Rafinha Bastos e o jogo que vai muito além da piada sem graça.

Existem coisas das quais mesmo tentando manter a distância acabamos tomando conhecimento. Talvez o caso mais recente que possa ser usado como exemplo seja o CQC e uma de suas figuras mais controversas, que neste momento é Rafinha Bastos. Passo longe do programa há mais tempo do que posso precisar, tanto por falta de tempo quanto falta de gosto, mas ainda assim acabo voltando ao ponto de partida, graças às suas polêmicas.

A última delas foi referente à cantora Wanessa Camargo e uma célebre declaração de que “comeria ela e o bebê”. Outras mais recentes dizem respeito a Daniela Albuquerque e algo que passou os limites da pura e simples implicância a uma pronúncia de palavras. Já a primeira entre tantas outras que lhe deram uma visibilidade ímpar relacionava estupro à gratidão pelo estuprador, em uma piada que além do mau gosto ainda por cima era sem graça. E depois de tantas tentativas de piada que falhavam miseravelmente em fazer graça, aconteceu aquilo que se julga ser uma punição ou qualquer coisa parecida.

Parecida, porque ninguém acredita realmente que seja algo semelhante a uma represália. Algo tardio e apenas paliativo, para agradar a um público e a anunciantes visto que os lucros de alguma forma foram ameaçados (que não subestimem o poder de Ronaldo fenômeno.). Descansar a imagem somente e de uma forma desafiadora tendo em vista que sua suspensão da bancada do CQC com a justificativa de uma “câimbra na língua” pode ser encarada no máximo como férias, e não como o cantinho da disciplina.

Sejamos conscientes, não dá para considerar seu emprego como ameaçado ou sua advertência frente à Band como séria. A ordem vinha apenas devido a ideia de ver seus lucros ameaçados e nada mais. Sequer significa um freio. É apenas uma demonstração de hipocrisia. Continuam as piadas sem graça que se transformam na mais pura ofensa, um pedido de desculpas tão hipócrita quanto a súbita importância maciça dada a isso. Quantas tantas outras igualmente imorais e ofensivas sequer tiveram uma atitude minimamente enfática?

Esse jogo tem muito mais do que um humorista ultrapassando o limite tênue entre graça e ofensa e alegando liberdade de expressão em defesa a qualquer consequência. Tem também uma plateia que pouco reflete sobre o que consome ou aceita que as palmas a ofensa servem como incentivo ao que mais tarde chamarão de amoral. A culpa tem dois lados. Isso é o que se recusam a entender.

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* Perfil: Emanuelle Najjar – Jornalista, formada pela FATEA em 2008, pesquisadora da área de telenovelas. Editora do Limão em Limonada (limaoemlimonada.com.br)



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