O poder do controle remoto sobre as telenovelas

*Por Wander Veroni 

O que determina o sucesso de uma telenovela? Bom texto do roteiro, direção caprichada, elenco de primeira ou o conjunto da obra? São vários fatores, entre eles um que é sempre o mais importante de todos: o poder de decisão do telespectador. Afinal, é ele que define quem vai ser o preferido na escolha do controle remoto. Se nos programas e telejornais, a preferência do público determina (ou não) o prolongamento de uma pauta, imagina nas telenovelas?

A escolha do público pode determinar se uma telenovela vai durar ou não o tempo previsto, se o herói vai ficar com a mocinha ou aceitar a redenção da vilã…enfim, o público faz pressão e tem um poder de decisão tão grande que, na maior parte das vezes, se deixa seduzir pela menos pior. Se o telespectador soubesse quanto vale 30 segundos da atenção dele no horário nobre pensaria duas vezes antes de decidir o que quer ver e como quer ver. Pesquise o preço e depois e reflita. É um exercício que vale a pena!

Recentemente, Morde & Assopra foi colocada na berlinda pelo telespectador. Boa parte do público não comprou o título estranho da nova novela das sete da Globo, muito menos a mistura de dinossauros e robôs no folhetim. Com isso, a emissora carioca já está encomendando mudanças baseado numa pesquisa para ver se a audiência reage e fique satisfeita com os rumos da história. Entre alguns críticos de TV, Morde & Assopra virou o novo “Judas”. Todo dia aparece uma nota falando dos problemas da novela. Uma das últimas foi o fato do próprio autor Walcyr Carrasco ter ido parar nas ilhas de edição da novela por achar que aquilo que ele escrevia não estava indo ao ar da forma em que ele havia proposto, causando um mal no estar nos bastidores entre ele e o diretor Rogério Gomes.

Particularmente, não assisto Morde & Assopra. Não porque a novela seja mal escrita, mas sim porque a trama não me interessou. No horário, tenho visto a adaptação de Rebeldes, feita pela Record, e tenho gostado muitos dos rumos que a autora Margareth Boury deu a trama que ainda é recente na cabeça do público que conferiu a versão mexicana pelo SBT, há menos de cinco anos atrás. É praticamente uma outra novela! Ao mesmo tempo, Rebeldes tem reagido bem na audiência e alcançado números bastante expressivos em Fortaleza, Recife, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Fato bastante comemorado pela emissora da Barra Funda que mantém a esperança de que em São Paulo Rebeldes saia da média dos 10 pontos – o que não demora muito, pois os seis protagonistas funcionam muito bem juntos, além de terem carisma e talento.

Mas, voltando a falar de Morde & Assopra, me surpreendeu o fato de que os mesmos críticos de TV esquecerem de uma outra novela – também da Globo, que está sofrendo para emplacar e tem a antipatia do público pelo excesso de personagens em participação especial: a novela das nove, Insensato Coração. A trama de Gilberto Braga e Ricardo Linhares está há muito mais meses no ar do que Morde & Assopra e ainda não mostrou a que veio. Começou com embalo, mas depois estacionou. Fora a falta de química entre o casal protagonista que é desanimadora. Atualmente, o único oásis entre as novelas globais atende pelo nome de Cordel Encantado, na faixa das seis, que tem crescido em audiência a cada dia e surpreendido o telespectador com uma trama leve, cheia de magia e referências aos contos de fadas, cangaceiros e reis medievais.

Então, a pergunta que não quer calar: qual será o segredo de se fazer uma boa novela? Será que o público está mais exigente ou os roteiristas mais preguiçosos com medo de inovar? As perguntas são muitas e as respostas ainda precisam sem elaboradas. Apesar da TV aberta brasileira ser nacional, ainda nos deparamos com a situação de que apenas o gosto dos telespectadores de São Paulo ou do Rio de Janeiro são levados em conta. Não importa se uma novela é sucesso em Fortaleza, Belo Horizonte, Vitória, Goiânia, Manaus, Salvador, Curitiba ou Porto Alegre, tanto faz. Se o telespectador de São Paulo não gostar o restante do público paga o preço de uma TV supostamente nacional.

Não adianta falar que é por conta do mercado publicitário estar nessas duas praças, pois se os anúncios são nacionais, qual o sentido de querer agradar apenas uma região? O Brasil não é só o Sudeste. O restante do país também tem poder de compra. Será que alguém já parou para pensar nisso? Claro, o debate é amplo, mas não deve ser encarado de forma inflamada. Sou entusiasta, mas não sou louco. A TV vai continuar assim até as pessoas que estão no jogo quiserem que seja assim. É uma realidade que precisa ser revista se caso algum dia quisermos ter uma TV realmente nacional. Afinal, o poder está no controle remoto. Valorize-se!

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*Autor: Wander Veroni, 26 anos, é jornalista pós-graduado em Rádio e TV, ambas formações pelo Uni-BH. É autor do blog Café com Notícias (http://cafecomnoticias.blogspot.com). Twitter: @wanderveroni / @cafecnoticias.

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