“Amor à Vida” tem estreia promissora

Walcyr Carrasco até que demorou para chegar ao horário mais nobre da Globo. O autor mais “produtivo” do cast da Globo (emplacou nada menos que oito novelas desde 2000, além de ter assinado roteiros do Sítio do Picapau Amarelo, concluído Esperança e supervisionado O Profeta) é, sem dúvidas, dono de vários dos sucessos da última década. Sendo assim, é mais do que credenciado a ocupar uma vaga no seleto time de “autores das nove”. Segundo ele próprio, a oportunidade só não surgiu antes porque ele não havia apresentado nenhum projeto para a faixa. Agora, finalmente aconteceu.

Considerando o que foi visto nesta primeira semana em Amor à Vida, a estreia de Walcyr como autor das nove tem tudo para ser bem-sucedida. Logo de cara, a nova trama já apagou a má impressão deixada por Salve Jorge. Graças a um texto ágil e uma direção moderna, Amor à Vida chegou já mobilizando internautas e telespectadores. Toda a repercussão sentida já nesta primeira semana lembrou o frisson causado por Avenida Brasil em seu início. Se a nova história vai virar cult como a saga de Nina (Débora Falabella), só o tempo dirá, mas que Amor à Vida mostrou potencial, não há dúvidas.

Tudo aconteceu já no primeiro capítulo. A novela mostrou apenas seus personagens centrais e os apresentou conforme as ações foram se desenrolando. O ritmo foi frenético: a mocinha Paloma (Paolla Oliveira) conheceu Ninho (Juliano Cazarré), se apaixonou, fugiu, engravidou, voltou, se escondeu, fugiu de novo, pariu num banheiro sujo e teve sua filha raptada pelo irmão do mau Félix (Mateus Solano). Enquanto isso, o mocinho Bruno (Malvino Salvador) comemorou a gravidez da mulher Luana (Gabriela Duarte), e a viu morrer no parto, assim como seu bebê, até encontrar a filha de Paloma jogada numa caçamba. Pronto, Amor à Vida arrebatou.

Os capítulos seguintes já não foram assim tão intensos, mas também não economizaram trama. Paloma e Bruno se conhecem, Ninho volta e um triângulo amoroso já se forma. Enquanto isso, Félix arma planos mirabolantes para tirar a irmã da linha de frente pelo controle do hospital da família, enquanto tem aventuras sexuais nas horas vagas. Homossexual, Félix mantém um casamento de fachada com Edith (Bárbara Paz). Seu segredo, surpreendentemente, já começou a ruir no terceiro capítulo: Edith o flagra com um garotão no shopping. Nas mãos de outro autor, todas essas situações poderiam se arrastar por meses a fio. Amor à Vida tem uma semana no ar.

Ou seja, Amor à Vida se mostra como um novelão melodramático clássico, com algumas pitadas de ousadia. O drama domina e, até aqui, não houve espaço para as piadinhas infantiloides que destruíram as últimas obras do autor Walcyr Carrasco (na torcida para que continue assim). Arrisca ao apresentar uma mocinha sexualmente livre e um vilão gay enrustido. Até aqui, as novidades parecem não ter afugentado o público. Pelo contrário. Á primeira vista, os telespectadores compraram a história e têm se deliciado com as armações de Félix.

Cabe aqui uma análise sobre as diferentes abordagens sobre a homossexualidade vistas nas novelas. Se num passado não muito distante, gays eram vistos apenas como elemento cômico em folhetins, nos últimos anos o leque foi ampliado. No entanto, numa busca (sadia) de tratar o tema com a naturalidade que lhe é devida, os autores acabaram caindo na armadilha de mostrá-los sempre como “os amigos, os bonzinhos”, repletos de bom-mocismo. Ótimo isso, mas chega o momento de partir para outras possibilidades. Gays não são só gays; são humanos com qualidades e defeitos. Aguinaldo Silva deu o primeiro passo em direção a essa abordagem em Cinquentinha e Lara com Z com o personagem Carlo (Pierre Baitelli), mas sua participação nas obras não era das maiores. Amor à Vida dá um passo à frente.

Sendo assim, o desafio aqui é mostrar Félix como um vilão que, por acaso, é gay,e não um gay que, por acaso, é vilão. Sua homossexualidade deve ser abordada como um item a serviço da moldagem da personalidade do personagem, e não como seu único traço. Nesta primeira semana, ao menos, Walcyr conseguiu isso com louvor. A ressalva fica apenas no excesso de expressões gays usadas pelo personagem. Na bela cena em que se revela à esposa Edith (aliás, show de interpretação de Solano e Bárbara Paz), Félix deixa claro que não frequenta “lugares gays”. Então onde foi que aprendeu a falar daquela maneira? A ligeira afetação e as frases irônicas são pontos a favor do personagem, desde que não descambem para a caricatura no decorrer dos capítulos. Até aqui, todos esses ingredientes serviram para transformar Félix na sensação da novela. Bom sinal.

Falando em sensação, outra personagem que promete é Valdirene, da excelente comediante Tatá Werneck. Sua primeira aparição, no capítulo de quinta-feira, 23, teve direito a uma vigília nas redes sociais, onde Tatá acumula fãs ardorosos graças aos seus anos de MTV. E a espera valeu a pena. Logo na primeira cena, Valdirene aparece num flash de um vídeo que teria feito para se inscrever no Big Brother, onde satiriza o hit da net Ines Brazil. A plateia veio abaixo! Talentosa e hilária, Tatá já mostrou que vai dar conta do recado e tem todas as condições de pegar a novela para ela. Ao que tudo indica, da debandada de humoristas da MTV, Tatá é a que se dará melhor, já que, até aqui, Dani Calabresa e Marcelo Adnet ainda não aconteceram. De olho nela!

É muito bom ver Walcyr Carrasco assinando uma obra verdadeiramente densa, adulta, que foge do excesso de cor e do tatibitate que minaram suas últimas novelas das sete. O autor sabe o que funciona numa novela e não tem pudores em apostar naquilo que dá Ibope. Agora, é saber manter a agilidade mostrada nesta primeira semana ao longo dos próximos sete meses. Ao que tudo indica, Carrasco fará uso da narrativa episódica, com arcos de trama com começo, meio e fim que se renovam, como foi Caras & Bocas. Parece promissor.

Só mais uma coisa: troquem a música de abertura. Urgente!

Por André San 


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4 comentários em ““Amor à Vida” tem estreia promissora”

  1. concordo em trocar a música, eu preferia a da paula fernandes, ou qualquer outra, nada contra o Daniel nem ao sertanejo, como um jornalista do uol quis dar a entender,pelo contrário, mas não ficou legal essa música na abertura da novela.

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