João Emanuel Carneiro e os personagens “quase homossexuais”


Na re-reprise de Da Cor do Pecado, podemos ver o personagem Abelardo (Caio Blat), o único integrante da família Sardinha que não vive em um tatame treinando e lutando. Ao contrário, ele se maquia, faz exibições junto a um “amigo” na rua e mostra ser um amante da arte, da culinária refinada e uma inteligência que nenhum de seus parentes entende.

Tipo estereotipado que muitos têm de alguém que possua alguma tendência à homossexualidade. Não bastasse isso, durante várias cenas o público era guiado a crer que Abelardo terminaria com Iris (Samuel Vieira), enfrentando a sua família que até sessões para tentar “curá-lo” chegava a fazer durante a novela. Eis que no fim ele termina com Tina (Karina Bacchi), dividindo a moça com seus irmãos (tudo no tom pastelão que reinava naquele núcleo).

Recentemente em Avenida Brasil, uma trama que causaria certa polêmica foi deixada de lado. Um jogador de futebol que se apaixonava por um dos colegas de seu time e depois viria a enfrentar a mãe evangélica que seria contra essa união. No começo era visto que Roni (Daniel Rocha) não seria correspondido por Leandro (Thiago Martins), mas depois houve a entrada de outro personagem que teria um romance com o rapaz, o Sidney (Felipe Titto , irmão bissexual de Tessália (Débora Nascimento).

No final das contas, o jogador que durante a novela chegou até a dizer que tinha vontade de largar o futebol e estudar moda, um sonho que tinha, acabou se envolvendo em um triângulo amoroso com Leandro, onde a mulher da relação, Suelem (Isis Valverde), terminava grávida e em nenhum momento se mostrou algum envolvimento entre os dois. A mãe evangélica? Sumiu da novela e assumiu a parte cômica da trama . O irmão de Tessália? Nem o Roni chegou a conhecer e também desapareceu. Os coadjuvantes só geraram frustração e não cumpriram com o que o público tanto esperou.

Em A Favorita, Orlandinho (Iran Malfitano) era o filho rico que se os pais suspeitassem que não era hétero, iria perder a fortuna. Céu (Deborah Secco), ao conhecê-lo então decidiu se casar com ele e assim foi sendo realizado o “golpe”. No final, Céu terminava grávida do “ex-gay” e simplesmente era esquecida a personalidade do personagem.

João Emanuel Carneiro foi o autor dessas três novelas e não conseguia manter os personagens sendo homossexuais até  o final. Independente do cenário ser um drama ou comédia, em certo momento os personagens deixavam claro que eram homossexuais, mas a novela ia sendo exibida e essas cenas eram esquecidas e se assumia um retrocesso do que foi exibido. O que ficou faltando então seria a coragem de deixar o personagem e sua condição sexual até o final. Faltou gerar o debate, deixar de lado essa dubiedade que não ajuda em nada e mostrar no meio da produção a possibilidade de alguém ser assumido e aceito, não haver a necessidade da mudança. Vamos esperar pela próxima novela e ver qual caminho ele irá trilhar se desenvolver um personagem que seja logo claramente gay (ou não).

* Gulherme Rodrigues



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