“Pé na Cova”: mais que um “A Sete Palmos” tupiniquim

29 de janeiro de 2013 0 Por Endrigo Annyston

Ao criar A Vida Alheia, série exibida em 2010, Miguel Falabella apresentou ao espectador da Globo uma das mais bem-sucedidas experiências em teledramaturgia seriada já vista na televisão brasileira. O autor soube criar um universo rico em possibilidades e acertou ao tecer uma narrativa ágil e bastante próxima da produção seriada estadunidense, com episódios fechados que se desdobravam em arcos de trama que permaneciam ao longo da temporada inteira. Deste modo, suas protagonistas Alberta Peçanha (Claudia Jimenez), Catarina Faisol (Marília Pera) e Manuela (Danielle Winits) evoluíram diante dos olhos do público, o que as tornou pessoas de carne e osso. Ou seja, enquanto Aguinaldo Silva brada que “agora sim o Brasil terá um seriado de verdade” e apresenta coisas inclassificáveis como Lara com Z, Falabella já nos apresentou um “seriado brasileiro de verdade”, mas provavelmente o novelista não assistiu.

A Vida Alheia era uma dramédia forte, com personagens obtusos, numa trama cheia de conflitos pesados. Tratava o universo das celebridades como um celeiro cruel, em tons de cinza, sem glamour. A inspiração pareceu clara para quem assistiu a série Dirt, excelente drama protagonizado por Courtney Cox, que tratava exatamente do mesmo universo, e de maneira ainda mais pesada, já que a série era uma produção da TV a cabo dos EUA. No entanto, A Vida Alheia não era uma simples cópia de Dirt. Embora tratasse do mesmo universo e até apresentava personagens equivalentes, as situações de A Vida Alheia tinham os dois pés na realidade brasileira, haja visto que o mercado do “jornalismo de celebridades” nos dois países diverge, embora com vários pontos em comum.

Pois se A Vida Alheia carregava uma forte inspiração em Dirt, é impossível não assistir a Pé na Cova, nova série de Falabella que estreou na última quinta-feira, sem se lembrar de A Sete Palmos, brilhante produção da TV norte-americana. Para quem não conhece, A Sete Palmos era um drama que tratava do cotidiano dos Fischer, uma família disfuncional que tocava uma casa funerária. Ao longo de aplaudidas cinco temporadas, A Sete Palmos tratou de explorar todos os dramas dos tipos curiosos que compunham o clã Fischer, sempre contrapondo seus dramas pessoais aos dramas dos mortos que “preparavam” a cada episódio. Cada história, assim, carregava uma forte reflexão sobre a efemeridade da vida.

Neste caso, a comparação para por aí. Pois se A Sete Palmos era um drama carregado, que oferecia alívio apenas em pontuais situações de humor negro, Pé na Cova descamba para a comédia desde o início. Afinal, se o universo de celebridades de Dirt e A Vida Alheia divergiam em função dos hábitos diferenciados de cada nação, o “universo funerário” visto em A Sete Palmos é ainda mais distante da realidade brasileira. Aqui, o patriarca Ruço (Miguel Falabella) toca a FUI (Funerária Unidos do Irajá), negócio alocado no subúrbio carioca, numa região tomada por figuras elementares da classe média brasileira televisiva. Seria como se os personagens de A Grande Família, numa versão muito mais carregada nas tintas, passasse a comandar uma funerária.

Os tipos bizarros e populares são uma marca de Miguel Falabella em suas obras televisivas, e em Pé na Cova o autor foi às últimas consequências. Por ali há um patriarca na idade do lobo, uma matriarca alcoólatra e com problemas com gramática, uma jovem lésbica que ganha dinheiro fazendo strip tease na internet, um adolescente que sonha em ser vereador, um motorista que mais parece o Tropeço da Família Addams e uma babá que, ao que tudo indica, já morreu e se esqueceu disso. Aliás, aqui cabe um parêntese: a Babá é interpretada pela atriz Niana Machado, que vivia a personagem Formiga na novela Aquele Beijo, também assinada por Falabella, e cujo bordão era “eu já morri!”. Isso sem falar no desfile de nomes estranhos: Adenoide (Sabrina Korgut), Soninja (Karin “Ragatanga” Hills), Giussandra (Karina Marthin), Luz Divina (Eliana Rocha), Odete Roitman (Luma Costa)…

Pé na Cova, assim, se apresenta como uma espécie de mistura bizarra entre A Sete Palmos, A Família Addams (pela excentricidade de seus personagens) e até Os Oblongs, série de animação que mostrava uma família que vivia num vale tomado por poluição, o que fazia com que seus moradores apresentassem deficiências físicas e psicológicas. A matriarca de Os Oblongs, por exemplo, não tinha cabelo e ostentava uma estranha peruca, além de ter problemas com álcool. Darlene de Marília Pera até tem cabelo, mas, assim como Pickles Oblong, a maquiadora de defuntos não se separa de seu indefectível copo de birita. Marília, aliás, roubou a cena no primeiro episódio, proferindo as melhores pérolas do texto com seu português cheio de deficiências.

Miguel Falabella é mestre em comédia popular que não descamba para o popularesco, uma característica rara. Em Pé na Cova, o autor consagra em definitivo essa sua verve, oferecendo doses generosas de graça. A comédia da série está no exagero, no kitsch, no bizarro. E o cenário é um prato cheio para as situações mais estranhas. No entanto, em seu primeiro episódio, o cenário em si foi pouco explorado. A atração apenas apresentou seus tipos estranhos num ritmo alucinante, mas ainda revelou pouco sobre como o fato de os protagonistas tocarem uma casa funerária influirá em suas vidas. Fica então a expectativa para que, nos próximos episódios, Pé na Cova se mostre por inteiro. Já mostrou potencial.

Por André  San


Blog: www.tele-visao.zip.net


E-mail: [email protected]


Twitter: @AndreSanBlog