.

A novela sofre de algo que aconteceu com “A Vida da Gente” de Lícia Manzo, obtém baixa audiência, mas enorme admiração de quem acompanha e não perde um capítulo. Ontem por exemplo (10/01), foi ao ar uma das cenas mais dramáticas e bem realizadas da trama. Laura (Marjorie Estiano) sofre uma tentativa de abuso por um senador mal intencionado que lhe prometeu emprego. Laura foi salva por sua tia Celinha (Isabela Garcia) e amiga e companheira contra os tabus da época Isabel (Camila Pitanga). A cena foi de uma enorme força sem ser explícita, teve o tom certo e contou com Marjorie mais uma vez arrasando em cena acompanhada de duas veteranas. Via-se o desespero e a tristeza pelo que poderia ter acontecido e o que ocorreria depois, uma possível impunidade por se tratar de uma moça divorciada contra a palavra de um político.

Lado a Lado pode não ser campeã de audiência, mas questiona, oferece uma análise sobre o que já foi o nosso país e também entretém. Podemos dizer se tratar de uma novela completa.

* Guilherme Rodrigues

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