Beijo gay: um tabu a menos em uma sociedade repleta de preconceitos

14 de maio de 2011 0 Por Endrigo Annyston
Na última quinta-feira tivemos o que deu para chamar de momento histórico da TV brasileira. Refiro-me a isso porque aconteceu o que consideram ser “o primeiro beijo gay em novela”. Controvérsias cá ou lá mediante datas e tentativas, ele finalmente aconteceu em “Amor e Revolução” escrita por Tiago Santiago, e a via crúcis a enfrentar para assistí-lo também foi digna de uma novela a parte.

Em primeiro lugar quero declarar que tio Sílvio Santos me fez passar uma tremenda raiva por ter me obrigado a assistir o capítulo no dia 11, para quando a cena estava prometida para descobrir que acabou sendo adiada para o dia seguinte como estratégia de audiência. Não que querer segurar seu público seja algo a ser condenável, mas o problema é a forma como tais estratégias são executadas. Mas tudo bem, tentarei esquecer essa parte da presepada e ir direto ao que interessa.

O beijo entre Marcela (Luciana Vendramini) e Mariana (Gisele Tigre) finalmente foi aquele que o telespectador quis ver e esperou por tanto tempo. Não foi bitoquinha, do qual temos aos montes e o suficiente para fazer clipes sobre o assunto e que tanto nos frustra. Foi um beijo com vontade, embora algo do texto e da interpretação que o antecipou e que o seguiu pudesse causar constrangimentos.

Foi uma bela jogada do SBT, que tinha mais a seu favor para lançar mão da quebra de tabus do que a Globo. Amor e Revolução é exibida em um horário que traz mais liberdade, em uma emissora onde o que mais se quer realmente é alavancar a audiência pois não há exatamente o que se possa chamar de um público fiel com é o caso da emissora líder. Também usou do recurso do fetiche por ter começado com o beijo de duas mulheres onde a rejeição não fala assim tão alto, embora haja a promessa também do beijo masculino. E assim começamos a quebrar mais alguns preconceitos. Tabus a menos, assim como alguns outros já foram quebrados recentemente.

Em termos de ficção, tivemos Tititi e o relacionamento de Thales e Julinho em que o amor foi mostrado por um outro prisma, de outras formas, com direito a declarações e gestos de carinho e que ainda teve o apoio do público. Na vida real, a união homoafetiva foi finalmente reconhecida com o status de união estável e, portanto tendo seus direitos e responsabilidades reconhecidas e estabelecidas. Tremendos avanços em uma sociedade civil embora a mentalidade de alguns possa ainda ser de uma estagnação ímpar. Não acho que seja preciso entrar em detalhes a respeito de políticos que julgam a Bíblia como sendo acima da Constituição, não é?

Seja onde for que tenha acontecido ou a forma como tenha acontecido esse beijo, é mais um passo na caminhada em favor do amor e da diversidade. Quem sabe possamos sonhar com um Brasil menos preconceituoso e mais justo? Afinal, uma parte do que se tinha como impossível aconteceu, não é mesmo?
  
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* Perfil: Emanuelle Najjar – Jornalista, formada pela FATEA em 2008, pesquisadora da área de telenovelas. Editora do Limão em Limonada (limaoemlimonada.com.br)