Em entrevista, autores falam sobre nova novela Sangue Bom

10 de abril de 2013 0 Por Endrigo Annyston

Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari se conheceram quando ele era um adolescente. “Tinha 17 anos e já era um talento”, lembra Adelaide. Na época, ele tinha feito a oficina de autores da Globo e foi convidado para ser colaborador em ´Anjo Mau´. Logo em seguida, fez com ela ´A Muralha´, ´Os Maias´ e ´A casa das sete mulheres´. “Depois trabalhou em três novelas com João Emanuel Carneiro e, em TiTiTi, entreguei a ele o que nunca fiz com ninguém: a escaleta de uma novela. Quem me conhece sabe que esse é um ato de confiança. Dividir a autoria de ‘Sangue Bom’ foi consequência natural e justa da trajetória que trilhamos juntos”, comenta a autora.

Jornalista, escritora e dramaturga, Maria Adelaide é Portuguesa de Alfena –  Conselho de Valongo – Distrito do Porto. Mas foi em São Paulo que passou a maior parte de sua vida. Por isso mesmo suas histórias contemporâneas se passam na cidade. “Eu preciso conhecer o que estou falando, vivenciar”, explica. Vincent também é da capital. Foi criado no bairro do Imirim, ao lado da Casa Verde, que servirá como um dos principais cenários da novela. Ele lembra da infância das casas sem muros, da vizinhança que se conhecia e se ajudava. É desta mistura de vivências e experiências que nasceu ‘Sangue Bom’. “Esse trabalho, essa troca, essa parceria é muito gratificante pra mim”, assinala Vincent.

Como nasceu o projeto da novela?


Maria Adelaide: Quando a Elizabeth Taylor morreu fiquei pensando no episódio e falei com o Vincent sobre aquela figura tão emblemática. Depois, por circunstâncias pessoais, liguei para ele e disse que gostaria de falar sobre adoção. Destes dois assuntos foi surgindo a primeira personagem: Bárbara Ellen. E a partir dos personagens foi nascendo a nossa história.

Vincent: Nós estávamos com a intuição aberta… Juntando Elizabeth Taylor e adoção, como a Maria Adelaide contou, surgiu um rascunho de Bárbara Ellen, que não foi inspirada em ninguém específico. Foi apenas o desenho inicial dessa atriz que teve uma vida sentimental muito agitada e que para se manter na mídia passou a adotar diversas crianças como autopromoção. ‘Sangue Bom’ trata de assuntos muito atuais, fala dessa carência das pessoas de serem amadas, de serem desejadas pelo máximo de pessoas. Você precisa ter o máximo de seguidores nas redes sociais, mas sem se dar ao trabalho da relação pessoal. O importante é possuir.

Quais são os temas da trama?


Maria Adelaide: São muitos temas, mas basicamente: É sobre o ter e o ser, sobre essa valorização excessiva da aparência, da notoriedade, da fama, da celebridade, e do esforço absurdo e patético ou cômico ou as duas coisas juntas que as pessoas fazem para se constituir famosas. Eu não tenho nada contra fama, contra a notoriedade, mas acho que tem que ser o corolário de um trabalho bem sucedido, reconhecido. O que me deixa desconfortável é a fama sem mérito e o sucesso sem trabalho. A essência da novela é essa inversão de valores.

A novela tem seis protagonistas: Bento, Amora, Giane, Malu, Maurício e Fabinho. Como eles lidam como esta questão da inversão de valores?

Maria Adelaide: Eu parto de personagens. Eles constroem as suas tramas, que vão acontecendo de maneira muito orgânica. Os personagens ganham autonomia. Enquanto Bento (Marco Pigossi) construiu sua vida e seu futuro em cima de valores sólidos, Amora (Sophie Charlotte) coloca todas as fichas na sua futilidade de sua imagem de it-girl.  Em resumo: os dois atuam em áreas bem diversas, ambos trabalham duro mas, enquanto a alegria de Bento está ligada ao afeto e à solidariedade, Amora compensa suas carências e frustrações no consumo desenfreado e encontra satisfação no aplauso e aprovação do público. O Fabinho é o nosso vilão, que poderia ser. Ele é movido pela inveja e pelo ressentimento. E não percebeu que se esquecer esse ressentimento poderia ser uma pessoa admirável. Ele tem esse potencial de transformação.

Vincent: Malu (Fernanda Vasconcellos) é a antítese da Amora. Cresceu num lar cercado de amoralidade, vendo aquela mãe, Bárbara Ellen, capaz de tudo para se manter na mídia. Ela possui um senso moral muito forte. A Malu questiona e age. A Giane (Isabelle Drummond) é uma menina muito delicada, de estrutura emocional muito doce. E, para se defender, criou a armadura de menina zangada. Já o Maurício é um adorável playboy. Ele gosta do que é bom da vida, mas herdou da mãe o caráter. E ele segue seus princípios

Uma das protagonistas da história, Amora (Sophie Charlotte), é uma it Girl. Como foi a pesquisa desse “mundo”?


Maria Adelaide: Comecei a me interessar por moda quando escrevi a peça Mademoiselle Channel. Quando fiz TiTiTi mergulhei nesse mundo pra valer. Naquela época tanto a Glória Khalil quanto a Constanza Pascolatto já falavam nas It Girls. Elas ocuparam o lugar das Top Models da década de 80 e 90 e, hoje, gozam de prestigio junto aos editores das grandes revistas de moda e dos mais importantes estilistas. Elas estão ditando tendência e geralmente são blogueiras. Esse fenômeno me interessou muito. Por isso a Amora virou uma It Girl.

Como é a São Paulo de ‘Sangue Bom’?

Maria Adelaide: O núcleo principal é na Casa Verde, na zona norte de São Paulo, e o Vincent vai falar o por quê. Ele foi criado lá. Mas também teremos Pacaembu, Jardins, Parque do Povo, Shopping JK, alguns museus e espaços culturais, como o MIS, o Museu Afro-Brasil.

Vincent: Eu nasci no bairro do Imirim, que é vizinho da Casa Verde. A rua da Casa Verde é um pouco a lembrança da minha infância, das casas sem muros, dos vizinhos entrando nas casas para cumprimentar, comemorando juntos, sendo solidários. Existia uma consciência do outro muito forte. Essa estrutura está acabando. E lá na Casa Verde ainda existe um pouco essa vida comunitária, que também faz parte da premissa da nossa novela.

Como é a sua parceria com o Dennis Carvalho?

Maria Adelaide: É uma história de amor que deu certo (risos). Começamos na minissérie JK e ele foi um grande parceiro. Depois foi arrematada com Dalva & Herivelto. Foi um dos melhores trabalhos que foram feitos em TV. O Dennis é uma pessoa incrível, de muito bom gosto.