Classificação Indicativa tenta inibir o vale tudo pela audiência

*Por Wander Veroni 

Numa época não muito remota na TV aberta – há quem diga que isso ocorre ainda hoje, as emissoras de TV estavam travando uma espécie de vale tudo para ver quem consegue chamar mais atenção do telespectador pelo grotesco. A preocupação com qualidade e bom acabamento editorial do programas deixaram de ser uma meta para dar lugar ao que o público correspondia em números através dos relatórios de audiência. Telejornais populares investindo em sensacionalismo barato e as telenovelas explorando sexo e violência, são apenas os exemplos mais gritantes.

Numa tentativa de colocar ordem nas coisas, surge a Classificação Indicativa. Entre os roteiristas e produtores o novo mecanismo foi tratado como quase um ato de censura. Para o público e para a Justiça, uma esperança para que as emissoras de TV aberta – que são um concessão pública, principalmente, comecem a tratar o telespectador com mais respeito, e menos oba-oba.

Nessa sexta-feira (05/05), a Folha de S. Paulo informou, na Coluna Outro Canal, que após cinco meses de debate público via internet, o Ministério da Justiça e Ministério Público reuniram algumas propostas para a nova Classificação Indicativa na TV e obras áudios-visuais.  Segundo a coluna assinada por Keila Jimenez, o debate envolveu membros da TV aberta, TV Paga, ONGs e público em geral, contando com mais de 56 mil acessos na web. Entre as propostas estão alteração nas faixas de classificação etária por horário, remoção da linguagem de libras (de surdos e mudos) e, a mais impressionante, para não dizer urgente, a classificação de telejornais e programas jornalísticos.

Como cidadão, telespectador e jornalista, sou contra a remoção da linguagem de libras que anuncia a classificação etária das atrações. Acredito que a iniciativa é uma forma de incluir, socialmente, as pessoas com necessidades especiais. Além disso, sou a favor da extensão do recurso de “closed caption” (legendas) para todos os programas de TV para que, dessa forma, haja a inclusão de todos os públicos. Quanto a mudança etária em relação aos horários, como no caso do SBT que pediu a alteração da classificação para menores de 12 anos passar para as 14h e a de 14 anos para as 21h parece adequada e atenta a algo que já acontece, pois o público jovem precisa estar ciente de alguns temas sem a premissa do “politicamente correto” em tudo. Não devemos ser hipócritas!

No entanto, a sugestão que mais gostei foi o da classificação dos noticiários. Se ela for realmente colocada em prática, algumas emissoras vão ter que repensar toda a linha editorial, como é o caso da Record, principalmente quando falamos em telejornais locais. Uma coisa é ser popular, outra completamente diferente é acreditar que crimes, tragédias, miséria humana e tráfico de drogas são as únicas notícias relevantes da cidade.

Ah, mais isso é  que dá audiência? Será? Quão relevante é mostrar todas as apreensões de drogas feitas numa madrugada? Não, não estou falando que isso não se deve ser noticiado. Não é isso. Só estou chamando atenção para as outras notícias locais, de grande importância, presentes em outras editorias, como cultura, política, saúde, economia, etc, que deveriam ser também prestigiadas. Afinal, não é só de tragédias e crimes que vivem uma cidade. Mas o pior não é isso: seja de manhã, na hora do almoço ou à noite, o telespectador fica por dentro do mundo policial e, consequentemente, o público das mais diversas faixa etária. Algo a se pensar…aonde foi parar a TV de Primeira?

Para colocar ainda mais lenha na fogueira sobre a classificação Indicativa e, ao mesmo tempo, mostrar para o público o quanto a TV – e qualquer outro produto cultural, é pensado de forma puramente comercial por várias cabeças, que nem sempre são convergentes na mesma proposta, o articulista Carlos Heitor Cony, também na edição de sexta-feira (05/05) da Folha de S. Paulo, trouxe um texto mostrando como são pensados os roteiros.

No artigo, ele conta uma passagem mostrando como são feitos os filmes dos estúdios norte-americanos. Tudo começa com a idéia de um produtor executivo, o apoio de um bom patrocinador e estrelas em ascensão que garantem amplo retorno midiático. O roteiro, que peça fundamental para o sucesso, muitas vezes, é a última coisa a ser executada e, geralmente, feita por mais de uma cabeça pensante. “Pode parecer piada, mas as coisas funcionam assim mesmo. Um filme, uma produção teatral ou uma telenovela é um empreendimento econômico-cultural que exige um colegiado para tomar as decisões finais”, comenta Cony.

Ao ler o artigo de Cony, rapidamente, fiz associação à notícia da Classificação Indicativa na TV. A impressão que tenho é a seguinte: vamos colocar algo no ar que tenha boa audiência e, dessa forma, valorize o horário, para que possamos cobrar um valor X pelo anúncio, independente se esse programa agrega ou promova baixaria. Graças a Deus, nem todas as emissoras pensam assim em toda grade, mas possuem seus “ataques” de forma mais sutil do que outras. Não se engane: os veículos de comunicação são também empresas e, portanto, precisam gerar lucro, e não só prestação de serviço e boa reputação. Está tudo no mesmo balaio! No ímpeto, no custe o que custar para ter bons números de audiência, a Classificação Indicativa pode ser uma esperança para que o público, produtores de TV e roteiristas não fiquem refém deste “vale tudo”. Ainda existe uma esperança no fim do túnel. Será?

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*Autor: Wander Veroni, 26 anos, é jornalista pós-graduado em Rádio e TV, ambas formações pelo Uni-BH. É autor do blog Café com Notícias (http://cafecomnoticias.blogspot.com). Twitter: @wanderveroni / @cafecnoticias.

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