Cena Repórter: Censura americana à internet incentiva a criatividade

 *Por Wander Veroni 


Compartilhar, baixar, recomendar, curtir e comentar. Estas são algumas ações típicas dos internautas em várias partes do mundo, mas ao que parece tem incomodado muita gente. Recentemente, numa tentativa de frear a pirataria e o livre compartilhamento de arquivos que possuem direitos autorais, a indústria do entretenimento resolveu radicalizar: indiretamente, pediu o fechamento do Megaupload, uma vez que o SOPA e o PIPA tiveram a votação adiada no Congresso norte-americano. A decisão se deu sob a acusação de que o site faz parte de “uma organização delitiva responsável por uma enorme rede de pirataria virtual mundial”, segundo o FBI.

Vários outros sites de compartilhamento de arquivos ficaram com medo de represálias, numa tentativa de fugir deste mesmo destino do Megaupload. Mas, se isso é uma lei americana, o que tenho a ver com isso? Tudo, principalmente se você gosta de compartilhar fotos, livros, músicas, filmes e séries norte-americanas. Além disso, grande parte das redes sociais e sites de compartilhamento são americanos ou possuem os “Termos de Uso” baseado na legislação vigente dos Estados Unidos.

Apesar de ser o site de compartilhamento de arquivos e de vídeos mais famoso do mundo, o Megaupload possui concorrentes, principalmente no serviço de downloads. No Brasil, os sites mais usados são VideoBB, Filesonic, Fileserve, 4shared, RapidShare e MediaFire. Muitos deles, simplesmente fecharam o programa de afiliados ou bloquearam o acesso de usuários americanos ou começaram a deletar contas e arquivos de usuários que violem direitos autorais. Com isso, muitos usuários perderam o acesso a milhares de arquivos e, principalmente, os donos de conta premium.

Mesmo com a pressão dos internautas que são contra a qualquer tipo de censura e as ações de protesto do grupo ciberativista Anonymous, muitos internautas ficaram preocupados. Mas, será que eu não vou poder mais ver os episódios recentes da minha série preferida? Foi o que pensou a estudante de relações públicas, Mayara Carneiro, de 24 anos. Mayara, assim como milhares de internautas em todo o planeta, desistiram de assistir as séries que gosta pela TV e baixa os episódios pela internet toda semana.

“No início fiquei preocupada, principalmente porque o site que costumo baixar soltou um aviso no Twitter falando que estava pensando em fechar. Infelizmente, não dá para assistir séries pela TV aberta ou por assinatura. Quando não tem muita reprise, simplesmente a série muda de horário ou é cancelada de uma hora para outra. É um desrespeito! O mais legal de ver pela internet é que o episódio passa num dia na TV americana e no outro os próprios internautas legendam e compartilham o vídeo. Se fosse esperar na TV [aberta ou Paga], ia demorar meses.”, desabafa a estudante.

Mayara conta ainda que os sites/blogs que compartilham séries tem se juntado para buscar outros mecanismos de download ou de exibição de vídeo, uma vez que o Megaupload foi retirado do ar. “Acredito que boa parte dos internautas fazem o download do episódio da série para assistir, e não comercializar. Acho que a grande diferença que os americanos não sacaram é que há um abismo muito grande entre pirataria e compartilhamento. Não é à toa que os donos de site que compartilham episódios de série já estão dando um jeito de não deixar a peteca cair. O ser humano é muito criativo….a grande questão é entender a filosofia da internet”.

Por mais que o compartilhamento livre seja a bandeira atual da internet, a ação ainda é vista como crime no Brasil e em diversos países. Há dois anos, o ex-blogueiro R.A.M. – que pediu para não ter o nome identificado, desabilitou um blog que compartilhava episódios de série e filmes pelo Megaupload. Ele conta que é um nicho lucrativo e que tem muita gente maliciosa no meio. “Se o cara coloca os episódios para o download livre dos internautas e divulga muito esse link, ele consegue ganhar uma grana boa no programa de afiliados sem fazer muita força. Há ainda aqueles que colocam propagandas antes do internauta fazer o download só para ele clicar de próposito. E tem gente mais esperta ainda que nem coloca o episódio da série ou do filme e vira uma isca de trouxa para o cara clicar direto na propaganda”, revela.

Cansado da cobrança dos internautas por atualizações constantes e por medo de ser preso, R.A.M. conta que desativou o blog depois que recebeu uma intimição da Justiça. “Fiquei assustado com a possibilidade de ir para a cadeia e desativei meu blog. Começou como uma diversão, mas me deu muita dor de cabeça. Fui como o Hobbin Wood que rouba dos ricos e dá para os pobres. Se as empresas que fazem as séries e os filmes fizessem um programa de afiliados decente para compartilhar os vídeos, quem sabe não seria uma alternativa, um novo modelo de negócio. Melhor do que ficar censurando tudo. Todo mundo lucraria!”.

________________________________________

*Autor: Wander Veroni, 27 anos, é jornalista pós-graduado em Rádio e TV e especializado em mídias sociais. É autor do blog Café com Notícias (http://cafecomnoticias.blogspot.com). Twitter: @wanderveroni / @cafecnoticias.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *