Quando qualidade e audiência não andam “Lado a Lado”

A novela Lado a Lado encerrou sua bela trajetória na noite de sexta com resultados díspares. Foi uma produção impecável, com reconstituição de época bem feita, texto redondo e atuações vitoriosas. No entanto, sai de cena com o ingrato título de pior audiência da faixa das seis da história. A trama dos novatos João Ximenes Braga e Claudia Lage foi aplaudida pela crítica e elogiada por fãs fiéis, que embarcaram na emoção das protagonistas Laura (Marjorie Estiano) e Isabel (Camila Pitanga). Mas “chamou” menos público do que as outras produções do horário.

Cabe aqui salientar que Lado a Lado foi aprovada pela plateia que comprou a ideia desde o início. A novela estreou com baixos índices de audiência, mas manteve o público inicial praticamente intocado. Ou seja, não houve dispersão de público, como normalmente acontece em novelas estreantes. Quem assistiu desde o começo não abandonou a saga. Foi o público que não comprou a novela de cara que dispersou. Seria necessário uma pesquisa mais aprofundada para entender este comportamento pouco comum.

Numa safra de bons lançamentos de novelistas (como Duca Rachid & Thelma Guedes e Filipe Miguez & Izabel de Oliveira), é uma pena que o lançamento de João Ximenes Braga e Claudia Lage não tenha repetido o mesmo sucesso. Talvez tal feito tenha a ver com a decisão da dupla de fazer uma história dentro dos quadros tradicionais. Enquanto Duca, Thelma, Filipe e Izabel injetaram algum frescor ao formato do folhetim, João e Claudia optaram por uma trama mais tradicional e, por que não dizer, conservadora. Lado a Lado foi uma bela história, mas sem grandes surpresas ou inovações.

Mas, se o texto não fugiu do conservadorismo, ele também esteve longe de ser ruim. Lado a Lado primou por personagens muito bem construídos, colocando à frente mulheres fortes e decididas, cada qual à sua maneira. Sendo assim, ter seu último capítulo exibido no Dia Internacional da Muher foi absolutamente simbólico. Laura, Isabel e Constância (Patricia Pillar), para citar apenas as protagonistas, são mulheres representativas, bastante palatáveis.

Laura é o símbolo da mulher moderna, nascida à frente do seu tempo. De família tradicional, enfrentou todas as tradições e os valores sociais característicos do final do século 19, buscando liberdade de escolha, seja ela de amor ou de carreira. Já Isabel tinha o mesmo espírito, mas inserida num contexto ainda mais conflituoso, afinal, é descendente de escravos, numa época em que a escravidão ainda era algo recente. Além de comprar briga pela independência, ainda tinha que enfrentar o preconceito latente. E Constância era o símbolo do conservadorismo, uma mulher capaz das maiores atrocidades em nome das tradições que acreditava piamente. E, mesmo fria e cruel, era capaz de amar, à sua maneira, nutrindo verdadeira adoração pela filha Laura e pelo neto bastardo.

Essas mulheres ficaram ainda mais interessantes devido ao belíssimo trabalho de suas intérpretes. Patricia Pillar, mais uma vez, construiu uma personagem cheia de nuances, dona de um conflito interno intenso. Constância, dona de uma ironia pessoal que começava pelo seu nome, era absolutamente real, reconhecível, cheia de contradições. Maravilhosa! E Marjorie Estiano e Camila Pitanga imprimiram verdade à amizade de Laura e Isabel. A dupla foi o verdadeiro “par romântico” de Lado a Lado.

Outro trunfo de Lado a Lado foi utilizar o contexto histórico a favor de sua trama. Zé Maria (Lázaro Ramos) foi uma espécie de Forrest Gump, testemunhando e participando ativamente de momentos como a desapropriação dos cortiços e o início das favelas e a Revolta da Chibata. Lado a Lado, assim, conseguiu passar a limpo alguns momentos da história do Brasil. Mesmo excedendo no didatismo em algumas ocasiões, a novela acabou prestando algum serviço no sentido de fazer o espectador compreender melhor estes momentos. Um prato cheio para professores de História!

Lado a Lado contou ainda com uma série de personagens graciosos, que divertiram nestes meses no ar. Dentre elas, destaque para Celinha (Isabela Garcia), a irmã boazinha de Constância, uma simpática personagem (aliás, mais uma para a galeria da atriz) que engatou um romance dos mais divertidos com Guerra (Emílio de Melo). Já Diva (Maria Padilha) e Neusinha (Maria Clara Gueiros) foram donas de grandes cenas cômicas, na eterna disputa pelo cargo de estrela da companhia de teatro. Só é uma pena que uma das melhores personagens deste núcleo ficou apenas na primeira fase da novela, a simpática Eliete (Maria Eduarda). Algumas personagens maldosas também merecem menção, como Carlota (Christiana Guinle), Berenice (Sheron Menezes) e Catarina (Alessandra Negrini, ótima!).

Quem deu uma chance ao belo trabalho dos autores João Ximenes Braga e Claudia Lage e do diretor Dennis Carvalho com certeza não se arrependeu. Lado a Lado sai de cena com o mérito de ter sido uma grande produção, com todo o requinte a que teve direito. Sem dúvida, uma novela que fez com que seu telespectador se apaixonasse, com emoção na dose certa. Deixem os números para quem interessa a eles: para nós, telespectadores, Lado a Lado foi um sucesso!

Por André San

Blog: www.tele-visao.zip.net


E-mail: [email protected]


Twitter: @AndreSanBlog

One thought on “Quando qualidade e audiência não andam “Lado a Lado”

  1. Fui telespectadora fiel eu e minha família !!! Ótimo elenco, lindas histórias de amor,muitas risadas com o quequé e o pessoal do teatro, e uma aula de história!! Um prato cheio, novela gostosa de assistir aos finais de tarde tomando um bom chimarrão.
    Parabéns aos autores e produção!! Muito chorei e sorri com a novela, uma das melhores que já vi !!
    Saudades !!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *