“Flor do Caribe”: a volta da água-com-açúcar à faixa das seis

“Água-com-açúcar” é um termo comumente utilizado para se referir à grande maioria das novelas das seis da Globo. Normalmente voltada a um público mais sonhador, a trama se rende aos recursos mais básicos do folhetim, sem muito espaço para reflexões ou aprofundamentos. É o mais puro do entretenimento da teledramaturgia, sem pudor nenhum. A novelista Ana Maria Moretszohn, tarimbada no horário, até já admitiu ser uma amante e praticante do enredo “água-com-açúcar”.

A receita básica soa até simplista em demasia, sobretudo quando é a fórmula da novidade que precede Lado a Lado, trama que, embora bastante calcada no folhetim, trazia um contexto histórico e um enredo mais cheio de nuances, que fugia um pouco desta água doce. Flor do Caribe, a nova novela das seis, não causa estranheza apenas na estrutura bem mais simples, mas também pelo clima do veraneio que invadiu o início da noite da Globo. As praias paradisíacas do Rio Grande do Norte brasileiro e as roupas de banho substituem as vielas do Rio de Janeiro do início do século 20 e os figurinos cheios de pano da cabeça aos pés.

O autor Walther Negrão, com Flor do Caribe, volta ao horário das seis e à temática tropical que conhece tão bem. O objetivo é claro: resgatar o sucesso de Tropicaliente, trama assinada por ele que fez um bom barulho, principalmente no mercado internacional. Esta vontade de reprisar um sucesso passado já traz, de cara, um empecilho: não estamos mais nos anos 1990, e o que funcionou lá pode não funcionar aqui. Hoje o público das novelas pede mais agilidade, e o autor veterano que não se adequar a esta nova realidade corre o risco de parecer antiquado. Ainda mais quando a proposta é fazer uma trama de verão: aventura é o que se espera!

Feita para vender, Flor do Caribe abusa das belas imagens naturais proporcionadas por seu cenário deslumbrante. Dirigida por Jayme Monjardim, reconhecido por sua assinatura que valoriza a fotografia, Flor do Caribe ganha ainda mais cor e viço. Paisagens grandiosas somadas a um elenco que parece saído de um catálogo de modelos, todos donos de belos corpos prontamente explorados pelo figurino mínimo. A contemplação que acompanha as paisagens de Monjardim desde Pantanal surge com força e, não raro, causa certa sonolência. Um risco.

Com tanto deslumbre, o enredo mais parece uma desculpa para se explorar ao máximo toda essa beleza. Flor do Caribe tem uma das espinhas dorsais mais básicas da teledramaturgia: uma mocinha disputada pelo mocinho e pelo vilão. Ester (Grazi Massafera) e Cassiano (Henri Castelli) vivem um amor tão adocicado que deveria ser proibido de ser visto por quem sofre de hiperglicemia. Na outra ponta do triângulo, o malvado Alberto (Igor Rickli) se faz de amigo do mocinho, mas arma para roubar-lhe a namorada. Tudo é muito bem definido: Ester e Cassiano são exemplos de seres humanos, dotados de qualidades, enquanto Alberto é do mal, e não há dúvidas disso. Sutileza, definitivamente, não faz parte do roteiro de Flor do Caribe.

Esta primeira semana da novela lembrou bastante o mote inicial de Vila Madalena, novela das sete escrita pelo mesmo Walther Negrão no final dos anos 1990. Nesta história, o vilão Arthur (Herson Capri) era apaixonado pela mocinha Eugênia (Maitê Proença) e armou para que o mocinho Solano (Edson Celulari) fosse preso injustamente. Solano passa sete anos na prisão e, quando sai, encontra Eugênia casada com o algoz. Em Flor do Caribe, Alberto armou algo parecido, e já se sabe que, daqui sete anos, Ester estará casada com Alberto enquanto Cassiano tentará retomar sua vida.

A trinca principal não é nada espetacular, mas segura bem. Grazi Massafera tem em seu currículo um histórico de boas mocinhas, em Páginas da Vida, Desejo Proibido e Negócio da China, mas não rende muito quando a personagem envereda pelos campos da vilania, vide Tempos Modernos e Aquele Beijo. Isso porque a atriz ainda não tem muita técnica e, assim, quando vive uma mocinha, esbanja naturalidade, o que a ajuda em seu desempenho. Entretanto, Grazi ainda não encontrou um tom muito adequado à Ester, que apareceu excessivamente melosa. Mas ela deve acertar o passo no decorrer dos capítulos. Henri Castelli não é um ator de grandes recursos, mas não chega a comprometer como mocinho. O estreante Igor Rickli como vilão, à primeira vista, pareceu uma aposta arriscada. Falta-lhe uma pitada de segurança. Mas o rapaz aparenta ter potencial.

Os grandes destaques do elenco de Flor do Caribe neste início foram mesmo os veteranos. Juca de Oliveira emocionou vivendo Samuel, combatente na Segunda Guerra Mundial e atormentado pelas lembranças do passado. E Sergio Mamberti finalmente surge com um grande personagem numa novela global e dá show como Dionízio, milionário bandido e mau-caráter. Os dois personagens, aliás, parecem personificações das polaridades da Segunda Guerra, e alguns segredos do passado de ambos pode dar alguma profundidade à Flor do Caribe.

No mais, Flor do Caribe traz de volta ao horário das seis a velha receitinha de uma porção de água com muita, muita glicose. Um enredo que sempre agradou ao público do horário das seis e, portanto, tem alguma chance de chamar o público de volta à faixa. No entanto, um de seus desafios é fazer a audiência embarcar numa trama de verão quando estamos tão próximos do outono. O frio vai chegar e o excesso de sol e gente despida pode ficar esquisito. Como Uma Onda, o último folhetim praiano de Walther Negrão, teve a sorte de estrear justamente no início do verão e fez mais sentido.

Por André San


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