Coluna do Ary: Máscaras, um navio que ainda não chegou em alto-mar

Pois é. Já tem duas semanas que estreou a nova novela da Rede Record, Máscaras. De autoria de Lauro Cesar Muniz, um autor que dispensa comentários dado o seu histórico como novelista, o novo folhetim da Record chegou com o árduo trabalho de elevar os números da emissora no horário. Diretores falaram em média de vinte pontos (exagero, diga-se); já o autor falou em média de quinze pontos (um índice mais ameno).

A novela estreou com onze pontos e com o passar dos dias caiu para a casa dos oito. Números insatisfatórios e que revelam um problema na novela. Não que eu esteja superdimensionado os números (já vou sair desse terreno), mas quando uma novela não agrada uma parcela considerável do seu próprio público é sinal que tem alguma coisa errada. E Máscaras tem. Adiante.

O PECADO DE MÁSCARAS:


Lauro César Muniz é um dos melhores textos que já existiu na dramaturgia brasileira. Sempre fugindo do maniqueísmo exacerbado ele compõe suas estórias com texto robusto, denso, sempre flertando com o culto e fugindo das fórmulas fáceis daquilo que chamamos de popular. Noto especialmente o empenho do autor em criticar sistemas políticos e econômicos da sociedade. Isso num país despolitizado e com uma educação notadamente aquém é um convite pra estar falando com apenas gatos pingados. Máscaras tem um elenco razoável com Paloma Duarte, Heitor Martinez, Miriam Freeland, Gisele Itiê entre outros. Gabriel Braga Nunes e Marcelo Serrado poderiam dar um gás a mais na novela, mas não creio ser esse o problema.

Ao meu ver, o problema de Máscaras está exatamente na falta do maniqueísmo, argumento muito usado na dramaturgia e sempre criticado por ser visto como uma espécie de trilha batida na busca pela audiência. Máscaras possui uma narrativa bem instigante, numa luta de gatos e ratos, onde ninguém sabe quem é rato e quem é gato. Particularmente gosto de tramas assim, porque faz a gente pensar e se envolver, procurando descobrir pistas quase imperceptíveis de quem é quem . Ocorre que o público médio de uma telenovela não tem tradição de ficar entrando nesses labirintos detetivescos procurando encontrar vestígios. E sem entender o que passa, abandona o “navio”. Sobtetudo em tempos que a emissora líder deu uma guinada exatamente na contramão. Estamos diante de um equívoco até bem intencionado, porém, um equívoco. Lauro Cesar Muniz diz que o público é inteligente o suficiente para entender sua novela, e aí, outro equívoco. Aqui não se trata de inteligência ou não, e sim tradição. O próprio LCM reconheceu isso em entrevista ao jornalista Daniel Castro. Menosprezar a inteligência das pessoas não é de bom alvitre, tampouco o é supô-la, quando a questão é bem outra. Não se mede a inteligência de ninguém simplesmente por gostar ou desgostar dessa ou aquela telenovela.

Uma novela precisa fornecer “pontos de apoio” para amarrar o telespectador. Máscaras é ainda uma novela flutuante e sem “porto seguro” com personagens de personalidades dúbias. Há uma tradição mundial que tem como pano de fundo a luta do bem contra o mal. Algumas menos maniqueístas, até com anti-heróis, porém com personalidades bem delineadas. Sabemos quem são, o que querem e o que, dentro de um certo limite, farão. As telenovelas não escapam dessa regra. Por mais que se tenha um pé na realidade e que há fraquezas e dubiedades na condição humana do mundo real, uma novela não pode ser esse reflexo real nos mínimos detalhes porque trata-se de entretenimento e,assim, precisa fornecer válvulas de escape. Uma coisa é a realidade do mundo que vivemos, outra é aquilo que ansiamos. O público quer ver seus heróis e seus bandidos expostos na tela mesmo sabendo que são pura ficção. Mas afinal o que é uma novela senão ficção???

EM A FAVORITA UM EXEMPLO DE QUE O PÚBLICO REJEITA DUBIEDADES:


Essa semana conversando com os amigos Gilmar e André sobre os problemas de Máscara de repente veio à tona o exemplo da novela A Favorita que trabalhou durante sua primeira fase com essa dubiedade com seus personagens e com isso teve problemas para engrenar. No caso, as protagonistas Flora e Donatela onde ninguém sabia ao certo quem era vilã e quem era heroína. Foi um início de novela problemático para o autor JEC e inúmeras vezes surgiram críticas na imprensa que davam conta que o autor estava sendo pressionado a mudar o rumo da narrativa. Isso realmente aconteceu, embora o autor negasse a pressão e afirmar que tudo já estava previamente destinado a acontecer na sinopse. Independente de pressão ou não, o fato é que após a virada, a novela engrenou. Foi dado as protagonistas sua roupagem e ficou bem delineado quem era quem. A partir daquele momento foi criado o tal “ponto de apoio” onde o público passou a se amarrar nos personagens protagonistas. Havia a necessidade de criar o maniqueísmo necessário para a identificação. É exatamente o que ocorre em Máscaras. Em entrevista o autor disse que a novela não irá mudar seus rumos até o quadragésimo capítulo e que, à partir daí fará algumas mudanças para corrigir essas falhas e colocar a novela nos trilhos. Digo o trilho da tradição e a forma que o público médio de uma telenovela tem em acompanhá-las. Vamos ver se a partir daí o navio entra mesmo em alto-mar ou fica navegando em águas restritas próximo de alguma geleira em algum lugar do ártico. Minha aposta é que corrigindo esses erros, tem tudo para, enfim, chegar em mar alto.

Um abraço e até a próxima.

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