Bolsonaro: o “tio mala” a legitimidade do ódio e os novos tempos

3 de abril de 2011 1 Por Endrigo Annyston

É, isso não estava nos planos, mas há momentos em que o inesperado acontece e as prioridades mudam. Acho que isso define bem o tema do Ponto de Vista dessa semana, em que o assunto não poderia deixar de ser sobre um nome que ficou bastante popular de repente. Um nome que dá margem a trocadilhos que talvez façam jus a sua reputação.

Estou falando de Jair Bolsonaro, deputado federal (PP-RJ), conhecido por seu jeitinho terno e gentil. Já que é hábito meu falar de tios e tias, talvez ele tenha um daqueles perfis que todo mundo consegue encontrar na própria família.

Eu o definiria como aquele tio mau humorado, reacionário, saudoso do que chama de bons tempos e defensor daquela tal de moral e bons costumes. Um daqueles parentes chatos, comparados ao “Tio Mala” da Grande Família, mas claro sendo que esse da ficção era um tipo divertido. Não é o caso de Bolsonaro.

Esta semana seu aparecimento não foi por seu folclórico mau humor ou pelas costumeiras palavras de ordem. É que o seu discurso foi feito em um lugar onde obteve mais repercussão do que seus palcos habituais. As câmeras do CQC geraram algo que aparentemente fugiu do controle, transformando-o em um símbolo. Não sei explicar um símbolo do que, mas certamente não foi de algo positivo.

Se você está  lendo esse texto, talvez tenha visto a confusão. Caso não, eis aqui uma oportunidade. Assista se for o caso, ignore se lhe convier. Caso não queira ver o vídeo reproduzo por escrito o estopim de todo o problema: uma pergunta feita pela cantora Preta Gil.

 – “Se o seu filho se apaixonasse por uma negra o que você  faria?”

– “Preta, não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco porque meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambiente como lamentavelmente é o teu”

 

O que assistimos foi uma manifestação muito clara de preconceito. Isso a grosso modo, pois esta discussão fica entre o racismo e a homofobia. Seja lá uma coisa ou outra, ou as duas juntas, o fato é que ele foi infeliz em suas colocações – para não dizer outra coisa.

Bolsonaro alegou não ter entendido a pergunta, e ter respondido no calor da emoção. Com isso fugiu das alegações de racismo, assumiu a homofobia que de qualquer modo sempre foi clara em qualquer um de seus discursos. Seja como for, a repercussão parece ter colocado o deputado em maus lençóis.

Consequências? Provavelmente sim. Fora a repercussão da tag #forabolsonaro ainda haverá alguns problemas judiciais: Preta Gil acionou advogados para mover processo contra o deputado por crime racial e homofobia; já a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ) entrou com representação na Câmara dos Deputados com a intenção de abrir um processo por quebra de decoro parlamentar.

Punição? Duvido muito. Certas discussões mudam frente a determinados problemas. Racismo é visto como repudiável em todas as instâncias, assim como a xenofobia que tomou espaço no Twitter quando uma de suas usuárias resolveu exercitar o seu ódio. Quanto a homofobia tem quem afirme seu exercício como liberdade de expressão e opinião legitimada por um regime democrático. Ao contrário da cor da pele, a atração pelo mesmo sexo é vista como uma questão de escolha com uma possível cura, ou um desvio de caráter.

Liberdade de expressão? Sim, mas poucos entendem isso amplamente. A maioria das pessoas só  se lembra disso quando deseja se expressar, ou quando concorda com o que o outro diz. Incitar o ódio passa longe de ser uma das premissas e alguns daqueles que ocupam o poder aparentemente não tem a mínima ideia disso.

Incitar o ódio contra Bolsonaro? Não mesmo. Embora suas ideias quanto a moral sejam repugnantes, ele não é o único a propaga-las. Estranho é que a todo momento ele alega sua “boa educação” para refutar o que vá contra suas ideologias, porém não contemplou o respeito ou o bom senso. Respeito certamente não inclui incitar o ódio: quantas vezes não ouvimos alguém repetindo o discurso do deputado por aí?

Como disse uma usuária do Twitter, a @bruxaOD: “Bolsonaro não deve ser cassado. suas idéias é que devem ser expostas ao ridículo até caducarem por falta de respaldo na população eleitora.”

Sonho com o dia em que isso aconteça. Nesse dia, as falas dos nossos queridos tios reacionários poderão ser como peças de museu. Talvez pomposas em sua época, que contemplamos e ouvimos com atenção e até respeitamos por sua idade, porém não mais que isso, afinal o mundo seria outro. Novos tempos, novas atitudes.

Respeitar não significa aceitar. Significa não propagar discursos de ódio. Será que um dia seremos capazes de tamanha façanha?

Talvez. Quem sabe o que será amanhã?

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* Perfil: Emanuelle Najjar – Jornalista, formada pela FATEA em 2008, pesquisadora da área de telenovelas. Editora do Limão em Limonada (limaoemlimonada.com.br)