Cordel Encantado e Amor e Revolução tem história, mas a diferença é gritante

16 de abril de 2011 0 Por Endrigo Annyston

 *Por Wander Veroni 

Há muito tempo não se via duas novelas fazerem tanto burburinho antes de ser lançada no ar e, principalmente, na semana de estréia. Apesar de Cordel Encantado, da Rede Globo, e Amor e Revolução, do SBT, não serem concorrentes diretas no mesmo horário, as duas novelas, praticamente, estrearam no mesmo período. Ambas as tramas apresentam uma história muito peculiar e, consequentemente, conquistaram a atenção do público, cada uma a sua maneira. Cordel Encantado é um mistura de conto de fadas europeu com o sertão nordestino brasileiro. Já Amor e Revolução pretende recriar historicamente os anos de chumbo da ditadura militar brasileira em meio a uma história de amor entre uma estudante revolucionária e um militar.

Entre o público e a crítica especializada há um consenso: as duas novelas tem história, porém a diferença da qualidade de texto e acabamento final dos capítulos é gritante. Cordel Encantado traz um texto mais seguro e dinâmico, tão natural que o telespectador embarca no conto de fadas onde o rei de Seráfia procura a filha desaparecida no sertão nordestino. Já Amor e Revolução – que tinha tudo para ser um tremendo sucesso, se vê perdida num texto completamente didático onde o autor insiste em colocar uma descrição exagerada na fala dos personagens, sem contar nas inúmeras “aulas de história”, sem necessidade, pois o próprio pano de fundo dos acontecimentos por si só já explicariam a temática.

Pena que Tiago Santiago não acordou para as críticas em relação ao seu texto, desde os tempos do remake de A Escrava Isaura, na Record. O autor, agora no SBT, ainda persiste em acreditar que esse excesso de didatismo é estilo, quando na verdade é uma grande falha de roteiro, deixando atores e direção reféns de uma história mal contada. Falta humildade por parte dele de reconhecer a necessidade de um supervisor de texto experiente para salvar os diálogos de Amor e Revolução, pois a novela tem mais uns oito meses pela frente e pode melhorar.

Ainda, em meio a todo esse problema estrutural, Amor e Revolução se vê em meio a uma polêmica. A Associação Beneficente dos Militares Inativos e Graduados da Aeronáutica (ABMIGAer) fez um abaixo assinado requisitando à Procuradoria Regional da República que retire a trama do ar. O motivo alegado é que a novela estaria afrontando a dignidade das Forças Armadas. O documento também acusa o governo federal de ter firmado um acordo com o SBT para o apoio da instauração da Comissão Nacional da Verdade, que pretende esclarecer casos de violação de direitos humanos ocorridos durante a ditadura. Ou seja, polêmica é que não falta para a novela acontecer….só falta melhorar os diálogos que a trama arranca de vez!

Já a Cordel Encantado é o mais novo oásis dos noveleiros de plantão. Apesar da audiência ainda estar estacionada na casa dos 24 pontos de média, o folhetim possui um texto seguro, ágil e que preserva o dinamismo da história, sem enrolação, mas com muita emoção e aventura. A idéia de filmar em 24 quadros nos traz a sensação de ver um filme ou minissérie às 18h, o que por si só já é um diferencial bastante interessante e que combina diretamente com a proposta da história. Difícil encontrar um defeito, quando a novela toda é de se aplaudir de pé – pelo menos nessa primeira semana.

Para minha surpresa, ninguém ali do elenco de Cordel está deixando a desejar. Ninguém. Direção bem afinada e uma história que passa verdade, apesar das autoras Thelma Guedes e Duca Rachid já terem admitido que a proposta de Cordel Encantado é a fantasia, e não a reconstrução histórica. Pena que os telespectadores ainda não descobriram a beleza dessa nova novela das seis da Globo. A qualidade desse roteiro é tão grande que nos deixa orgulhosos de ver algo tão bem feito na TV aberta num horário que sempre foi carente de boas opções. Sim, as novelas ainda não morreram. Nem vão morrer, graças a Deus. O público gosta de uma trama bem feita! Resta agora, por parte dos nossos roteiristas, criatividade para criar boas histórias e – principalmente, bons diálogos. O controle remoto agradece a variedade!

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*Autor: Wander Veroni, 26 anos, é jornalista pós-graduado em Rádio e TV, ambas formações pelo Uni-BH. É autor do blog Café com Notícias (http://cafecomnoticias.blogspot.com). Twitter: @wanderveroni / @cafecnoticias.