BOM DIA E CIA atravessa crise

BOM DIA E CIA atravessa crise

22 de agosto de 2013 6 Por Endrigo Annyston

Dias atrás, o infantil Bom Dia e Cia comemorou 20 anos no ar. A atração não deixou passar a data em branco, e seus atuais apresentadores, Maisa Silva e Jean Paulo Campos, conversaram ao telefone com a primeira titular do matinal, Eliana. A apresentadora, que hoje briga competentemente na guerra dominical, falou do início da empreitada, relembrando o primeiro formato do Bom Dia e afirmando, com razão, das gerações que cresceram assistindo ao programa. Com bom humor, resgatou momentos que aconteceram antes de a atual dupla de apresentadores nascer, além de cantar a música Dedinhos, que a consagrou. Maisa e Jean não conseguiram disfarçar a surpresa, ao se darem conta de que estão à frente de um programa já tão longevo.

De fato, a marca Bom Dia e Cia completar 20 anos no ar é um feito e tanto. Ao lado de A Praça É Nossa, Domingo Legal e Programa Silvio Santos, é um dos títulos mais antigos da emissora. Sua trajetória chega a surpreender, tendo em vista que o Bom Dia e Cia entrou no ar sem maiores pretensões. Tratava-se de uma segunda chance dada por Silvio Santos à Eliana, que chorou e implorou ao patrão uma nova oportunidade, no momento em que sua primeira atração, Festolândia, saiu do ar por baixa audiência pouco tempo após a estreia. “Espremido” entre a Sessão Desenho e o Show Maravilha, o Bom Dia e Cia beirava o simplório, trazendo Eliana sentada ao lado de um boneco, o Flitz, dando dicas educativas e ensinando a fazer brinquedos de sucata. A apresentadora também tomava café da manhã com um convidado todos os dias.

Deu certo. O programa vingou, ganhou novos investimentos e até adotou o nome de sua apresentadora no título, tornando-se Eliana e Cia. Voltou a ser Bom Dia e Cia quando Eliana deixou a atração, sendo substituída por Jackeline Petkovic. À esta altura, Bom Dia e Cia já era o principal infantil da grade da emissora. Seguiu com sua tônica educativa pré-escolar, costurada por desenhos de expressão. A fórmula simples garantia a liderança na audiência, fazendo a rival direta Globo a reformular, diversas vezes, sua grade infantil matinal.

No entanto, na década de 2000, o SBT mergulhou numa séria crise. A bomba estourou mais precisamente em 2003, fazendo com que o canal cortasse diversos gastos. Vários programas foram cancelados na época, como o Curtindo uma Viagem e o Disney Cruj (outro infantil de sucesso da grade, diga-se). O Bom Dia e Cia não foi cancelado, mas viu seu orçamento diminuir. Jacky, que contracenava com diversos fantoches e a menina Michele, passou a aparecer sozinha. O cenário diminuiu. O roteiro da atração também foi enxugado e a única função da apresentadora passou a ser chamar os desenhos. Ainda querendo enxugar o orçamento, a direção da emissora chegou a cogitar fazer do Bom Dia uma mera sessão de desenhos, tendo em vista que era sabido que as animações eram a verdadeira grande atração do programa. A ideia não agradou o comercial. Assim, a solução foi substituir Jacky pela dupla Kauê e Jéssica. Dois nomes cujos salários somados representavam uma economia com relação ao salário de Jacky.

Deu-se início ao revezamento de apresentadores do Bom Dia e Cia. Passada a gestão Jéssica e Kauê, surgiram Priscila e Yudi, inicialmente acompanhados da professora de dança Ítala, que logo deixou a atração. Com a nova dupla e com as contas já controladas, o SBT voltou a investir, timidamente, na atração. O Bom Dia e Cia voltou a ter um acabamento mais caprichado e roteiros mais bem elaborados. Em 2007, passou a ser apresentado ao vivo, apostando em jogos por telefone, formato que permanece até hoje. No início do ano, Priscila e Yudi, já crescidinhos, foram dispensados. Atualmente, a atração é comandada por atores mirins da novela Carrossel, como Maisa e Jean, e a dupla de palhaços Patati Patatá, em esquema de revezamento.

Hoje em dia, o Bom Dia e Cia reina sozinho na seara infantil matinal. No ano passado, a Globo cancelou sua TV Globinho, e o Band Kids nunca incomodou. Sempre com boa audiência, mesmo quando o SBT estava totalmente mal das pernas, parecia que o atual cenário o favorecia. Não foi o que aconteceu. Segundo a coluna de Keila Jimenez, em dez anos a audiência do matinal caiu para quase metade do seu público. Ou seja, quando parecia que o Bom Dia e Cia passaria a nadar de braçadas nas manhãs, na verdade a coisa não vingou.

Vários motivos podem ser apontados para esta queda de audiência. Primeiro: o desgaste de seu formato. Desde que o Bom Dia e Cia passou a ser exibido ao vivo, sua fórmula segue a mesma, com os mesmíssimos jogos sempre. O formato passou a ser adotado, também, pelo Sábado Animado, e por outros infantis da grade, como o extinto Carrossel Animado, e o atual Clube do Carrossel. Não há quem ainda aguente tartarugas nadando pra lá e pra cá e a roleta de prêmios rodando toda hora. Além disso, há um segundo, e talvez mais importante, motivo para a queda: os desenhos. As animações sempre foram o principal atrativo do programa, não há como negar, mas elas nunca estiveram tão desinteressantes.

No passado, cada vez que a emissora adquiria um novo lote de desenhos, fazia aqueles chamadões repleto de novidades. Mas há quanto tempo uma estreia verdadeiramente interessante não acontece no Bom Dia e Cia? O infantil segue promovendo um rodízio dos mesmos desenhos de sempre. X-Men Evolution, Liga da Justiça ou Projeto Zeta são ótimos, mas já foram ultrarreprisados. O que Há de Novo, Scooby-Doo? e O Máskara também podem dar um tempo. As últimas novidades foram o novo Thundercats e o Show dos Looney Tunes (que vai-e-volta da grade). E, depois de Ben 10, não surgiu mais nenhuma nova animação capaz de virar mania diante da molecada.

 Com a atual crise, deve-se voltar o discurso de que programas infantis não funcionam mais na TV aberta. Balela. Prova de que funcionam foi o sucesso de Carrossel, um produto infantil capaz de impulsionar toda a grade da emissora. Sua substituta, Chiquititas, parece não ter ainda decolado tanto quanto sua antecessora, mas ainda é o único produto da grade diária a garantir audiência na casa dos dois dígitos. A verdade é que o Bom Dia e Cia está acomodado. Não investem em novidades no formato, nem no cardápio de desenhos, e ainda promovem esta salada de apresentadores que ninguém entende. Se continuar assim, os números seguirão em queda.

Por André San 


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