A redenção pode chamar a atenção em novelas?

A lógica das novelas nacionais é bastante simples: mocinho se apaixona pela mocinha, e vilão atrapalha até o último capítulo. Com raras exceções, esta é a seqüência das principais produções de dramaturgia da televisão brasileira.

Contudo, a aparente mudança de Clara deixa em aberto uma possibilidade ao tradicional clichê noveleiro. A melhor e mais atraente característica dos personagens de folhetins não é a bem talhada opção por um ator ou atriz com beleza excessiva. Muito pelo contrário, as emoções em cenas elaboradas tendem a chamar mais a atenção do público.

Nos consagrados seriados americanos há uma preocupação em apresentar as características emocionais e pessoais dos personagens nos primeiros episódios. É como o inicio de uma amizade em que gradativamente são descobertos os prós e os contras de cada ingrediente humano da trama. E não há como negar à superioridade sobre personagens rasos e comuns em cada nova novela.

Se Silvio de Abreu pisasse no freio e não forçasse tanto a repentina paixão de Clara por Totó a evolução da personagem seria extremamente interessante, inovadora e chamativa. No meu ponto de vista sempre foi mais focado o relacionamento entre Clara e Danilo do que o desprezo que ela sentia pela paixão descomunal que o marido lhe declarava. Clara pode morrer de saudades pela estabilidade e segurança da vida que Totó lhe proporcionou. Considero irreal seu inesperado amor pelo italiano.

Anteriormente, eu já havia sugerido que a relação Clara e Danilo é muito mais atrativa e rica do que o arrependimento de Clara e sua tentativa de reaproximação a Totó. A redenção da antiga golpista e a batalha contra as drogas do ex-ciclista poderiam encher os olhos dos telespectadores brasileiros tão acostumados a superar obstáculos diariamente.

A superação e redenção trariam mais credibilidade as novelas atualmente tão alienadas e repetitivas. Hoje em dia, é difícil não bocejar com as frustrações amorosas dos patéticos personagens principais de Passione. O cotidiano dos brasileiros poderia inspirar histórias mais verídicas e ousadas do que a ultrapassada formula de mocinho x bandido.

*Cristina Possamai, formanda em jornalismo pela Faculdade Satc de Criciúma (SC)



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