Classificação ou imposição indicativa?

A classificação indicativa é um mecanismo adotado pelo governo para controlar a programação da tv aberta. Ela funciona da seguinte forma: classificação livre: os programas podem ser exibidos em qualquer horário, 10 anos: também em todos os horários, 12 anos: a partir das 8 da noite, 14 anos: a partir das 9 da noite, 16 anos: a partir das 10 da noite e 18 anos: a partir das 11 da noite. Só que os critérios, o porque disso e se o conteúdo das atrações é analisado de forma coerente é uma resposta difícil de saber, pois em alguns casos sim em outros não. O que difere essa classificação de hoje com a censura da ditadura é apenas o fato de que hoje não se mexe com o jornalismo, esse é isento, o sério e os programas travestidos de jornalísticos também.

A classificação indicativa é feita primeiro pela emissora depois o órgão responsável pode concordar ou não. Vejam os casos das seguintes novelas: Da cor do pecado, Malhação (atual temporada), Lado a lado e Guerra dos Sexos. Todas elas a Globo autoclassificou como livre, já o órgão responsável não concordou e as classificou como impróprias para menores de 10 anos. Por sorte essa alteração não culminou em mudanças de horário. A Globo também teve sorte com Mulheres de Areia, após a última reprise a novela foi reclassificada para 12 anos e agora só pode ser levada ao ar depois das 8 da noite ou no Viva, já que não há classificação por horário em tv fechada, por haver meios dos pais controlar o que os filhos assistem.

Não deve ser nada fácil a vida dos autores e diretores de novela no que tange à classificação indicativa, pois qualquer deslize, qualquer excesso pode custar a reclassificação levando a uma possível mudança de horário. Isso explica porque Malhação, por exemplo, está cada vez mais parecida com novela infantil ou com novela tradicional. Está longe de ser um programa para jovens. Assuntos que consideram mais pesados como uso de drogas, por exemplo, tem que passar longe da trama ou então ser retratado de forma sutil, quase imperceptível. O SBT passou por uma reclassificação indigesta com Camaleões, a novela mexicana exibida à tarde, era classificada para 10 anos, acharam violenta demais e reclassificaram como imprópria para 12 anos. Ou a emissora mudava a novela para às 8 da noite ou tirava do ar. O prazo foi de 2 semanas. Como não tinha vaga na grade noturna o SBT editou os capítulos e exibiu o final coincidindo com o fim do prazo dado. Para compensar os fãs a emissora exibiu a novela com seus capítulos normais até o fim, em seu site.

Há algum tempo realmente pegavam pesado com cenas de sexo e violência em algumas novelas em horários como das 6, das 7. A classificação botou um freio necessário nisso e em partes é até benéfica, mas perde por ser uma coisa sem critérios claros, sem tolerância, por ser uma mera imposição e por ser até inocente, pois, quem garante que um garoto de 14 anos não vai assistir um programa que só pode ser assistido pelos de 16 às dez da noite? Deveria ser analisado o contexto. A violência, por exemplo, existe e se uma novela a mostrar no contexto, sem a explorar é até válido como sinal de alerta. O mesmo vale para as drogas. Um programa como Malhação poderia mostrar de forma clara aos jovens como é um mal o uso das mesmas.

Por fim vou contar a história de Maria Esperança novela que o SBT exibiu em 2007. Essa novela é o remake de Maria Mercedes. O ponto inicial da trama é a morte da noiva do protagonista. Ela toma um tiro no primeiro capítulo e morre. Essa cena era mostrada nas chamas e por essa cena, só por essa cena o órgão responsável queria reclassificar a novela como imprópria para 16 anos, ou seja, a novela que seria exibida às 7 da noite teria que passar para às 10 da noite, mas essa cena era uma das únicas violentas da novela, que é quase uma trama infantil. O SBT conversou e a injustiça não foi cometida. Esse fato é a prova de que não há critérios para analisar as novelas e enquanto for assim a classificação indicativa será igual à censura da ditadura Militar porque os que trabalham nela agem de acordo com suas visões e o que eles acham nocivo para minha família, por exemplo, eu posso não achar. Fica a torcida não para que a classificação acabe, mas para que um dia se torne pelo menos mais coerente. Fico por aqui, um abraço a todos e até a próxima.

* Gilmar Moraes

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