Com “Tudo a Ver”, programação dominical da Record empobrece

22 de janeiro de 2013 0 Por Endrigo Annyston

No ar desde 2005, o Tudo É Possível foi, durante anos, o carro-chefe da programação dominical da Record. Estreou timidamente, ensanduichado pelo Domingo da Gente, de Netinho de Paula, e a transmissão do Campeonato Brasileiro que, naquele já longínquo ano, a Record dividia com a Globo. A atração foi idealizada para lançar Eliana como apresentadora de um programa de variedades, no momento em que seu diário vespertino Eliana, voltado aos pré-adolescentes, fora substituído pelo Sonia e Você, de Sonia Abrão. Tendo como principal atração o quadro Saindo com a Sogra, Tudo É Possível funcionou, talvez surpreendendo a própria direção da Record.

Passaram-se os anos, Eliana foi encontrando maturidade diante de um dominical de variedades e o Tudo É Possível foi ganhando mais espaço e mais audiência. No seu auge, passou a dar trabalho ao Programa Silvio Santos, fazendo com que a imprensa especializada usasse e abusasse da pauta “a criatura vence o criador”, lembrando que a apresentadora era cria do dono do SBT. Sem futebol e sem Domingo da Gente, o Tudo É Possível reinou por bons anos como um dos principais programas da grade da Record. No entanto, viu seu reinado ameaçado com a chegada de Gugu Liberato que, com seu Programa do Gugu, passou a ser a menina dos olhos da emissora no primeiro dia da semana. E Eliana entrou como moeda de troca no momento em que Gugu rumava à  Record, recebendo convite para ocupar seu lugar no SBT a peso de ouro. Convite feito e aceito, a loira hoje comanda um programa que leva seu nome e que vive boa fase de audiência nos domingos do SBT.

Enquanto isso, na Record, o Programa do Gugu foi lançado, mas o Tudo É Possível não perdeu espaço. A direção da emissora optou por uma solução caseira à perda de Eliana e escalou Ana Hickmann, até então titular do matinal Hoje Em Dia, para substituí-la. Com Ana, a atração conseguiu uma sobrevida, mudando de direção e ganhando outros rumos. Tudo É Possível raramente batia de frente com o novo programa de sua ex-apresentadora, mas conseguiu, ao longo dos quase três anos da gestão Hickmann, disputar em pé de igualdade com o Domingo Legal de Celso Portiolli. No entanto, aos poucos, a atração foi perdendo terreno e passou a apresentar parco resultado diante de seu alto custo de produção. Além disso, Ana Hickmann não conseguiu se transformar numa animadora de auditório. Sendo assim, no final de 2012, a emissora optou por dar fim ao dominical.

Quando o cancelamento do Tudo É Possível foi confirmado, muito se especulou sobre que produto passaria a ocupar seu espaço, funcionando como sala de espera ao Programa do Gugu. Inicialmente, falou-se de uma nova sessão de filmes, mas, quando janeiro começou, o telespectador foi surpreendido com mais um retorno do famigerado e mega batido Tudo a Ver. O tapa-buracos oficial da Record foi novamente escalado para brindar o espectador com quadros já vistos e revistos, sem um pingo de investimento e criatividade.

O Tudo a Ver voltou exatamente o mesmo do que era quando exibido nas tardes da emissora, porém com menos reprises de matérias jornalísticas. No entanto, o programa é praticamente todo ocupado pelos já cansados “vídeos de internet”  que, aliás, também eram atração do Tudo É Possível. As famosas e chatas “pegadinhas” ganharam novo espaço com a volta do quadro Sorria, Você Está na Record. Para aumentar a “emoção”, o quadro Deu a Louca no Japão exibe pegadinhas nipônicas de gosto duvidoso. Tina Roma, a apresentadora, mal aparece. O programa começa direto com os vídeos da internet e apenas ouvimos sua voz. Uma bela voz, diga-se. Uma embalagem bonita para um programa completamente sem propósito.

Com esta lacuna do início das tardes de domingo, a direção da Record tinha duas possibilidades: investir num novo produto ou lançar mão de expedientes mais baratos, como filmes, séries e desenhos. Qualquer uma das duas opções seria interessante. Um novo programa é sempre bem-vindo, ainda mais quando se torna uma alternativa aos programas tradicionais das demais emissoras. E enlatados também seriam uma boa opção, afinal a emissora tem um bom pacote de seriados e filmes, que poderiam perfeitamente divertir o espectador no início da tarde de domingo. A emissora gosta tanto de imitar a Globo que poderia ter lembrado que, nos anos 1990, o canal dos Marinho exibia desenhos, séries e filmes aos domingos, antes do Domingão do Faustão. Um bom seriado seguido de um filme interessante antes do Programa do Gugu poderia ser a saída.

No entanto, a emissora optou por uma terceira via, ao trazer de volta o Tudo a Ver, um título já sem qualquer credibilidade e sinônimo de falta de conteúdo. Se era para trazer a atração de volta, poderia, no mínimo, investir nela. Uma revista eletrônica de variedades seria uma boa alternativa para a faixa dominada por programas de auditório. Matérias especiais, entrevistas, curiosidades, notícias de celebridades e a divulgação de produtos da Record poderiam muito bem compor este Tudo a Ver. Além, claro, de explorar melhor a apresentadora Tina Roma, que é das mais competentes. Mas, como sempre, a emissora optou pelo caminho mais preguiçoso.

Como tem jeitão de coisa provisória, fica a esperança para que o Tudo a Ver esteja no ar de maneira provisória, apenas servindo de esquenta para que novas ideias surjam e ocupem tal espaço. Pois se assim continuar, o Tudo a Ver só servirá para aumentar ainda mais a famosa depressão dominical do telespectador. Um dia já  tão preguiçoso não merecia um programa com esta mesma característica.

Por André San


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