Ainda é cedo amor, mal começaste a conhecer a vida…

8 de março de 2013 8 Por Endrigo Annyston

Alguém se lembra de ter aprendido em sala de aula que as mulheres que tentavam arrumar emprego ou estudarem eram consideradas loucas? Que uma mulher divorciada era considerada uma mancha nas tradicionais famílias? Que não importa a ocorrência que fosse, se a disputa estivesse sendo entre a palavra de um negro contra a de um branco, quem levaria a melhor seria o branco? Esse segundo e terceiro exemplos então tenho a impressão de que ainda continua valendo, dependendo do pensamento de quem estará avaliando a situação, se for igual ao da grande maioria que vivia na época em que se passa “Lado a lado”, certamente haveriam grandes injustiças acontecendo.

Novela assim como filmes, séries, músicas e qualquer outra forma de arte tem como principal objetivo entreter. Mas só  o entreter não basta mais, é necessário uma somatória de outros elementos para que tenha notoriedade. Elenco, cenários, figurino e toda a estética da novela já valeriam atenção, mas o grande destaque mesmo ficou por conta do roteiro. Os estreantes Claudia Lage e João Ximenes Braga supervisionados por Gilberto Braga fizeram uma obra linda, com personagens que instigavam sentimentos desde ódio a pena, revolta, e realizavam praticamente uma aula sobre como era viver e sobreviver no início do século XX, para quem saiu da escravidão e para mulheres que não queriam simplesmente serem donas de casa. Alguém consegue se munir de reações ao ver Laura (Marjorie Estiano) quase sendo abusada por apenas querer trabalhar? E Constância (Patrícia Pillar) quando enaltecia todo seu preconceito contra Isabel (Camila Pitanga) ou qualquer outro negro que queria ocupar algum lugar significativo na sociedade? Ou internando a filha para não ser julgada pelos seus crimes, alegando que ela estaria mentalmente doente por gostar de ler e querer ser independente? São situações que se parecem absurdas a época, por que se repetem até hoje em dia?

Ainda nos divertimos com a turma do teatro, Celinha (Isabela Garcia) e seu romance desastroso com o jornalista Guerra (Emílio de Mello), rimos também de Dona Eulália (Débora Duarte) e sua implicância com sua nora e neta ao mesmo tempo em que ficávamos apreensivos com o filho de Sandra (Priscila Sol) fora de seu casamento, o amor proibido de Alice (Juliane Araújo) e Jonas (George Sauma), contra a vontade da rancorosa Carlota (Christiana Guinle), Berenice (Sheron Menezzes) e sua inacabável inveja, entre tantos outros coadjuvantes que atuaram e tiveram seu destaque durante a trama.

Hoje a produção muito bem dirigida por Dennis Carvalho chega ao fim. E que fique em nossa lembrança a linda amizade de Isabel e Laura, o ódio que tivemos de Catarina, Constância, a indignação pelo racismo e outro qualquer preconceito que tenhamos visto em cena feito por quem fosse. Nos entretemos, mas acima de tudo podemos ver que muita coisa não mudou, mas a nossa mente e a forma de analisarmos e julgarmos algo, isso sim foi e deve continuar se alterando. Lado a lado deixa essa mensagem, e que a voz da igualdade seja sempre a nossa voz.

* Guilherme Rodrigues