“Legendários” melhora ao apostar em variedades

26 de fevereiro de 2013 1 Por Endrigo Annyston

Quando entrou no ar, em abril de 2010, o Legendários vinha com uma proposta muito bem definida e um tanto curiosa: seu lema era a aposta do tal do “humor do bem”. O que se viu na estreia foi a tentativa de fazer um programa engraçado, mas regado a “bom-mocismo”, com um discurso cheio de boas intenções do anfitrião Marcos Mion que chegava a irritar. A tal busca pelo “humor do bem” é que acabou se tornando a grande piada da atração, invertendo a lógica de sua proposta: Legendários era engraçado quando tentava ser sério e não tinha graça quando queria ser engraçado.

Além disso, Legendários surgiu já sofrendo de uma total e crônica crise de identidade. Seu numeroso elenco, todos devidamente vestidos de preto e laranja, logo remetiam ao CQC da Band e seus “homens de preto”. E a inspiração no CQC não estava presente apenas no uniforme. A atração vinha carregada de matérias que mesclavam jornalismo e entretenimento. Denúncias e até noções de cidadania eram mostradas por repórteres “engraçados”. Isso sem falar nos inúmeros recursos gráficos que embalavam as matérias, tudo muito igual ao que o CQC faz até hoje, com sucesso. Legendários também tinha algo do Pânico, como o “apreço” por celebridades, esquetes de humor non sense e alguma sensualidade.

Marcos Mion tinha pouco espaço no programa que assinava. A seu lado, todo o elenco da atração aparecia atrás de uma bancada que conseguia ser maior do que a mesa de jantar do Tide (Tarcisio Meira), de Páginas da Vida. João Gordo, Élcio Coronato, Miá Mello (vivendo a personagem Teena) e toda a trupe do Banana Mecância, entre tantos outros, surgiam chamando seus próprios quadros, todos extensos e cansativos. Mion, quando aparecia, repetia seu discurso “do bem”, que nem de longe lembrava seu estilo debochado que o consagrou na MTV. Tudo isso fez com que Legendários estreasse mediante uma saraivada de críticas, e todas merecidas, diga-se. A atração simplesmente não tinha razão de ser.

Diante de tantos pontos negativos, era difícil vislumbrar que Legendários tivesse potencial para cair nas graças da audiência. No entanto, a direção do programa, acertadamente, não jogou a toalha, e soube identificar os erros iniciais e, mais importante, descobriu formas de contorná-los. E, assim, foi modificando o programa, tornando-o mais atrativo. O primeiro passo foi reforçar a presença do apresentador. O elenco foi logo enxugado e Marcos Mion passou a fazer mais do que chamar vídeos. O quadro Vale a Pena Ver Direito foi um divisor de águas dentro da trajetória de Legendários, pois resgatou o perfil “moleque” de Mion e o tornou, de fato, a estrela da atração.

Mais à vontade e com mais espaço, Marcos Mion conseguiu se desprender de algumas amarras e voltar a se mostrar como um animador sagaz. Tudo, claro, dentro dos limites impostos pela TV aberta, mas conseguindo reavivar suas piadas, que vão das referências pop ao mais puro besteirol, estilo que o consagrou na MTV em programas como Piores Clipes do Mundo e Descarga MTV. Aos poucos, os inúmeros quadros foram perdendo espaço e o palco se tornou, de fato, o principal ambiente da atração. Legendários foi ao encontro do público das noites de sábado, diminuindo o tom crítico e apostando mais em entretenimento e variedades. Entre erros e acertos, o programa foi moldando seu novo formato no ar, conseguindo, finalmente, resultados mais interessantes.

O novo formato do Legendários chegou ao seu auge neste início de sua temporada 2013. O programa voltou ao ar em pleno carnaval, com o elenco ainda mais enxuto e apostando forte em seus convidados no palco. Para garantir mais personagens interessantes, o programa passou a ir ao ar gravado (já que os artistas estão fazendo shows por aí nas noites de sábado). Marcos Mion domina o palco e comanda o show, tendo ao seu lado os remanescentes Mionzinho, Felipe Solari, Juju Salimeni e Tião (Felipe Torres), o único do Banana Mecânica que permaneceu na atração. Os convidados participam das brincadeiras propostas por Mion, entram no espírito do Vale a Pena Ver Direito e se apresentam em números musicais. Concursos e jogos inusitados completam o cardápio do Legendários.

No último sábado, 16, por exemplo, o programa dedicou grande parte de seu tempo a um jogo no qual os participantes tinham de correr contra uma esteira e encher copos de água, levando-os para dois recipientes maiores. Duas equipes disputavam a prova, formadas por pessoas de diferentes tipos físicos devidamente caracterizadas como estrelas pop. Algumas caracterizações eram tão bizarras (como o “Justin Bibão”, um clone de Justin Bieber com mais de dois metros de altura), que não escapavam dos comentários ácidos de Marcos Mion. O apresentador também se divertia horrores com os tombos estranhos ou com a tosca coreografia do “lelek lek lek”, repetida insistentemente.

É tudo um grande besteirol, é verdade, mas que arranca risos muito mais honestos do que os quadros metidos a “cabeça” que anteriormente compunham Legendários. Hoje, Legendários é um programa de entretenimento descompromissado, que resgata o espírito dos tempos dos grandes programas de variedades das noites de sábado, como Viva a Noite e Perdidos na Noite (considerando-se as devidas proporções, evidentemente). A Record acertou ao insistir no programa.

Por André San 


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