“Avenida Brasil”: a novela de maior repercussão dos últimos tempos


Novelas, já vimos aos baldes. Enormes sucessos, já não tantos. Porém, todos bastante enraizados na memória afetiva do telespectador. Ao que tudo indica, Avenida Brasil será dessas novelas que lembraremos sempre, tamanha a comoção que os personagens criados por João Emanuel Carneiro provocou na internética audiência. A repercussão da trama das nove, mais do que seus números de audiência, chamaram a atenção desde o primeiro capítulo, quando as redes sociais foram tomadas por espectadores compadecidos do sofrimento da pobre Rita (Mel Maia). De lá para cá, o debate em torno de Avenida Brasil só aqueceu.

Não havia dúvidas: estávamos diante de uma novela cult, daquelas que até aquele intelectual engomadinho que odeia folhetins arrisca uma espiada. Curioso, se levarmos em consideração que o texto de João pende para o popular, no melhor sentido da palavra. Mas o autor parece mesmo ser o craque em agradar do noveleiro ao esnobe. Novela anterior com o mesmo status cult foi A Favorita, do mesmo autor. Trata-se, sem dúvidas, de um feito notável que, por si só, já coloca suas duas obras num capítulo vip da história das telenovelas.

Para falar de Avenida Brasil sem ser injusto, é  preciso enxergá-la como duas novelas distintas. A primeira engloba do primeiro capítulo, quando somos apresentados à Rita e Carminha (Adriana Esteves) e testemunhamos todas as maldades da madrasta diante da enteada sofrida; e a segunda, que ocupou mais ou menos as duas últimas semanas do enredo, quando a vilã é finalmente desmascarada pela família Tufão e entra em declínio. Tal separação se dá  pelo imenso peso que a rivalidade entre Carminha e Rita, que cresceu e se tornou Nina (Débora Falabella), tinha na obra. Quando Carminha é escorraçada da mansão, este peso diminuiu e outras tramas tomaram conta da história até o seu desfecho.

Com a rivalidade entre Nina e Carminha, João Emanuel Carneiro criou um interessante jogo de espelhos, no qual suas protagonistas se revezavam no papel de vítima e de algoz. Nina era dona de um passado sofrido, vítima de uma série de desgraças desencadeadas pela madrasta. Por isso, era alimentada por um ódio legítimo, que justificou várias de suas ações não muito ortodoxas, na tentativa de se vingar da vilã. Já Carminha era uma bandida que só queria se dar bem. Roubava e enganava, mas estava longe de ser uma psicopata maluca. Ao contrário de Nina, que o público conheceu toda a sua história, o passado de Carminha era uma incógnita. E, cada vez que um detalhe dele vinha à  tona, suas ações também passaram a se justificar. Não que isso amenizasse as maldades da megera, mas as justificavam de tal maneira que, não raro, o público passou a compreendê-la. Com isso, João Emanuel Carneiro levantou questionamentos sobre o caráter de suas personagens, e levou tal questionamento ao longo da novela toda. Em A Favorita, o autor também brincou disso, mas não levou a dubiedade de suas Donatela (Claudia Raia) e Flora (Patricia Pillar) até o fim.

No entanto, quando Carminha sai de cena, Avenida Brasil se torna uma nova novela. Santiago (Juca de Oliveira), o pai da vilã que surgiu no meio da saga e parecia inofensivo, revelou-se um mau caráter de primeira categoria e passou a levar a novela nas costas. Com isso, Carminha se apagou. De megera de pose triunfante, a vilã passou a ser vista como um bicho acuado. Santiago passou a guiá-la, e ela, a contragosto, passou a obedecê-lo, sempre questionando seus planos. Do outro lado do “espelho”, Nina passou de protagonista a figurante de luxo. O passado obscuro dos moradores do lixão tomou conta da trama principal, e Nina, como pouco tinha a ver com aquilo, ficou sem função. Aí veio o assassinato misterioso de Max (Marcello Novaes) que, como se comprovou no último capítulo, não era lá tão importante para a conclusão da obra. Foi a própria Carminha que matou o amante. Oh!

A fase final serviu para que João Emanuel Carneiro criasse uma possibilidade de redenção a Carminha. E foi justamente o que ele fez. O mundo criado por Carminha se desfez diante dela, e já não havia mais nada a fazer além de aceitar que ela estava arruinada. Com tempo de sobra e acuada pelo pai, Carminha teve a chance de refletir e concluir que nada que ela fizesse poderia consertar tal situação. E foi assim que, no último capítulo, ela optou por salvar Tufão (Murilo Benício) e Nina. Depois passou uma temporada na cadeia, com mais tempo para repensar tudo o que ela provocou. E de lá  saiu mansa, aceitou seu destino no lixão e se permitiu um abraço na rival Nina.

Com Carminha redimida, Avenida Brasil teve um desfecho que foi na contramão das maiores obviedades, o que não deixa de ser interessante. Vilões de novela, na maior parte das vezes, ou se dá  muito mal (morte, cadeia, hospício, ruína), ou se dá muito bem (foge para Paris, dá uma banana para o Brasil, recomeça seus golpes num outro lugar, aparece triunfante na janela do carro… ops!). Não que não tenhamos visto outros vilões se redimirem (a Verônica, Paola Oliveira, de Cama de Gato, foi a mais recente), mas este caminho sempre se revela o mais tortuoso. Como acreditar que alguém que passa o tempo todo fazendo maldades resolve se arrepender no final? É preciso criar toda uma base para que tal redenção não soe forçada. No caso de Carminha, como foi dito acima, sua situação ficou tão ruim, que ela se sentiu acuada. Talvez pela primeira vez na vida, ela não sabia mais o que fazer. Tal situação, sem dúvidas, pode modificar alguém. Além disso, o autor tomou o cuidado de não descaracterizá-la neste processo. Ela continuou impaciente e desbocada. Apenas aceitou sua nova condição. No fim, o abraço entre Nina e Carminha teve até ares de lição de moral. “A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena”, teria dito seu Madruga. No final, Nina e Carminha perceberam o quanto se corromperam em nome do ódio que nutriam uma pela outra. Ódio este que não levou as duas a lugar nenhum. Simpático.

Avenida Brasil ditou moda. Frases e situações vistas na novela, em pouco tempo, se tornaram hits nas redes sociais. Desde o impagável “hi-hi-hi” de Nilo (José de Abreu), passando pelo “me serve, vadia!” de Nina, até chegar ao fabuloso “eu quero ver tu me chamar de amendoim!”, de Zezé (Cacau Protássio), Avenida Brasil mediu sua força na rede. A hashtag #Oioioi dominava o Twitter enquanto a trama estava no ar. Todo mundo “congelou”, recriando o efeito visual que encerrava os capítulos da novela em seus avatares. Há quanto tempo uma novela das nove não mexia tanto com o comportamento do público?

Coadjuvantes eficientes ajudaram a construir Avenida Brasil. Juliano Cazarré, que já havia conhecido o sabor da popularidade em Insensato Coração, se consagra em definitivo ao defender o abobalhado Adauto. Cacau Protássio roubou a cena na cozinha da mansão dos Tufão com sua Zezé. Claudia Missura, grande atriz, imprimiu humanidade à sua Janaína. Murilo Benício criou mais um tipo interessante, dando vida a um personagem que tinha tudo para não agradar. Tufão foi grande! Também merecem menção Marcello Novaes (Max), Isis Valverde (Suellen), Daniel Rocha Azevedo (Roni), Fabíula Nascimento (Olenka), Luana Martau (Beverly), Leticia Isnard (Ivana) e Nathalia Dill (Débora). Os veteranos Marcos Caruso (Leleco), Eliane Giardini (Muricy), Vera Holtz (Lucinda), José de Abreu (Nilo) e Juca de Oliveira (Santiago) tiveram grandes momentos. O núcleo de Cadinho (Alexandre Borges), tão criticado por alguns, rendeu momentos de humor non sense saborosíssimos, que se ampliaram quando todos se mudaram para o Divino. Débora Bloch (Verônica), Camila Morgado (Noêmia), Carolina Ferraz (Alexia) e Betty Faria (Pilar) brilharam. E se é para falar de talento, não se pode deixar de citar as protagonistas. Débora Falabella defendeu dignamente uma personagem complicadíssima que foi Nina. E Adriana Esteves fez simplesmente o melhor trabalho de sua carreira. Avenida Brasil era a novela da Carminha!

Avenida Brasil também merece destaque pela sua competente direção. Ricardo Waddington tem se mostrado craque em dramas densos, ao imprimir um estilo noir que ajuda a contar a história. A trama foi dona de uma fotografia vitoriosa, belíssima, sobretudo na primeira fase. Amora Mautner foi quem imprimiu o estilo informal das cenas da mansão de Tufão, com todos os personagens em cena falando ao mesmo tempo. A bagunça organizada era facilmente identificável e foi um grande acerto.

Claro que nem tudo foram flores. O fato de Nina não  ter salvo as fotos que provavam a traição de Carminha num pen drive provocaram ruído na narrativa. Ficou estranho. Além disso, a história teve alguns momentos de barriga entre uma virada e outra. Mas o saldo geral foi positivo. Avenida Brasil fez história e deixará saudades. #Oioioi

* André San

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