Crise de criatividade está nas telenovelas ou nos roteiristas?

9 de julho de 2011 0 Por Endrigo Annyston
*Por Wander Veroni 
Entre os noveleiros de plantão, principalmente nas rodas de conversas informais, a pergunta sempre vem à tona: a crise de criatividade está nas telenovelas ou nos roteiristas? Crise? Sim, crise. Em 60 anos de telenovelas no Brasil, a impressão que dá é que todas as boas histórias foram contadas. Será? Prefiro acreditar que não. O mundo muda, as pessoas mudam e a sociedade muda. Então, enquanto houver vida, haverá histórias. Claro, o elemento essencial do folhetim (heroi-mocinha-vilão), sempre estará no cerne das telenovelas. E isso é o que dá vida ao gênero, que de tão livre e vasto, permite que os roteiristas, técnicos, atores e diretores, se unam de forma criativa, inovadora e não deixem as telenovelas morrerem.
Em 2011, o exemplo melhor de inovação está, justamente, na faixa das 18h, da TV Globo, em Cordel Encantado, de Duca Rachid e Telma Guedes. Ouso dizer que é a melhor novela em anos da Globo, para não dizer da década. Cordel tem linguagem, história, elenco e um capricho nas cenas que fazem o telespectador suspirar. Se pararmos para pensar, Cordel não tem nada demais. Mistura elementos de conto de fadas com o cordel nordestino. Mas, o grande pulo do gato, é o fato de que a história usa e abusa da fantasia e da inteligência do público, ora provocando pela emoção, pela aventura, humor ou ação. Os personagens são comuns e tem sentimentos reais. Cordel Encantado é a prova viva de que os roteiristas não podem se acomodar e devem, a cada semana, surpreender o público, como se novela fosse acabar a qualquer momento.
Se de um lado temos um exemplo tão positivo quando falamos em telenovelas, do outro lado da ponta, temos histórias que suaram um bocado para cair no gosto popular. O que dizer de Morde & Assopra, na faixa das 19h, na TV Globo, que herdou uma audiência excelente de TiTiTi, e teve que se reinventar para não desagradar o público. Apesar dos trancos e barrancos iniciais, a novela de Walcyr Carrasco conseguiu ganhar sobrevida e aprovação crescente do público, mesmo apostando no mashup de tudo o que o autor já fez no passado. Carrasco descobriu que na comédia, um dos seus pontos mais fortes como roteirista, poderia resgatar o público órfão de TiTiTi. E deu certo….entre tantos autores que não dão o braço a torcer, é admirável ver humildade de Carrasco em mudar toda trama para agradar o público…coisa rara!
Em contrapartida, vemos Tiago Santiago no SBT, autor de Amor e Revolução, exibido às 22h30, permanecer nos mesmos erros de roteiro, desde a época de A escrava Isaura, na Record. Santiago é um autor criativo, mas que ainda enfatiza no excesso de didatismo e diálogos óbvios. Amor e Revolução tem uma história ótima, mas que definhou justamente pela pirraça do autor que não quer dar o braço a torcer. Tentou-se apelar para as cenas de tortura, erotismo e o beijo gay, mas apesar da repercussão, a trama ainda não decolou no Ibope.
Por mais que se faça grupos de discussão sobre a novela, o que é preciso em Amor e Revolução, é um supervisor de texto, um roteirista experiente que pudesse auxiliar Tiago Santiago a criar bons diálogos e a elevar o nível da trama. Mas isso é quase impossível….digo quase porque nas entrevistas de Santiago, ele nunca admite os problemas do seu texto, o que é uma prova que ainda falta humildade para reconhecer que ele precisa de ajuda, antes que seja tarde demais.
Mudando de canal, já  na Record a situação é um pouco mais complexa. De um lado, a adaptação de Rebeldes, por Margareth Boury, parece ter agradado o público e mantido a audiência entre 9 a 11 pontos, o que representa uma boa média para a emissora da Barra Funda. Boury conseguiu criar uma história muito bacana e independente da trama mexicana, mas que ainda deixa a desejar na parte musical. Pelo fato de dois dos protagonistas já serem músicos profissionais antes de ingressarem na novela, o grupo Rebelde brasileiro ainda precisa explorar o canto de todos da banda, assim como acontecia no Rebelde mexicano. Mas isso ainda tem tempo de ser revisto….quanto a história, Rebelde Brasil tem uma ótima pegada. Pena que a Record sambou a novela pela grade de programação com a chegada do Cidade Alerta, de Datena. Agora, a novela sai da faixa das 19h e vai para às 20h30. Só quero ver no que vai dar….estava demorando os bispos mudarem tudo de horário.
Outra novela da Record que também corre o risco de sambar pela programação é Vidas em Jogo, de Viviane Friedman. Apesar da idéia interessante de falar sobre um grupo de amigos da Classe C que ganham em conjunto uma bolada na loteria, a novela ainda não mostrou a que veio e também patina nos mesmos índices de Rebelde. Apesar de Vidas em Jogo ter uma audiência surpreendente no nordeste, nas outras regiões do Brasil, principalmente no sudeste, a novela ainda não decolou…a Record já fez alguns grupos de discussão e prometeu mudanças na trama. Além disso, com a chegada de #AFazenda4 neste mês, os telespectadores estão aflitos em saber qual horário a novela vai ser exibida. Na época da primeira edição do reality rural, quando passava Poder Parelelo, a trama chegou a ser exibida 00h30, para se ter uma idéia. O que será que os bispos vão aprontar?
E, para finalizar essa discussão sobre a safra criativa das novelas atuais, não tem como não falar de Insensato Coração, novela atual de maior audiência no horário nobre. A trama que começou num ritmo alucinante, entrou num período de barriga, que fez afastar muitos telespectadores e colocarem uma legião de participações especiais que pouco contribuíram para o desenrolar da história principal. Pirracentos, os autores não quiseram voltar atrás, mesmo com a pressão do público.
Eu fui um que desisti de Insensato. Mesmo que a novela tenha ganhado movimento depois que Norma saiu da cadeia, confesso que perdi a paciência. Barriga em novela tem limite….e a sensação que tenho é que os autores Gilberto Braga e Ricardo Linhares tinham medo de avançar com a trama e não ter história suficiente….enrolou, sai. O que não falta hoje é opção: seja internet, DVD, filmes, vídeo-game, etc., a novela tem a missão de entreter, e não apenas de enrolar. Será que o público já aprendeu a escolher?
Difícil responder….posso falar apenas por mim. Creio que depois de alguns anos como telespectador fanático por TV, estou ficando mais seletivo. Ainda sou noveleiro, mas valorizo muito um bom texto. Se o texto for bom, assisto. Caso contrário, passo longe ou desisto de vez. Gosto de texto que provoque e que ainda desafie a mente do público, fazendo com que algumas viradas na história me surpreenda. E quando falo em surpreender, não é apenas aquilo que me agrade, mas aquilo que provoque e nos instigue. Mais do que uma crise de criatividade, creio que boa parte dos roteiristas atuais, do primeiro escalão da TV, sofrem de ócio criativo, acomodação e arrogância. Se a telenovela é uma obra aberta, o público merece também ser ouvido e respeitado, acima de tudo. Acredito que temos que valorizar o nosso tempo e, principalmente, o controle remoto.
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*Autor: Wander Veroni, 26 anos, é jornalista pós-graduado em Rádio e TV, ambas formações pelo Uni-BH. É autor do blog Café com Notícias (http://cafecomnoticias.blogspot.com). Twitter: @wanderveroni / @cafecnoticias.