“Gabriela”: o melhor e o pior da novela das onze

Terminada a segunda incursão no horário, não há  dúvidas de que a Globo acertou com a criação da faixa chamada de “novela das onze”. O espaço dedicado às tramas curtas, e com quatro capítulos semanais, é um oásis para aquele telespectador que gosta de novelas, mas não tem paciência para tramas que se arrastam por meses a fio. Além disso, o horário avançado permite mais densidade, mais ousadia, menos nhenhenhém. O Astro, no ano passado, inaugurou com louvor a faixa: foi uma bela homenagem à teledramaturgia, soube resgatar a essência folhetinesca tradicional, se deu ao luxo de se mostrar como uma trama adulta de fato e, ainda por cima, trouxe certa inovação ao apostar numa narrativa mais acelerada.

Gabriela, segunda trama a ocupar a faixa e encerrada na semana passada, não seguiu a trilha de O Astro, o que não  é exatamente um demérito. Enquanto a trama de Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro era uma saga urbana, cheia de conflitos empresariais que se desdobravam alucinadamente, o folhetim de Walcyr Carrasco não apostou numa narrativa tão ágil. Isso se deve, claro, às características da própria história, que se passava numa Bahia dominada por coronéis, num tempo em que as mulheres nada podiam fazer. O olhar era outro, tratava-se de uma adaptação do livro de Jorge Amado, o que exigia uma nova “pegada”.

Gabriela estreou cercada de expectativas. Afinal, a mesma novela já havia sido feita nos anos 1970, e foi um dos grandes sucessos da história da Globo. A trama tornou Sonia Braga um ícone, e intérprete e personagem até hoje se confundem. Por isso, claro, havia a preocupação com as inevitáveis comparações. E quando Juliana Paes foi confirmada como a nova Gabriela, não faltaram críticas à escolha. Quando a trama entrou no ar, as críticas aumentaram. Quando a famosa cena da pipa no telhado foi refeita, novas comparações. E quando a protagonista praticamente sumiu de cena, durante boa parte da trama, as acusações de que a Gabriela de Juliana Paes não havia emplacado pipocaram.

Injusto. Não é possível comparar as duas versões de Gabriela, e qualquer tentativa de fazê-lo esbarrará  no saudosismo e, mais do que isso, há que se levar em consideração o contexto histórico no qual as duas tramas estão inseridas. Nos anos 1970, Gabriela teve um impacto. Nos anos 2010, é outro impacto. Dito isto, é possível avaliar que Juliana Paes foi uma competente Gabriela. A atriz soube imprimir toda a sensualidade e a ligeira ingenuidade brejeira da personagem em olhares e atitudes. O elo mais fraco da trama principal não foi a Gabriela, e sim o Nacib de Humberto Martins. O ator transformou o comerciante num abobalhado. Ficou chato.

Gabriela sumiu, sim, da história em muitos momentos. O que era totalmente previsível, afinal, a história de amor entre a moça e Nacib não tinha força suficiente para levar a novela sozinha. Ao seu redor, se desdobraram tramas com uma carga folhetinesca muito maior, então, nada mais natural que, em determinado momento, elas passassem a tomar conta do enredo. A espinha dorsal de Gabriela era o coronelismo político de Ilhéus, e estes conflitos pouco tinham a ver com a personagem-título.

Por isso mesmo, a trama do amor proibido entre Gerusa (Luisa Valdetaro) e Mundinho Falcão (Mateus Solano), tornou-se a grande vedete de Gabriela. Um amor impedido pela intensa política local, já que a moça era neta do coronel Ramiro (Antonio Fagundes), expoente máximo do coronelismo na região, e o moço era simplesmente seu grande rival político. O bom e velho Romeu e Julieta em meio à guerra política nordestina dos anos 1920. Outras histórias, como as de Malvina (Vanessa Giácomo) e a da sofrida Lindinalva (Giovanna Lancelotti) também eram bem mais fortes e envolventes que a saga de Gabriela.

Gabriela começou lenta, mas engrenou na reta final, dando destaque a vários personagens que viraram hits. Entre eles, o coronel Jesuíno (José Wilker), que acabou caindo nas graças das redes sociais pelo seu jeito, digamos, nem um pouco delicado. O bordão “vá se preparar que esta noite vou lhe usar”  ganhou adeptos. E outros diálogos que beiravam o surreal, como a sentença  “me dê licença, eu vou cagar”, também divertiram. Deram leveza a um personagem um tanto duro, que assassinou a mulher e o amante (Maitê Proença, que fez um belo trabalho; e Erik Marmo, inexpressivo como sempre). Também se destacou a brilhante Laura Cardoso, com sua carola Doroteia. Ivete Sangalo como Maria Machadão dividiu opiniões, mas a cantora não comprometeu, até porque o texto não lhe exigiu muito. Foi bem.

O autor Walcyr Carrasco, com Gabriela, teve uma boa chance de se livrar de alguns vícios incômodos que impregnaram suas obras anteriores. Seu texto, que não raro enveredaram para o boboca infantiloide em tramas como Morde & Assopra e Sete Pecados, merecia o exercício numa outra faixa, onde pudesse desenvolver conflitos mais adultos. Esperava-se que o autor resgatasse Adamo Angel, seu pseudônimo quando assinou Xica da Silva, um clássico da Manchete. Infelizmente, não foi desta vez que Adamo ressurgiu. Sim, houve uma evolução em relação às suas novelas água-com-açúcar das sete, mas, em muitos momentos, seu humor infantil e seu didatismo exacerbado surgiram, destoando do clima sério que o enredo da obra exigia. Walcyr perdeu a chance de se mostrar como um autor denso, pois ficou na superfície a maior parte do tempo. Preocupante, se levarmos em consideração que será dele a novela das nove que sucederá Salve Jorge.

Por André San 


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