RJ: O novo-velho alvo do sensacionalismo desenfreado

por Emanuelle Najjar

Para quem gosta de dizer que vivemos em uma praça de guerra, eis que temos agora um prato cheio. Esse prato também vale para aqueles que gostam da velha disputa regional. Duvido que alguém tenha passado incólume pelos acontecimentos dos últimos dias no Rio de Janeiro.

Troca de tiros, veículos incendiados, forças militares nas ruas, população com medo – como sempre – e manifestações de paz. Uma suposta continuação de Tropa de Elite embora na vida real e mais trocentos eufemismos e licenças poéticas que quiserem ter.

E no meio de tudo isso temos um prato cheio pra todo tipo de coisas na TV, especialmente em se tratando daqueles que tem na violência a garantia de sobrevivência. Sabe aqueles programas onde só falta o sangue escorrendo pela tela, onde apresentadores vociferam e rosnam diante das câmeras a falta de deus no coração das pessoas? É deles mesmo que estou falando, dos que transformam o mundo em não mais que uma grande e eterna desgraça e que agora tem do que realmente se aproveitar.

Quantos programas desses existem por aí? Quantos deles você conhece? Quantos deles existirão eternamente porque servem a atração urubuzenta e insaciável da desgraça alheia?

O sensacionalismo nunca teve tanto palco, as palavras gritadas no conforto de um estúdio provavelmente nunca surtiram tanta audiência. Nunca o telespectador ou o internauta falou tanto em pena de morte por exceção (???) e nem os andarilhos com plaquinhas de “o fim está próximo” pareceram tão certos.

Ah tá. Esqueci. Não  é sensacionalismo: é “prestação de serviço”. É a divulgação para informação do telespectador, afinal se os grandes telejornais podem dar um grande destaque ao acontecido, por que não fazer o mesmo?

A diferença é  que a prestação de serviço não parece desejar o fim do caos, pois a promessa de boa audiência é grande. É preciso ter assunto. Quanto mais tempo falando de um único assunto, melhor. Quanto mais infortúnio melhor. A relação custo-benefício fala mais alto, é dinheiro fácil.

Prega-se paz, sobrevive-se do oposto. Nada mais clichê. Por otimismo que seja, uma hora o Rio terá paz mas sabe como é. Nada pessoal, mas tem sempre uma nova atrocidade ali adiante. E assim segue a nossa televisão.
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* Perfil: Emanuelle Najjar – Jornalista, formada pela FATEA em 2008, pesquisadora da área de telenovelas. Editora do Limão em Limonada (limaoemlimonada.com.br)



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