Globo, a gente se liga em você?

16 de março de 2013 8 Por Endrigo Annyston

Há um tempo atrás, em busca de passar um ar de humildade (que a emissora nunca teve), a tv Globo lançou o slogan: a gente se liga em você. O slogan era um esforço da emissora no sentido de quebrar aquele ar engessado, frio, imponente de um colosso cheio de orgulho certo de que estaria dando ao telespectador tudo o que ele precisava. Era o que representava o antigo slogan “a gente se vê por aqui”.

Em busca de quebrar o gelo e se aproximar do telespectador a emissora lançou mão de uma série de ajustes em sua grade. No jornalismo implementou mudanças na forma de dar a notícia transformando seus âncoras em alguém mais do que autômatos que lêem teleprompter. Jornalistas passariam a tecer comentários a partir de uma notícia passando assim a idéia de seres pensantes. Nas telenovelas, ainda voando nas asas da senhora classe c a emissora adquiriu ares menos intelectualizados por assim dizer e produziu Avenida Brasil e Cheias de charme. Tiveram outras, mas falo dessas duas porque se tornaram protagonistas nesse novo(?) formato. As duas novelas chegaram chegando. Rapidamente viraram sensação e se espalharam como rastilho de pólvora. Ganharam grandes repercussões na mídia e redes sociais e angariaram excelentes audiências.  Angariaram prêmios nacionais e internacionais. Viraram sensação que a emissora há muito não via em suas telenovelas e parecia, enfim, que tinham encontrado o veio de pedras preciosas. Parecia….

OURO DE TOLO

Há um tempo atrás escrevi um texto que foi publicado aqui no Cena. No texto fazia menção a “febre do ouro” período em que garimpeiros seguiram subitamente em busca de tesouros recém-descobertos. Fazia um paralelo entre a corrida frenética da televisão em busca de um público que ascendeu economicamente e ganhou protagonismo em nossa sociedade e a intensa migração de garimpeiros em território em que supostamente haviam imensas jazidas de pedras preciosas. Na febre do ouro poucos ficaram ricos.

Naquele texto fazia menção ao fato de que, ao estar lidando com um público migratório, havia o risco de num curto prazo toda aquela excitação inicial acabar. Parti da tese de que por se tratar de um público que ascendeu socialmente, logo se inseriria em novas formas de se informar e entreter.

DEPOIS DA EMPOLGAÇÃO UMA DURA REALIDADE:

Os grandes sucessos obtidos em AVENIDA BRASIL e CHEIAS DE CHARMES trouxe animação e conforto para a Rede Globo que parecia ter encontrado o caminho das pedras.  A emissora, enfim, conseguira estancar a longa tendência de queda que vinha sofrendo ano-após-ano, sobretudo nas telenovelas. Voando nas asas das profundas mudanças estruturais na nossa sociedade nos últimos anos, a emissora estava conseguindo falar com o público e dando a eles o que desejavam. Uma outra realidade, porém, se revelou tão logo sairam de cena as duas tramas.

Guerra dos sexos entrou em cena e não tardou a se verificar fuga de público. O mesmo ocorreu com Salve Jorge, trama de Glória Perez. Essa última já iniciou cercada de polêmica e promessa de boicote por parte de entidades evangélicas. Difícil saber se houve mesmo boicote – ou se houve, em que proporção isso atingiu a audiência da novela. Acompanhando a crítica especializada, porém, nota-se que a novela é cercada de problemas de toda espécie. Gloria Perez que escrevera grandes sucessos como O Clone e até mesmo Caminho das Índias, não teve a mesma sorte com Salve Jorge. A novela marca até aqui, o pior índice do horário, em termos de audiência. Mas essa questão também se explica pela grade atual da Globo como um todo. No Twitter Gloría Perez rebate críticas. Diz por exemplo, que Salve Jorge é uma das tramas que mais levanta a audiência global em relação ao programa anterior. Em partes ela està ¡ certa, em partes não. Convém observar que quando a novela é boa constitui-se como uma “sala de espera” inserindo audiência no programa anterior. Isso corresponde a dizer que se a audiência do JN não vai bem, também é por culpa da novela de Gloria Perez. Ainda no ambiente de telenovelas, a estreante Flor do Caribe estreou essa semana com audiência nada promissora e muito criticada.

Saindo um pouco do ambiente das telenovelas, a queda global é generalizada. Diariamente vemos notícias na mídia de que algum produto global  “marcou recorde negativo”.  As mudanças estruturais que foram feitas em busca de públicos não obteve, constata-se agora, efeito algum. Segue-se uma tendência de queda irreversível, o que se constata observando números anuais de anos anteriores. A Globo em seu slogan diz “A gente se liga em você”. A recíproca, porém, parece não ter sido  verdadeira.

* Ary Nunes