60 anos de TV no Brasil: para aonde vamos?

*Por Wander Veroni

Há exatos 60 anos atrás, no dia 18 de setembro, a “janela eletrônica de fábrica de sonhos” começava a funcionar no Brasil. Graças a uma iniciativa pioneira – e porque não dizer um pouco atrapalhada, de Assis Chateaubriand, dono do grupo Diários Associados, um pouquíssimo número de brasileiros assistiam a primeira transmissão da TV Tupi, de São Paulo. De lá para cá, muita coisa mudou. Hoje, não temos mais aparelhos em preto e branco, nem precisamos improvisar uma antena com uma esponja de aço para melhorar a recepção da imagem. A tecnologia permitiu que os aparelhos ficassem cada vez mais finos, práticos e convergentes. Temos uma infinidade de canais na TV aberta e Paga, sem contar nas Web TVs, que ganham força pela internet.

Apesar do grande salto tecnológico, a TV brasileira vive hoje a sua pior crise de criatividade dos últimos tempos. O formato das atrações são importadas de outros países ou, literalmente, copiados. Ninguém quer mais ousar. Os dirigentes das TVs não querem mais criar algo diferente com identidade editorial e que tenha, acima de tudo, proposta e qualidade. Está tudo mais pasteurizado e igual – o que é muito ruim, diga-se de passagem. A TV hoje é regida pela audiência e no possível faturamento comercial que um programa possa ter. A qualidade e o respeito com o público viraram artigo de luxo, praticamente não existem.

Por conta da ausência de criatividade e do respeito ao público, boa parte dos telespectadores migraram para a internet. Mas antes que os apocalípticos de plantão falem algo: não, a TV nunca vai acabar. O audiovisual está com muito mais força, inclusiva na web. O grande problema das TVs é ousar. Criar opções e, acima de tudo, precisam ouvir mais o telespectador. E ouvir não significa, necessariamente, aceitar. Mas, pelo menos, refletir se o caminho que é percorrido está agradando ou não.

Seis décadas de TV no Brasil, o que temos para comemorar? Da parte tecnológica, muita coisa. Mas, da parte criativa, de produção de conteúdo, muito pouco. Uma ou outra coisa salva. A primeira década dos anos 2000 mostrou ao público o precipício que a TV aberta entrou e, do qual, dificilmente, irá sair. Ainda não temos uma TV Nacional, nem uma TV Pública, que fale claramente para o público de várias partes do país e que permita a regionalidade cultural de cada Estado. A medição da audiência, do jeito que está, não diz o que o público brasileiro pensa, mas sim uma pequena parte dos telespectadores de São Paulo e Rio de Janeiro. Com tanta tecnologia que existe por aí, é impensável continuarmos desse jeito. O Brasil não são só dois estados do sudeste.

Será que é possível mudar o modelo atual que valoriza o sensacionalismo e a imbecialidade? Quem sabe. Infelizmente, jornalistas, roteiristas, produtores e diretores estão com as mãos atadas. Somente um “furacão”, para que esse modelo do “vale tudo por audiência” caia por terra, e outro, mais comprometido com a informação e o entretenimento de qualidade possa então ser praticado. O problema não está apenas na escolha do telespectador, no controle remoto. Mas sim, na produção, que é a raiz da TV. Chega de tratar o público como idiota!

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*Autor: Wander Veroni, 25 anos, é jornalista pós-graduado em Rádio e TV, ambas formações pelo Uni-BH. É autor do blog Café com Notícias (http://cafecomnoticias.blogspot.com). Twitter: @wanderveroni / @cafecnoticias.



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