Influência da IURD na Record pode ser prejudicial à emissora

*Por Wander Veroni 

Discutir sobre religião sempre gera polêmica. Cada um tem a sua fé e as suas crenças. Você tem as suas e eu tenho as minhas. Normal. Pensando nesta diferença que existe dentro de uma mesma sociedade é tão importante o Estado Laico – onde as questões de religião são completamente separadas das decisões políticas. No mundo empresarial – principalmente o da comunicação, o ideal também seria ter essa premissa, mas isso nem sempre acontece. Atualmente, várias igrejas/religiões estão investindo em comunicação, seja locando espaço na TV aberta (ou rádio) para exibição de programas ou até mesmo criando emissoras próprias de TV, rádio, publicações impressas e portais na internet. A comunicação gospel está em alta: gera muitos empregos e está abrindo um campo de trabalho promissor, quando é feito de modo claro, transparente e ético, sem dúvida.

No Brasil, temos um caso muito particular onde o líder de um segmento pentecostal é dono da segunda maior emissora de TV aberta do país que – até aonde se sabe, tem a missão de ser um veículo de comunicação diverso, popular, apolítico e democrático. Estamos falando da Record. Em 2004, quando a emissora resolveu entrar de vez na briga pela audiência com um projeto a longo prazo, Edir Macedo deu diversas declarações falando que a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) era completamente desvinculada da Rede Record – sendo a única ligação das duas era o mesmo dono e o fato da IURD ser o “cliente dos sonhos de qualquer emissora de TV” por comprar o horário das madrugadas da emissora da Barra Funda a peso de ouro.

Entretanto, a fala de Macedo não corresponde com a prática. Quem trabalha com comunicação já viu de perto o quanto a IURD tem influência sob a Record. Vários bispos – ou pessoas ligadas à Igreja, possuem cargos estratégicos dentro da emissora de TV. Até aí nada demais, contanto que se tenha qualificação para entender a mídia televisão, que mal tem? Mas, será que há essa qualificação? Até que ponto uma coisa não interfere na outra? Essa semana me chamou a atenção o fato da revista eletrônica da Record, o Domingo Espetacular, veicular uma matéria com quase 40 minutos sobre outra vertente religiosa pentecostal rival à Universal. Ou seja, se durante os últimos anos o jornalismo pôde se orgulhar de ser independente, agora só Deus sabe….rs

A matéria em si criou um mal estar generalizado entre os cristãos e inventou até uma nomenclatura irônica, chamando-a de “cai-cai” e de “cair no espírito”. A prática funciona da seguinte maneira: o pastor toca a cabeça ou o corpo do fiel que entra numa espécie de “Desmaio do Espírito Santo”. A prática já fora atacada diretamente por Macedo em um programa da IURDTV, em setembro deste ano. Na época, o alvo foi a cantora gospel Ana Paula Valadão, da banda gospel Diante do Trono, da Igreja Batista da Lagoinha – segmento pentecostal concorrente à IURD.

Além disso, o ataque declarado se deve também pelo fato de vários cantores gospel terem assinado com a gravadora Som Livre (braço fonográfico da Rede Globo), que está investindo pesado neste estilo musical que possui uma marca de vendagem que impressiona. De acordo com o colunista Ricardo Feltrin, do F5, estima-se que, em 2011, a indústria da música gospel no Brasil movimentou R$ 2 bilhões. A título de comparação, os 4 CD´s da coleção “Promessas” venderam  482 mil cópias, enquanto Luan Santana vendeu pouco mais de 230 mil cópias, em 2010. De olho nesse público, pela primeira vez na história, a Globo vai fazer um especial de fim de ano com cantores evangélicos contratados da Som Livre, que será veiculado no dia 18 de dezembro.

O que impressiona é  o fato da IURD usar o jornalismo da Record como munição para uma disputa por fiéis entre vertentes pentecostais, além de querer minar o projeto musical da Som Livre. Entre os críticos, o ataque pode ser prejudicial à Record que tem a maior parte do seu público composta por cristãos das mais diferentes vertentes. Não contente com a repercussão negativa desta semana, junta-se ao imbróglio a crise editorial do jornalismo da emissora (que investe apenas em tragédia, desgraça e denúncia sensacionalista) e o fato da debandada de artistas em 2011, como foi o caso recente de Tom Cavalcanti. É hora de reverter as estratégias utilizadas até então, antes que o último que sair apague a luz. O sinal amarelo do possível terceiro lugar nacional em audiência já está ligado!

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*Autor: Wander Veroni, 26 anos, é jornalista pós-graduado em Rádio e TV e especializado em mídias sociais. É autor do blog Café com Notícias (http://cafecomnoticias.blogspot.com). Twitter: @wanderveroni / @cafecnoticias.

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