“Guerra dos Sexos”: mais amor, menos guerra

Antes de mais nada, é preciso admitir: ressuscitar Guerra dos Sexos, definitivamente, não foi uma boa ideia. A remontagem do sucesso de 1983 surgiu diante de uma falsa promessa, pois seu autor Silvio de Abreu avisou que a trama seria atualizada e bem diferente da versão anterior. No ar, não se viu nada disso. Os personagens usam celulares e internet, mas seus pensamentos se mostraram antiquados e distantes do cenário atual. A “guerra dos sexos” ainda existe, mas está bem diferente, e essa falta de percepção do autor acabou por prejudicar sua obra. A discrepância causou ruído na narrativa e o público dispersou.

No entanto, quem deu uma nova chance à atual trama das sete provavelmente não se arrependeu. Guerra dos Sexos, atualmente, vive uma boa fase, cercada de bom humor e com atores muito inspirados. A crítica, de uma maneira geral, reconheceu que Guerra dos Sexos melhorou. Até atribuiu a boa fase ao fato de Silvio de Abreu ter reduzido a temática inicial, investindo mais nos romances do que nas brigas entre homens e mulheres. Mas vale lembrar que não se trata de uma manobra para adequar Guerra dos Sexos aos tempos atuais: a Guerra dos Sexos de 1985 também, passados alguns capítulos, reduz o mote inicial para dar ao enredo contornos de comédia romântica, abusando do melodrama.

Nesta fase mais romântica, destaca-se a história de amor de Roberta Leone (Gloria Pires) e Nando (Reynaldo Gianecchinni). A toda-poderosa empresária, uma mulher rica, sofisticada e elegante, se apaixona perdidamente por um motorista bronco que, ainda por cima, é mais novo do que ela. Disposta a viver esse amor, Roberta passa de maneira digna por todos os percalços que surgem diante de sua escolha. Enquanto isso, Nando é um jovem do bem, que reconhece e admira os sentimentos da namorada, e tenta correspondê-los enquanto se cura de uma desilusão amorosa. Mesmo apaixonado por outra, Nando não surge como um aproveitador, já que leva sua relação com Roberta dentro da honestidade que lhe é inerente. E até já se nota que seus sentimentos por Roberta começam a ficar mais fortes.

Roberta e Nando, assim, formam um casal adorável e são, sem dúvidas, o principal trunfo de Guerra dos Sexos. O casal funciona, provoca torcida, e a tal da química aparece aos baldes por aqui. Gloria Pires, mais uma vez, dá show em cena com sua naturalidade que chega a ser espantosa. A atriz traduz com o olhar os sentimentos desta mulher tão contemporânea (o que, numa novela acusada de ser “datada”, chega a surpreender) que, ao mesmo tempo em que tem total consciência de sua realidade, se permite ser romântica. E Reynaldo Giannecchinni, depois de um início reprisando o Pascoal de Belíssima, encontrou o tom de Nando, uma criatura boa-praça e até um tanto ingênua, mas sem ser necessariamente um boboca. Gloria e Reynaldo foram protagonistas de dois grandes momentos da novela esta semana: enquanto Roberta finalmente descobriu que a amiga Veruska (Mayana Moura) era uma traidora, Nando arrancava risos nas aulas de balé com Ludmila Petrovika (Grace Gianoukas, participação de luxo e hilária!).

Arrancar risos, aliás, é uma constante em Guerra dos Sexos. A direção e os atores parecem ter finalmente encontrado intimidade com seus personagens e a trama tem fluído de maneira muito mais atraente. Tony Ramos e Irene Ravache, após um início às cegas, encontraram seus Bimbinho e Cumbuqueta e parecem se divertir em cena. Ele, dando a Otávio uma série de tiques que traduzem sua impaciência e seu estresse; e ela, dando a Charlô uma leveza e vitalidade essenciais para se acreditar nesta mulher tão forte e tão livre. Outros personagens também divertem, como Felipe. Edson Celulari convence como este homem atrapalhado e carente, um dublê de picareta que só se mete em roubadas.

E o que dizer das participações especiais, que temperaram a novela nas últimas semanas? Julia Lemmertz agradou como Blanche. A maravilhosa Alessandra Maestrini deu show como a cantora Alessandra. Aliás, taí uma atriz que já está fazendo falta na telinha num papel regular. Alessandra já provou seu talento encarnando dois personagens distintos e igualmente hilários: a Bozena, de Toma Lá Dá Cá, e a Ditta, de Tempos Modernos. Alguém a escale para uma nova produção, urgente! Do elenco fixo, cabe destacar Bianca Bin, surpreendentemente bem como a vilã Carolina, e Marianna Armelinni, simplesmente hilária como a convencida Frô (o que são suas rixas com a tal da Terezinha Romano, que nunca aparece? Sensacional!). Até Luana Piovani está bem em cena, como Vânia.

Guerra dos Sexos é, antes de mais nada, uma ciranda de relações amorosas, quase como uma releitura dos versos da Quadrilha dos versos de Carlos Drummond de Andrade. Está longe de ser uma obra-prima ou de repetir o encantamento de sua versão original. Mas tem rendido bons momentos para quem gosta de um bom folhetim e uma boa comédia.

Por André San
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7 thoughts on ““Guerra dos Sexos”: mais amor, menos guerra

  1. Gosto do humor de Silvio de Abreu, não acho que ele mudou a história nem que os atores estavam fora do tom no início. Acho sim que o público estava acostumado com o humorzinho simplista de Cheias de charme.

  2. Não assisto Guerra dos Sexos, mas não concordo que o público estava acostumado com humor simplista de Cheias de Charme. Acredito que o público tenha se acostumado a rir de uma boa comédia como Cheias de Charme, ta André rsrsrsrsrs.

  3. Não gosto de Guerra dos Sexos. Já tentei assistir e achei a novela ruim pra caramba e sem pegada. Desde Passione o Silvio de Abreu perdeu a mão em escrever boas histórias e bons diálogos. Fico com pena dos atores porque tem muita gente boa ali mal aproveitada. Cheias de Charme tinha um humor mais popular sim, mas acima de tudo, era uma novela que conseguia conversar com a realidade do seu telespectador. A Globo está mal de novela no horário nobre agora que acabou Lado a Lado. Não estou muito empolgado com Flor do Caribe….e Salve Jorge é aquela lenga-lenga…se não fosse a Helô da Giovana Antonelli, aquela novela estava perdida num marasmo sem fim….rs

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