Classificação indicativa: tá pensando que televisão é bagunça?

Há  algumas décadas, a TV brasileira esteve em um patamar onde poderíamos dizer que valia de tudo para chamar a atenção do telespectador. Para quem não viveu essa época talvez não entenda o panorama, então para compreender melhor do que se trata imagine o grotesco entre o grotesco e terá mais ou menos um resultado apropriado. A visão não foi agradável, não é mesmo?

Para evitar que esse tipo de coisa voltasse a acontecer, surgiu a classificação indicativa. Uma tentativa de colocar ordem na bagunça que gerou grande controvérsia entre diversos setores da sociedade: acusações de censura de um lado, a exigência de mais seriedade do outro. Polêmicas a parte ela está aí, firme e forte e suscitando discussões. Uma delas ganhou um novo capítulo recentemente quando o tema esteve em debate através da internet. No período entre 18 de novembro de 2010 e 27 de abril de 2011, o tema foi posto em discussão pública. Um debate que envolvia as normas e os critérios de forma bem explicada para que todos os interessados pudessem participar e do qual saíram algumas propostas como resultado.

Cinco meses e 56 mil acessos depois, e o Ministério da Justiça e o Ministério público reuniram algumas propostas para que no futuro seja criada uma única e atualizada portaria a respeito do assunto já que hoje há cinco. Emissoras de TV abertas, pagas e ONGs participaram da discussão e algumas dessas propostas foram divulgadas pela Folha de São Paulo no dia 05 de maio na coluna de Keila Gimenez e envolvem especialmente mudanças de horários e novos enquadramentos. Alguns deles vão dar o que falar.

A operadora Sky defendeu a remoção da linguagem de libras na apresentação da classificação indicativa, o que é de uma sacanagem sem igual. Estamos falando de um retrocesso porque a presença da linguagem é uma forma de inclusão. Uma iniciativa que deveria estar presente em todas as emissoras, especialmente as abertas.

O Instituto Alana e diversas ONGs sugeriram a classificação das propagandas e também maior controle quanto a grade de programas das TVs pagas. O SBT pediu a antecipação de horários: liberação de conteúdos impróprios para menores de 12 anos a partir das 14h– coisa que hoje só é permitida a partir das 20h – e os conteúdos impróprios para menores de 14 a partir das 19h– sendo que atualmente vai ao ar após as 21h. Há de se convir que é um horário bastante adequado, pois esse público também não pode ficar alienado diante de certos temas. Porém a nata fica por conta de uma outra proposta: classificação indicativa de telejornais.

Isso mesmo. Para quem talvez não tenha notado elas não fazem parte do rol de programas que devem seguir tais regras, e se isso for levado adiante vai ter emissoras por aí com sérios problemas. Afinal tem telejornais que promovem a exposição de tudo que é crime e de todas as formas de tragédia humana como se não houvesse nada mais acontecendo. E sim, estou falando da Record. Quem já teve a oportunidade de assistir seus telejornais sabe muito bem qual seria a extensão das mudanças: uma linha editorial inteira para ser mais exata.

Talvez os esforços referentes à adequação para as novas regras possa mostrar que é sim possível lucrar e ter qualidade ao invés de uma corrida desenfreada e sem o mínimo de regras. Uma missão difícil para todos os lados mas cujo final pode ser muito gratificante especialmente para quem está aqui do outro lado da telinha. Quem sabe finalmente o telespectador não possa se sair bem nessa?

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* Perfil: Emanuelle Najjar – Jornalista, formada pela FATEA em 2008, pesquisadora da área de telenovelas. Editora do Limão em Limonada (limaoemlimonada.com.br)

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