Censura no humor: não seria melhor rir pra não chorar?

28 de agosto de 2010 0 Por Endrigo Annyston
Censura: uma unica palavra que carrega um peso imenso em seu significado, especialmente quando vivemos em um país que durante um grande tempo viveu sob essa égide. Ela está em nossas raízes de uma forma ou de outra.
Não tente ignorar o período de ditadura. Mais que uma época importante e sombria na história brasileira, ela será argumento para quase todos os tipos de assunto, especialmente na hora de falar em liberdade de expressão e política. Coincidentemente, é disso que estamos falando por aqui hoje.
Época de eleições presidenciais. O cargo mais importante em jogo e certamente o mais fértil em se tratando de humor. Mais do que um assunto vital para o cotidiano dos cidadãos, a política também é fonte de piada, a fonte mais rica de toda a graça. Fazer a sátira parece indispensável tanto por rendimentos quanto pelo fato de humor colocar em xeque tudo aquilo que a seriedade e o desalento não despertem interesse.
E eis que essa importante ferramenta foi impedida de cumprir efetivamente seu papel por força de uma lei que está em vigor há tempos, mas só agora despertou burburinhos e manifestações especialmente dos profissionais da mídia, como o movimento Humor sem Censura.
Na teoria, o trecho da Lei Eleitoral (9.504) que prevê aplicação de multas de até R$ 100 mil a programas que usem “trucagem, montagem ou outro recurso de áudio ou vídeo que, de qualquer forma, degradem ou ridicularizem candidato, partido político ou coligação” nos três meses que antecedem eleições está em vigor desde 1997.
Tem tempo, não é mesmo? Porém nunca é tarde para protestar. Talvez um pouco atrasado mas nesse caso certamente não haveria época mais propícia já que a diversidade do humor é real, além do fato  do público ter mais formas de interagir e se expressar. Nunca antes na história deste país (um bordão muito usado em toda e qualquer sátira do Lula) houve tantos programas dedicados ao riso, especialmente aqueles que tem como matéria-prima os bastidores da política. Programas como CQC e Pânico invadem os corredores do Congresso em busca de todo e qualquer deslize, piada ou legenda engraçadinha.
Obviamente isso incomoda.
Humoristas protestaram, dando repercussão a um tema que poderia ter ficado intocado e a pressão foi tanta que sexta-feira, 27 de agosto, o ministro Carlos Ayres Britto, do Supremo Tribunal Federal, suspendeu as restrições da Lei Eleitoral. Nada concreto, apenas uma liminar. O processo continua correndo, tendo ainda de ser julgada pelo STF, mas já representa algo de valor.
Mais que o direito de uma classe de profissionais, estava em jogo a liberdade dos meios de comunicação: um requisito importante para o que chamamos de democracia. Mais que o direito de fazer piada e rir delas, mas também de fazer as pessoas participarem de um momento importante para o Brasil.
Não, não  é ufanismo. Em meio ao desalento e a descrença típica no que diga respeito a política, as vezes o riso é o único pretexto válido para despertar algo.
Não dizem que é melhor rir pra não chorar?
Talvez seja hora do ditado fazer valer.
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* Perfil: Emanuelle Najjar – Jornalista, formada pela FATEA em 2008, pesquisadora da área de telenovelas. Editora do Limão em Limonada (limaoemlimonada.com.br)