Massacre em Realengo: o bullying como peça do quebra-cabeças

9 de abril de 2011 0 Por Endrigo Annyston

Bom, acho que não preciso dizer que este assunto não era exatamente esperado para a o texto de hoje, não é? Ninguém esperava que o 7 de abril pudesse ser marcado por uma tragédia de tamanhas proporções. O massacre dentro de uma escola em Realengo trouxe mais do que sangue, mortes e traumas, mas também fez vir a tona uma discussão importante que não pode mais ser adiada: o bullying.

Não se sabe se essa teria sido a motivação de seus atos, ou apenas uma das peças do quebra-cabeças, mas o assunto merece destaque. De acordo com explicações fornecidas pela professora Maria Luísa Bustamante do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) em entrevista ao O Globo, “bullying consiste em qualquer atividade que perturbe e incomode o outro, em demonstrações de desrespeito e falta de consideração. Esse termo é específico para ser aplicado para tudo o que acontece na escola”.

Os abusos vão desde apelidos ofensivos, intimidação até a humilhação verbal e física. Provavelmente você que está lendo esse texto agora sabe do que estou falando: seja na ficção, através de filmes infantis da Sessão da Tarde, séries como Glee ou até mesmo ter visto isso pessoalmente. Seja como mero espectador, vítima ou provocador. E caso puxe um pouco pela memória sabe também que não se trata de um fenômeno novo.

Bullying não tinha um nome, sequer era visto com importância. Era tudo uma “brincadeira”, ou uma preparação para a selva da vida adulta. Geralmente era tido como algo que “ia passar”. O problema é que as vezes isso nunca passa. Não é raro que as vítimas carreguem marcas para toda a vida.

Wellington Menezes de Oliveira, o atirador, teria sido alvo constante de intimidação em seus tempos de estudante naquela escola. Colegas daquela época relataram apelidos e traçaram um retrato da personalidade do rapaz, em uma matéria que acabou levando o título de “O bobo da sala se tornou um criminoso”. Aliás, era chamado não apenas de bobo. Pelo menos foi isso que disse um desses colegas, Bruno Linhares de Almeida:

Eu me lembro muito, o Wellington era o ‘bundão’ da turma, era um cara totalmente tranquilo, um bobão. Implicavam bastante com ele, zuavam ele de tudo o que é nome”, contou Bruno. Mas depois o jovem ressaltou: “Ele apesar de ser bundão, ele tinha um sorriso assustador”.

Segundo Bruno, Wellington gostava muito de computador e não tinha muitos amigos. Mas tinha um aluno da turma que o atirador sempre andava junto e que, de acordo com Bruno, seria homossexual. “Eles viviam colados, só  sentavam juntos. Muitas vezes ele era chamado de ‘veadinho’”, contou.

Os detalhes vão sendo acrescentados de acordo com o veículo que faz a cobertura, mas talvez isso já seja indicativo suficiente. Muito já foi especulado sobre o caso: fanatismo religioso, influência de videogames e internet, distúrbios mentais… há um quebra-cabeças gigantesco e do qual talvez jamais se saiba como montá-lo. É difícil compreender a mente humana e como ela pode reagir diante do extremo, em atos de violência inexplicáveis, tendo inocentes como vítima. E por tudo que se pode notar em uma tentativa de montar o perfil de Wellington, o panorama não era nada bom.

Isso poderia ter sido evitado? Uma política mais efetiva sobre porte de armas de fogo, ou alguém que notasse sinais de que algo estava errado? Se algo houvesse sido diferente em seu passado o fim poderia ter sido outro? Não se sabe, nem vale mais cogitar os “se”s da questão pois o sangue já foi derramado. É importante buscar causas sim, mas para pensar em um futuro além das medidas práticas.

Discutir saúde mental pode parecer subjetivo, mas os resultados são palpáveis. Bem estar influi na vida em sociedade. Isso inclui respeito: algo que parece ser um artigo de luxo, cujo valor se mede pela raridade.

Gostaria de crer em uma esperança. As vezes é difícil ser otimista quando nos deparamos com esse tipo de atitude predatória sendo incentivada dentro de casa. Pregar o respeito é tarefa de cada um e não somente algo a ser feito em momentos de grande comoção popular.

Quero crer que a memória não morra com o passar do tempo e o assunto respeito não saia da “moda”.

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* Perfil: Emanuelle Najjar – Jornalista, formada pela FATEA em 2008, pesquisadora da área de telenovelas. Editora do Limão em Limonada (limaoemlimonada.com.br)