“O Canto da Sereia”: trama policial tipicamente brasileira

15 de janeiro de 2013 0 Por Endrigo Annyston

As minisséries de início de ano da Globo, salvo raras exceções, estão sempre incluídas entre suas melhores produções. Consideradas biscoito fino da grade, as produções primam pelo melhor acabamento, mais densidade em suas histórias e, de quebra, ainda agregam novidades à teledramaturgia. Com O Canto da Sereia, atração que abriu 2013 na emissora, não foi diferente. A produção em quatro capítulos garantiu índices de audiência acima dos 20 pontos na complicada faixa das 23 horas, algo raro nos dias de hoje, e ainda lança George Moura e Patricia Andrade como autores titulares, supervisionados por Gloria Perez, assinando uma trama vitoriosa, inspirada no romance O Canto da Sereia – Um Noir Baiano, de Nelson Motta.

A ideia de transformar a obra de Motta num produto televisivo não é nova, e não é difícil entender por que. O livro lançado em 2002 é dono de uma trama de forte apelo audiovisual. Auferindo a tridimensionalidade na TV pelas mãos de Ricardo Waddington e José Luiz Villamarim, o enredo ganhou cores de thriller noir (que vem se tornando uma especialidade da dupla, vide Avenida Brasil), garantindo personagens bem desenhados e a construção de uma Bahia que fugiu do estereótipo folclórico que o Estado costuma ganhar ao ser retratado pela teledramaturgia sulista global.

O Canto da Sereia, assim, mostrou-se como uma trama simples e complexa ao mesmo tempo. Simples, porque partia de uma premissa básica dentro do romance policial: um assassinato apoteótico e misterioso, seguido do passo-a-passo da investigação do crime. O famoso “quem matou?”, que a televisão e o cinema mundial adoram, em pleno carnaval baiano. A cantora Sereia (Isis Valverde) é baleada durante uma apresentação num trio elétrico, instalando um clima de mistério no ar. Quando o segurança Augustão (Marcos Palmeira) é convocado pela empresária Mara (Camila Morgado) para tocar uma investigação particular, o passado da cantora vai sendo apresentado e vários suspeitos do assassinato vão surgindo. A complexidade da situação está nestes personagens, suas características e as situações nas quais estão envolvidas, apresentadas numa narrativa não-linear sedutora, provocativa e reveladora.

Através de flashbacks, o espectador é convidado a conhecer melhor o universo no qual Sereia estava inserida. Festas recheadas de figurões, vida sexual livre, angústia e melancolia se misturam num vai-e-vem temporal que constrói Sereia e seus asseclas. Personagens inspirados em figurões da vida real (arquetipicamente ou não) vão sendo apresentados, como o produtor e ex-presidiário Paulinho (Gabriel Braga Nunes), o marqueteiro Tuta Tavares (Marcelo Médici), a mãe-de-santo Marina (Fabiula Nascimento) e o Doutor Jotabê (Marcos Caruso), governador da Bahia. No início, todos parecem ter motivos para dar cabo da cantora, mas vão sendo absolvidos no decorrer das investigações. No final do terceiro capítulo, quando o espectador descobre que Sereia sofria de uma doença terminal, abre-se espaço para que a suspeita recaia sobre o fã e amigo Só Love (João Miguel), o que é confirmado no episódio final.

A trama de O Canto da Sereia nem é das mais surpreendentes, mas sua eficiente narrativa e seus personagens bem colocados garantiam a fluidez e os atrativos que convidavam o espectador a seguir com a trama. Os novos autores souberam fazer uma adaptação literária eficiente, realizando ajustes necessários à linguagem audiovisual. Foram fiéis à essência do romance, mas realizaram mudanças que garantiam mais impacto televisivo. Foram felizes. Além disso, a direção da minissérie conseguiu o que parecia impossível: desvincular a imagem dos atores aos marcantes personagens anteriores que realizaram.

Ricardo Waddington e José Luiz Villamarim vieram de Avenida Brasil, e trouxeram com eles boa parte dos atores da vitoriosa trama de João Emanuel Carneiro. Isis Valverde, Camila Morgado, Marcos Caruso e Fabíula Nascimento tiveram pouquíssimo tempo para descansar a imagem. Mas Sereia, Mara, Jotabê e Marina em nada lembraram Suellen, Noêmia, Leleco e Olenka, os já antológicos habitantes do bairro do Divino. Os atores despiram-se do trabalho anterior de maneira tal que tornou impossível ao espectador relembrar este passado recente. Mérito total da direção e do elenco. Vale destacar a versatilidade de Isis, perfeita como a protagonista Sereia.

No fim, mais uma vez, ficou o gostinho de quero mais. O Canto da Sereia trazia uma gama de personagens tão complexos, unidos numa teia tão interessante, que ficou a vontade de vê-los mais bem explorados. Talvez, com mais uma semana no ar, a saga ganharia um necessário tempo para explorar melhor muitos desdobramentos, aprofundando o clima de mistério e aumentando o grau de intimidade do espectador com os personagens, fazendo o jogo de detetive mais eficiente. A era das minisséries que duravam três meses na Globo já foi, é verdade, mas oito capítulos poderia ser um padrão a ser considerado pela cúpula da emissora.

O Canto da Sereia sai de cena mostrando o quanto a teledramaturgia nacional pode ser versátil. Com todo o jeitão de “CSI Bahia”, como brincou o amigo deste blogueiro, o jornalista Diego Farias, em seu perfil no Facebook, a minissérie prova que a TV nacional consegue, quando quer, realizar tramas de investigação de qualidade. Que fique a lição para futuros seriados. A minissérie abriu bem os trabalhos do ano de 2013 na televisão brasileira.

Por André San

Blog: www.tele-visao.zip.net
E-mail: [email protected]
Twitter: @AndreSanBlog