Novo “Bozo” parece perdido no tempo

Escrever sobre a estreia do novo Bozo não é tarefa fácil para quem foi criança nos anos 1980. Afinal, Bozo não era apenas um programa de televisão: o palhaço tornou-se ícone de toda uma época. Essa representação que, passados os anos, tornou-o mítico, torna qualquer tentativa de retomá-lo um desafio dos mais espinhosos. E fazer uma análise do Bozo atual, quando se tem na lembrança grandes momentos protagonizados por Luis Ricardo e Décio Roberto (os dois Bozos dos quais mais me lembro), inevitavelmente cairá na comparação saudosista. E o saudosismo, neste caso, pode levar a algumas injustiças. Mas não há como ser diferente. Vamos em frente.

O novo Bozo estreou seu programa solo na manhã de hoje, 16, depois de uma espécie de “esquenta” no Bom Dia e Cia, onde dividia o palco com Priscila desde dezembro do ano passado. A pré-estreia do novo palhaço nunca se justificou e serviu apenas para alimentar as desconfianças sobre quão positivo seria este retorno, passados mais de 20 anos da extinção do programa original. O novo intérprete do palhaço parecia não ser capaz de repetir a performance de seus antecessores. Faltava-lhe carisma e uma pitada de criatividade. No entanto, o formato do Bom Dia e Cia não era dos mais favoráveis para que o personagem ficasse à vontade. Era necessário esperar seu voo solo para perceber se o novo Bozo funcionaria em seu habitat natural.

Infelizmente, a estreia de hoje não apagou a impressão ruim. Bozo ainda aparece bastante inseguro em cena. Não foram poucos os momentos em que atropelou as palavras e parecia perdido. Talvez resultado de um nervosismo natural de estreia, mas ficou a impressão de que o palhaço não sabia direito o que fazer. Seus clássicos bordões estão de volta (“teréu téu téu”, “bozo bozoca nariz de pipoca”), mas parecem repetidos sem qualquer emoção. Ao apresentar as brincadeiras, Bozo repetia insistentemente a palavra “legal”, como se não soubesse mais o que dizer. Além disso, a família Bozo também parece bem menos vigorosa que a original. Os novos Papai Papudo, Salsi Fufu e Vovó Mafalda não disseram a que vieram. Não são ruins, mas falta-lhes carisma. Mafalda surgiu apagadíssima, o que causou estranheza. O genial Valentino Guzzo fez da palhaça uma atração à parte originalmente (tanto que a personagem teve sobrevida quando o programa foi extinto). O novo intérprete nem ao menos soube fazer a coreografia do hit “Tumbalacatumba”.

O formato da atração não é muito diferente do que já foi. Competições entre meninos e meninas, apresentações artísticas e esquetes humorísticas protagonizadas pela família Bozo continuam dando a tônica do show. As brincadeiras por telefone ficaram de fora, até porque todas elas são, até hoje, exaustivamente utilizadas no Bom Dia e Cia e Carrossel Animado. Quadros cheirando a naftalina, que podem até ter feito algum marmanjo chorar de saudade. Resta saber se as crianças de hoje ainda tem interesse nisso tudo. Crianças de 12 anos brincando de “Cocó Corrida” foi esquisito de se ver. Elas não pareciam nem um pouco felizes.

Aliás, é essa a grande questão que rodeia o retorno de Bozo. Tudo isso fazia sentido nos anos 1980, quando as crianças eram bem diferentes das de hoje. Não havia internet, nem celulares, não estávamos cercados de tanta informação como atualmente. Havia uma ingenuidade que parece não mais existir. Não que a criança de hoje não goste de fantasia, isso nunca vai mudar. Basta lembrar como a versão mais recente do Sítio do Picapau Amarelo foi bem-recebida pelos espectadores da Globo no início dos anos 2000. A fantasia existe e ainda vai existir, até mesmo adultos gostam de sonhar. Mas é preciso saber de que forma isso vai ser oferecido hoje. Retirar um formato da gaveta, tirar o pó e colocar pra funcionar não parece a melhor saída. A atualização é necessária.

A seleção de desenhos que compõem Bozo, no entanto, foi bem escolhida. A direção do programa o recheou de versões modernas de personagens clássicos, fazendo uma ponte entre o público de ontem e hoje: Scooby-Doo, O Show dos Looney Tunes e o novo Tom & Jerry dividiram espaço com Monster High (a mais fraca do cardápio) e O Máskara. Costurando todo o programa, o clássico desenho do Bozo dava as caras. Animação produzida num momento em que o politicamente incorreto não causava tanta estranheza como hoje. Foi esquisito ver o palhaço de arma e chicote em punho maltratando um leão, atacando de domador de circo.

É muito bom notar o interesse do SBT em reforçar sua programação infantil. Durante anos o Bom Dia e Cia reinou sozinho, com o mínimo de investimento possível, o que era pouco para uma emissora de TV que foi construída baseada num núcleo infantil fortalecido. Por isso mesmo, só a iniciativa de trazer Bozo de volta é digna de aplausos. Agora é torcer para que, no decorrer dos próximos programas, o elenco fique mais à vontade para encontrar o melhor tom dos personagens, e que a direção vá, aos poucos, tateando em busca do que a criança de hoje quer ver na TV. É possível modernizar o programa sem perder sua essência. E é isso que a equipe de Bozo precisa buscar.

Por André San


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