Classe C não larga o osso nem na TV Paga

*Por Wander Veroni 

Que a Classe C é a nova menina dos olhos da indústria do entretenimento audiovisual, todo mundo já sabe. Operadora de telefonia celular, programações das grades de TV, filmes, opções de provedor de internet à pacotes de assinatura na TV Paga, tudo está sendo feito para agradá-la. Mas o curioso é que ela também já mostra sinais de interferência nos rumos da TV por assinatura. Uma pesquisa divulgada esta semana pela Coluna Ooops!, do jornalista Ricardo Feltrin, revelou que as quatro maiores audiência da TV Paga são dos canais abertos Rede Globo, Rede Record, SBT e Band, respectivamente, nessa ordem. Ainda, a pesquisa apontou que de cada 100 TVs por assinatura ligadas no Brasil, mais de 60 sintonizam os canais abertos na maior parte do tempo.

Outro dado que chama a atenção é o fato da Globo ter 37% de share [porcentagem de TVs ligadas] na TV Paga. O estudo analisou dados das oito principais Praças entre as 14 que compõem o Painel Nacional de Televisão (PNT): São Paulo, Rio, Brasília, Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte, Florianópolis e Campinas. Ao todo, são 13,9 milhões de domicílios com TV, sendo que 3,9 milhões pagam TV por assinatura.

Em setembro, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) divulgou que o mercado de TV por assinatura ganhou 334,6 mil novos assinantes em agosto deste ano. Atualmente, o segmento de TV Paga alcança cerca de 38,8 milhões de brasileiros, estando presente em 19,4% dos lares do país, de acordo com estimativas da agência. Na região Sudeste a penetração é de 28,5%. Para ver a pesquisa completa, clique aqui.

Todos esses dados reforçam uma coisa: por mais que se tenha uma infinidade de atrações e canais na TV Paga, o telespectador não paga para assistir os pacotes de canais diferenciados, mas sim as emissoras que ele já conhece ou tem mais tradição. Outro ponto a ser observado é que com a popularização dos preços das operadoras – com valores a partir de R$ 39,90, muitas pessoas assinam TV Paga para poder sintonizar melhor os canais [da TV aberta, no antigo UHF e VHF] que mais gosta, e não só para ter acesso a conteúdo exclusivo – com exceção de eventos esportivos, como é o caso do SporTV, que é o canal esportivo mais assistido da TV por assinatura.

Com a popularização da banda larga, quem hoje quer acompanhar séries, filmes e documentários não assina mais TV Paga, basta baixar esse conteúdo pela internet ou assistir on demand – muitas vezes na mesma semana de lançamento dos Estados Unidos ou países europeus, por exemplo. Conheço várias pessoas que só assinam TV Paga por causa dos campeonatos de futebol ou pelo paper view do Big Brother Brasil.

Com o lançamento do Canal Viva, muita gente se animou em ter TV por assinatura para acompanhar as reprises do baú da Rede Globo, mas que não passou de um oba-oba inicial porque também era possível acompanhar esse conteúdo na internet. E isso é uma pena porque canais interessantes como History Channel, Globo News, GNT, Discovery e Cartoon, por exemplo, tem uma audiência muito pequena e cada vez mais segmentada. Nem a Globo News, que comemora 15 anos neste sábado (15) e que possui um conteúdo jornalístico excelente, aparece entre as 10 maiores audiência da pesquisa divulgada pela Ooops!.

Espero ansioso por um dia as operadoras de TV Paga venderem a assinatura de canais de forma individual [como acontece na Europa], tendo o cliente [telespectador] a opção de escolher um pacote mínimo de quantidade de canais da maneira que ele quiser, e não aqueles empurrados goela abaixo que ninguém vê. Alguém em sã consciência já conseguiu assistir mais de 100 canais de TV em um dia? Não tem como. Você acaba pagando por canais que jamais vai assistir. Não é justo.

Para mim, essa pesquisa divulgada pela coluna Ooops! é uma prova viva de que a Classe C não larga o osso da TV aberta, nem mesmo diante de tantas opções da TV Paga. O telespectador comum prefere ficar com os canais que conhece e troca pouco de canal. Hora de rever o que a TV Paga quer. Querer vender assinaturas a qualquer custo pode ser um suicídio a longo prazo. Só quero ver quando a mesma Classe C (re)descobrir que com uma antena parabólica ela pode acessar sem chuvisco e com qualidade os mesmos canais da TV aberta, outros de diversas regiões do Brasil e até mesmo de países vizinhos – dependendo da sintonia do satélite e da região onde o telespectador reside. O que as operadoras vão fazer?

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*Autor: Wander Veroni, 26 anos, é jornalista pós-graduado em Rádio e TV e especializado em mídias sociais. É autor do blog Café com Notícias (http://cafecomnoticias.blogspot.com). Twitter: @wanderveroni / @cafecnoticias.



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