“Dona Xepa” expõe retrocesso na dramaturgia da Record

Antes de investir pesado no suntuoso complexo de estúdios conhecido como RecNov, central que produz suas novelas, a Record já teve sua fase de teledramaturgia mais modesta. Quando ocupava um terceiro lugar bem distante do SBT, a emissora de Edir Macedo tentou chamar alguma atenção com a produção de folhetins que lembravam as histórias mostradas pelo concorrente vice-líder. Produções modestas que pouco acrescentaram à história da teledramaturgia nacional, mas algumas inegavelmente contribuíram para o crescimento da Record nos anos 1990.

Novelas como Estrela de Fogo e Louca Paixão atingiram índices satisfatórios de audiência. Em comum, ambas tinham enredo interessante, mas formatadas por uma direção burocrática, elenco irregular e produção sem grandes pirotecnias. As tramas carregavam no açúcar, de modo a ser uma alternativa popular às novelas mais, digamos, “sofisticadas”, da líder Globo. Ou seja, o mesmo plano que o SBT sempre teve na sua produção de folhetins: baixos custos, tramas simples, produção modesta, elenco sem maiores atrativos. Um modelo praticamente mexicano, que funciona, sem dúvidas.

No entanto, quando pôs em prática seus planos de chegar à liderança, a Record percebeu que não podia mais imitar o SBT e que tinha era que mirar na Globo. Investiu pesado e suas produções seguintes já traziam, a olhos vistos, uma produção mais caprichada e bem-acabada, tal qual as novelas da rival. Prova de Amor, Vidas Opostas, Caminhos do Coração, Chamas da Vida, Bela, a Feia… Todas caracterizadas pelo capricho, boa direção e elenco formado por várias estrelas. A Record chegava a um novo patamar e mostrava que havia aprendido a fazer novelas.

Por isso mesmo, causa estranheza ver, hoje, em sua principal (e, atualmente, única) faixa de novelas, uma trama aos moldes de Dona Xepa. Nada contra a trama em si, que é correta em todos os sentidos. Mas percebe-se claramente que se trata de uma produção das mais simples, que destoa a olhos vistos de suas substitutas Balacobaco, Máscaras ou Vidas em Jogo. Com uma estrutura narrativa que beira o simplório, elenco enxuto e nenhuma pirotecnia, Dona Xepa parece se aproximar das novelas consagradas pelo SBT.

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