Entrevista com o autor, João Emanuel Carneiro

19 de março de 2012 0 Por Endrigo Annyston

Como uma nova história nasce na sua imaginação? Como se dá o seu processo criativo para que a trama ganhe os contornos de uma novela? 
A história de Avenida Brasil nasceu de uma cena. O interessante de uma novela é você ver como uma ideia pode ter fôlego para se desenrolar quase eternamente. Ela parte de um acontecimento do primeiro capítulo, quando alguns destinos se cruzam, os destinos de Carminha, Genésio e Tufão. É como se nós estivéssemos acompanhando duas histórias paralelamente. De repente, elas se bifurcam e cria-se um grande mal-entendido. Partiu daí… e partiu daí também a ideia de poder torcer pelo bandido. A Nina, às vezes, age como vilã, mas por uma nobre causa.

Você acredita que essa protagonista, a Nina, represente um desafio ainda maior para você, já que a trajetória dela não se aproxima das heroínas que normalmente ocupam o posto de mocinhas e protagonistas?
Cada novela tem que me dar um desafio. Quando eu conto, invento uma história, e essa história tem que me desafiar. Então eu tenho que alcançar uma maneira de encontrar uma “brincadeira” para mim. Então o meu desafio é poder torcer por esta “vilãzinha querida”. Desde pequeno, sempre torci para os índios em Forte Apache. Eu nunca torci para o batalhão, para a guarda…Então, eu posso continuar “torcendo para os índios” de forma bem justificada. Isso faz parte dos meus personagens, da ideia toda, da minha formação…cada vez mais eu penso no Dostoievski, pois ele propõe personagens com mil paradoxos. Você pode entendê-los em suas complexidades. Eu li muito Dostoievski há três anos, quando eu fiz essa sinopse.

A Nina tem um parentesco com Raskólnihov e com esses personagens que são capazes de fazer coisas condenáveis por nobres causas. Você consegue se colocar na pele deles.

Mas qual é o grande dilema de Nina? De onde vem tanta complexidade e paradoxo?
A ideia da novela, o mote, é: “os fins justificam os meios? É certo agir errado por uma causa nobre?” Essa que é a pergunta. E daí que vem a história da Nina. É a cruzada de vingança da empregada trabalhando como cozinheira na casa da ex-madrasta, casada com um ex-jogador de futebol.

É uma vingança, pois essa menina, quando tinha 11 anos de idade e se chamava Rita, foi abandonada no meio do lixo pela madrasta depois que o pai morreu. A madrasta roubou tudo o que eles tinham… Essa criança jurou vingança. Ela reaparece 13 anos depois, trabalhando na casa do jogador de futebol. E ela vai, de certa maneira, seduzir todos da casa, a começar pela própria Carminha, ex-madrasta dela. Ela será uma empregada perfeita, zelosa…

O que você reserva para o telespectador, um misterioso drama a exemplo de ‘A Favorita’?
Com exceção do núcleo da casa do jogador, que é o núcleo dramático, os arredores são muito cômicos e coloridos. Ao contrário de ‘A Favorita’, que era uma novela muito “preta e branca”, eu quis fazer algo bem colorido. A história de Cadinho e suas três mulheres –  três relacionamentos modernos – é uma grande comédia.  Na verdade, todos os arredores têm comédia. Pensei em fazer uma novela que tenha a espinha dorsal de um folhetim russo e um entorno todo colorido.

Uma de suas características é a construção de mulheres fortes e que, em muitas vezes, ocupam papéis invertidos na sociedade. Como será em Avenida Brasil?
Uma das personagens, Monalisa ( Heloisa Perissé), é uma mulher que assumiu a função do homem em sua casa. É a mulher que se resolveu financeiramente, já tem um ou mais filhos, já tem uma vida. Ela não quer um homem dentro de casa para não lhe entregar o controle da tevê. Na história também tem isso. É uma crônica dentro da novela.

É algo que tenho observado muito no subúrbio. Eu estive por lá várias vezes para escrever esta novela e convivo com muita gente que vive nesta região. Fui sozinho, com a equipe da novela, participei de churrascos… Isso tudo aconteceu no ano retrasado.

O que eu percebo muito, uma imagem recorrente, é que às segundas-feiras, os homens ficam em casa e as mulheres saem para trabalhar fora, para pegar o trem. É uma imagem que me vem à cabeça sempre que penso no subúrbio.

A temática do futebol está em pauta em Avenida Brasil. De onde veio a inspiração? Você é fã de futebol? Entende do esporte? É bom de bola?
Eu nunca entendi de futebol e sempre fui o pior jogador do meu colégio. Eu era considerado a “arma secreta”, pois em todos os times que eu entrava, perdia. Mas eu gosto de futebol, eu gosto de assistir ao futebol, de ir ao Maracanã. Mas essa novela não vai tratar do futebol. Não vai haver campeonatos, jogos… É um pouco dos bastidores deste esporte. Só no primeiro capítulo que tem a história do Tufão, que se consagra num jogo no Maracanã. Depois a gente vai acompanhar a trajetória do Jorginho, que é o filho do jogador famoso e que ainda não aconteceu. Ele ainda joga no Divino, que é um time de segunda divisão.

João, fale um pouco sobre a sua relação com os personagens e o elenco durante o processo criativo. Qual é o seu estilo de escrita? O que você tem a dizer sobre a escalação de Avenida Brasil?
Eu escrevo para um fantasminha que está na minha cabeça, que tem uma carinha própria… só depois chega o ator. Faço Prêt-à-Porter, não faço nada sob medida. Os atores entram nas roupas. Após a escalação, eu vou moldando um pouco. Sobre a escolha do elenco, eu e o Ricardo fazemos tudo juntos e os dois precisam querer um ator para determinado papel. E juntos fazemos muitos testes. Sim, pois o teste é muito importante. Uma coisa é fazer a suposição, outra coisa é ver na prática. Ao ver, tudo fica tão claro! A Carminha foi a personagem mais difícil de escalar e o encontro da Adriana Esteves com esse papel foi uma felicidade. Eu fiquei muito feliz quando a vi fazendo. A Carminha é um personagem muito complexo. Ao mesmo tempo em que ela é uma megera, ela é uma mulher de família. No meio de tudo, para fazer o que ela faz, tem que ter uma loucura e uma caretice. Então ela é uma careta louca. E ainda tem uma palhaça, uma palhaça triste, eu acho. A Adriana Esteves conseguiu fazer isso tudo, esse recorte todo.

Avenida Brasil tem um elenco enxuto e a história é bem concentrada em poucos núcleos nos quais as tramas se desenrolam. Por quê?
Esta é uma característica sempre presente em minhas novelas. Eu gosto de reinventar a própria história dentro daquele quadro de personagens, de poucos personagens. Eu não gosto de fazer novelas com muitos núcleos, numa produção em rodízio. A história está sempre ali, se reinventando e acontecendo naquele lugar.