“O Dentista Mascarado”: divertida comédia de mistura de gêneros

Alexandre Machado e Fernanda Young são os principais autores de séries da TV Globo. Desde que explodiram com Os Normais, a dupla emplaca um novo show praticamente todo ano. E, a cada nova criação, os telespectadores, inevitavelmente, passam a buscar algo que supere a genialidade da série protagonizada por Luiz Fernando Guimarães e Fernanda Torres. Uma cobrança natural, mas cuja execução parece praticamente impossível. Afinal, Rui e Vani tornaram-se ícones e, como acontece com ícones, ganharam mais status conforme os anos foram distanciando-os de seus fãs. Tudo parece melhor à distância.

Entretanto, a dupla de autores parece não carregar essa cruz de buscar um novo Os Normais. Ao invés disso, prefere brincar de propor situações loucas num contexto bizarro. Algumas chamam mais atenção e acabam ganhando sobrevida, como Minha Nada Mole Vida, que emplacou três temporadas, e Macho Man, que teve duas. Outras acabaram caindo no limbo televisivo, como Os Aspones e O Sistema. E, por fim, aquelas que divertiram, mas quando terminaram não despertaram grandes saudades, como Separação?! e Como Aproveitar o Fim do Mundo.

De todos estes trabalhos, o que ficou mesmo foi a assinatura de Machado e Young. Em comum, todas estas séries tem o fato de misturarem o besteirol, alguma escatologia e personagens que brincam com as pequenas loucuras que todos temos no dia-a-dia.  É ácido, esperto, com certo atrevimento. Nem sempre agrada a todos, pode não virar clássico, mas sempre rende boas gargalhadas, por mais fraco que o argumento possa parecer. Os Normais é e continuará sendo sempre o carro-chefe, porque criou uma identificação imediata com o público. De perto, ninguém é normal, e o mote da série escancarou isso ao público, criando um laço de afetividade que permaneceu, mesmo passados dez anos do fim da série.

No portfólio pós-Os Normais de Alexandre Machado e Fernanda Young, no entanto, as obras que mais contribuíram com a busca por novas linguagens na dramaturgia global foram aquelas que menos Ibope renderam: Os Aspones, O Sistema e, em menor grau, Como Aproveitar o Fim do Mundo. Todas estas séries partiram do princípio da mescla aloprada de gêneros, fazendo comédia utilizando linguagens bastante distantes da comédia como comumente a vemos.

Os Aspones, por exemplo. Na embalagem, nada muito distante dos núcleos empresariais que vira-e-mexe vemos nas novelas. Mas a salada de personagens tresloucados transformou aquilo tudo numa galhofa. Era interessante ver o humor surgir a partir de um ambiente de escritório, teoricamente tedioso. Com O Sistema, a brincadeira foi mais além: a linguagem típica utilizada era a de sci-fi. Mas, na prática, a série satirizava os clichês do gênero, extraindo gargalhadas de situações que, nos filmes de ficção científica, deveriam ser levados a sério. Como Aproveitar o Fim do Mundo usou disso também, em menor grau, flertando com a catástrofe, mas não se destaca tanto porque soou repetitivo.

Agora, Alexandre Machado e Fernanda Young voltam ao ar com O Dentista Mascarado, retomando a proposta de mistura de linguagens. Desta vez, a ideia é tirar um sarro dos filmes e séries baseados em super-heróis, mesclando-os com elementos tipicamente brasileiros. No centro da saga, um dentista: na verdade, um cara comum, com jeitos e trejeitos do típico loser. Ou seja, a pessoa menos indicada para se tornar um super-herói. Pois a graça começa justamente nesta premissa, mas a comédia é muito maior. O tom de sátira domina, com takes e situações que remetem imediatamente à famosa e cult série do Batman dos anos 1960. A intepretação de Marcelo Adnet, que vive o protagonista Paladino, vai ao encontro deste contexto, a começar pelo tom de voz adotado pelo ator. Paladino dialoga sempre com a voz empostada e abusando de frases feitas, como se estivesse sendo dublado. Também se observa forte estilismo baseado nas HQs do gênero.

Assim, O Dentista Mascarado parece querer resgatar a fórmula de O Sistema, mas de uma maneira menos “pirada” que o sci-fi de Selton Mello. Deste modo, consegue atrair um público mais heterogêneo (para compreender boa parte da graça de O Sistema, o espectador precisava ser viciado em filmes do gênero). O primeiro episódio não se mostrou surpreendente e até um tanto burocrático, mas há que se entender que era preciso fazer uma apresentação dos personagens e embasar os motivos que os levarão, nos episódios seguintes, a caçar bandidos além do consultório do dentista. Divertiu, acima de tudo, e mostrou que tem potencial. Marcelo Adnet mostrou-se a escolha mais adequada para o protagonista, e seus partners Leandro Hassun, o Sergio, e Taís Araújo, a Sheila, foram grandes destaques. A parceria deu liga.

Marcelo Adnet fez bem ao deixar a MTV. Claro, ali ele tinha uma liberdade que jamais terá em canal algum, mas há de se considerar que a emissora estava pequena demais para ele. Estava batendo com a cabeça no teto. À primeira vista, é meio esquisito vê-lo num novo contexto. Na MTV ele era uma espécie de “ator-apresentador”, seu jeito espontâneo se misturava aos personagens que fazia, criando uma persona particular. Na Globo, por enquanto, ele é um ator, e “só” isso. Mas dos bons. Criou um dentista mascarado divertido e cheio de detalhes e cacoetes. Sua persona a la MTV faz falta, é verdade, e ainda é difícil prever se ela terá algum espaço na Globo em suas próximas produções. No entanto, com O Dentista Mascarado, Marcelo Adnet entrou na emissora dos Marinho com o pé direito.

Por André San


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4 comentários em ““O Dentista Mascarado”: divertida comédia de mistura de gêneros”

  1. Eu acho que muita gente torceu o nariz porque queria ver o Adnet da MTV. Eu, particularmente, nunca vi graça nele. Acho que por isso foi mais fácil entrar na vibe do Dentista. Adorei e dei ótimas risadas!

    Pelo menos o primeiro episódio está no nível de Os Normais!

  2. Na MTV de todos os humoristas o que eu menos me divertia era com o Adnet. Tata, Dani, Bento e Serra eu gostava bem mais. Não digo q ele não me agrada o cara é uma fera na imitação e no improviso. Sobre a série eu não me diverti mto com o programa, queria rir mais, só que os personagens Sheila, Sergio e a Advogada são mto bons. O Dr Paladino do Adnet tbm gostei mto, o jeito que ele criou como foi dito foi incrível. Torço pela série, quero mto que cresça como Pé na cova cresceu.

  3. Concordo com o Endrigo, quem era fã do Adnet da MTV certamente não gostou do programa, mas eu como sempre gostei mais do Furo MTV e não achava tanta graça no Comédia, me diverti muito com série. Tanto é que até hj não vi muita graça da Dani no CQC, ontem vi o quadro em que ela comenta as notícias e não sei, acho que ainda falta algo. Talvez o Bento com aquela cara de tédio permanente dele.

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