Desfecho de “Guerra dos Sexos” não fez jus à trama

O blog já tratou do remake de Guerra dos Sexos em várias ocasiões. A trama de Silvio de Abreu teve altos e baixos: tratou de um assunto que fazia sentido em 1983 (ano em que a clássica, original e insuperável primeira versão da história foi ao ar), mas soou anacrônica em 2013; além disso, teve alguns equívocos da direção, apostando, muitas vezes, num humor infantiloide, indo contra a fina ironia do texto de Abreu. Mas Guerra dos Sexos acertou em cheio no melodrama, contando a história de uma ciranda amorosa envolvendo seus protagonistas que só fez ganhar fôlego, decolando de vez da metade da obra até seu desfecho.

Quando a história de amor envolvendo Roberta Leone (Gloria Pires) e Nando (Reynaldo Gianecchinni) tomou conta do centro da saga, Guerra dos Sexos finalmente se encontrou. Dois bons personagens, com intérpretes inspirados, representando um texto delicioso e cheio de possibilidades. Roberta, uma mulher solar, viúva rica e na meia-idade apaixona-se por um motorista pobre, mais jovem que ela, meio bronco e abobalhado, mas de grande coração. Ela vinha de um casamento que parecia feliz, mas descobriu, após a morte do marido, que o falecido era, na verdade, um grande canalha. E ele de uma paixão idealizada pela patroa Juliana (Mariana Ximenes), uma jovem executiva bem-sucedida, mas de vida sentimental instável.

Obviamente, quando se desenvolve uma ciranda amorosa, já se espera que, no desenrolar da saga, haja a inevitável troca de casais. Com Guerra dos Sexos, não foi diferente. Quando finalmente Roberta e Nando vivem o ápice de sua história de amor, Juliana percebe que gosta do motorista e decide entrar na briga. Nando vê seu amor idealizado se materializar e se vê dividido entre o amor construído e absolutamente sincero de Roberta Leone e a possibilidade de finalmente viver o romance que sempre sonhou com aquela que acreditava ser o amor de sua vida. Momentos tensos mais adiantes, os casais se reformam: Nando e Roberta se separam, e ele passa a viver com Juliana, enquanto Roberta decide ceder às investidas de Felipe (Edson Celulari), com quem passou a novela toda brigando.

Vale aqui salientar a evolução do personagem Felipe ao longo de Guerra dos Sexos. No início, o filho de Charlô (Irene Ravache) era um executivo atrapalhado, flertando com o mau-caratismo e mulherengo incorrigível. Logo no primeiro capítulo, protagoniza uma briga com Roberta que já deixou claro que, mais cedo ou mais tarde, sairia algum coelho daquela cartola. E saiu. No meio de tanta briga, Felipe se descobre verdadeiramente apaixonado por Roberta, o que faz com que ele não consiga mais se relacionar com mulher nenhuma. Este improvável amor fez com que Felipe fosse amolecendo ao longo da novela, até que, perto do fim, o rapaz se redime, finalmente, das picaretagens que aprontou.

Dito isto, voltamos à ciranda amorosa. Os casais se reconfiguram, Nando passa a viver com Juliana, e Roberta e Felipe se aproximam. Nesta nova configuração, começam os problemas. Nando e Juliana passam a sentir o peso das diferenças que os envolvem. Começam as brigas, os ataques de ciúmes e até mesmo as agressões. Juliana chegou a ferir Nando num destes momentos tensos. Nesta sequência, as entrelinhas deixavam claro o que acontecia: quando um amor idealizado se torna real, nem sempre a realidade condiz com aquilo que se esperava. O amor de Nando por Juliana não era real: era o fascínio pelo inalcançável. Real mesmo era sua relação com Roberta, que começou de maneira tímida e foi sendo construída.

Tanto essas entrelinhas existiam, que elas foram consideradas no desfecho da primeira versão de Guerra dos Sexos. Em 1983, Roberta Leone (Gloria Menezes) terminava a novela ao lado de Nando (Mario Gomes). Mas as coisas mudaram na atual versão. No último capítulo, a fofoqueira misteriosa Terezinha Romano finalmente surgiu, numa divertida participação especial de Xuxa Meneghel, e contou ao público o que viria a seguir: “fiquei sabendo que vai mudar tudo na novela, todos os casais serão trocados”, revelou Terezinha à amiga Frô (Mariana Armelinni). Aliás, vale lembrar que, em 1983, este spoiler (um bem bolado momento de metalinguagem) coube à própria Frô (Cristina Pereira), que revelou que, “desta vez, o Tarcísio e a Gloria não ficam juntos!”, referindo-se a Tarcisio Meira, o Felipe, e Gloria Menezes, a Roberta: ele ficou com Lucelia Santos, a Carolina, e ela, como dito acima, com Mario Gomes, o Nando.

No capítulo visto ontem, 26, Nando e Roberta finalmente têm uma conversa definitiva, na qual concluem que Juliana é o amor da vida do motorista. Assim, selam a amizade e se veem livres para viverem novas histórias: ele volta para Juliana, e ela cede às investidas de Felipe. Um final um tanto quanto incoerente com toda a trajetória de todos esses personagens. Como acreditar que o amor de Nando e Juliana era possível depois de tantas brigas e agressões? Como crer que a paixão arrebatadora de Roberta por Nando se dissipou assim, sem maiores dificuldades? Silvio de Abreu levou todos esses encontros e desencontros dentro de uma linha regular, mas abriu mão dela justamente no capítulo final. O autor sempre avisou que faria uma outra novela e alguns desfechos poderiam ser alterados. Mas não cumpriu: a trama foi praticamente a mesma vista no passado, e os desfechos alterados foram tão forçados que parece que foram feitos apenas para serem diferentes do original. Bola fora de um novelista que sempre prezou pela coerência.

Mesmo com um desfecho equivocado, Guerra dos Sexos foi uma novela leve, agradável e bem divertida de se acompanhar. Mas deixou claro uma importante lição: em alguns clássicos não se mexe. Este remake logo cairá ao limbo televisivo, enquanto a versão original seguirá viva na lembrança dos saudosos telemaníacos.

Por André San


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