“Salve Jorge” lembra “América”

30 de outubro de 2012 0 Por Endrigo Annyston

Dancinhas. Ponte-aérea Brasil-Oriente. Dancinhas. Neusa Borges. Dancinhas. Stenio Garcia. Dancinhas. Merchandising social. Dancinhas. Não foram poucas as piadas diante das fórmulas bastantes características das novelas de Gloria Perez nas redes sociais desde a estreia de Salve Jorge, na última segunda-feira, 22. Pelo Facebook foi possível encontrar desde um bingo, cuja cartela era formada por alguns dos pontos enfileirados acima, ou até mesmo uma ferramenta em que o internauta podia criar “sua própria novela da Gloria Perez”. Em tempos de redes sociais atuantes, nenhuma piada é perdida.

E Salve Jorge entrou no ar mostrando Gloria Perez em sua melhor forma, tanto nos aspectos positivos quanto negativos. A nova novela chega com uma pegada forte e envolvente, bastante calcada no folhetim em sua forma mais pura, da qual Gloria é adepta. Um grande romance central, cercado de inúmeras tramas paralelas, um merchandising social forte e um núcleo no oriente dão a Salve Jorge as mesmas cores vistas em tramas como Caminho das Índias e O Clone. No entanto, à  primeira vista, Salve Jorge parece ter mais semelhanças mesmo com América.

Assim como a novela de 2005, em Salve Jorge os dois protagonistas são brasileiros. Morena (Nanda Costa) e Theo (Rodrigo Lombardi) vivem no mesmo país, se apaixonam à primeira vista, mas sua história de amor enfrentará alguns percalços. O moço, que é capitão do exército, namora Érica (Flavia Alessandra), que não quer perder o namorado para a moça, e tem uma mãe, Áurea (Suzana Faini), que não vê com bons olhos o novo interesse amoroso do filho. Já Morena (Nanda Costa) é moradora do Complexo do Alemão, uma jovem mãe solteira e com uma pitada de ambição. Foge às características da mocinha tradicional: tem personalidade, é marrenta e seu figurino não é nada discreto.

O primeiro capítulo começou com um flash do futuro. Numa cena forte, vimos Morena num país distante, sendo objeto de um leilão. Apavorada, a mocinha foge pelas ruas deste lugar desconhecido, implorando por ajuda. O recurso foi uma grande ideia, pois aguçou a curiosidade da audiência sobre como Morena foi parar ali, e mais que isso, como ela sairá da enrascada. Assim, o flashforward dá algumas pistas sobre como Salve Jorge se desenvolverá. No final do capítulo, através da história de Jéssica (Carolina Dieckmann), o público começou a entender como funciona o esquema do tráfico humano, tema central da novela. Agora fica fácil concluir que Morena cairá na mesma armadilha.

Com isso, Morena fica ainda mais parecida com a Sol (Deborah Secco), de América. A jovem viu sua casa sendo destruída na infância, passou por diversos perrengues com a família e cresceu alimentando o sonho de dar uma vida melhor a si e a todos que a cerca. Para realizá-lo, buscou entrar ilegalmente nos Estados Unidos, abandonando seu grande amor Tião (Murilo Benício). Na época, houve certa rejeição à personagem, que abriu mão do romance para tentar a sorte num lugar distante. Morena, que também já deixou claro sua veia sonhadora nos primeiros capítulos, terá destino semelhante. Será que ela também vai abrir mão de seu amor por Theo para tentar a sorte num outro país, onde acabará vítima do tráfico humano? Será que a mocinha terá o perdão da audiência ao se mostrar tão ambiciosa?

Já as semelhanças de Salve Jorge com O Clone e Caminho das Índias estão na presença de um país oriental como cenário. Desta vez, parte da trama se passa na Turquia. Porém, até  aqui, a Turquia não aparece na história central, diferentemente das duas tramas anteriores, cuja ação principal se passava no Marrocos e na Índia, respectivamente. Mesmo assim, não faltam neste núcleo referências à cultura daquele local, diálogos com tecla sap embutida e bordões estrangeiros. Vários outros elementos a la Gloria Perez deram as caras nos primeiros episódios: núcleo popular regado à comédia, um boteco onde todos se encontram, Neusa Borges fazendo papel de Neusa Borges, e um sem-número de personagens e tramas diferentes. O excesso de personagens chega a causar estranheza, já que Salve Jorge substitui Avenida Brasil, uma trama bem mais enxuta. A mesma estranheza vista quando Caminho das Índias sucedeu A Favorita.

O elenco de Salve Jorge é amplo e repleto de estrelas. A escalação de Nanda Costa para viver Morena, chama a atenção e foi um grande acerto. Vista em papéis menores em Cobras & Lagartos, Viver a Vida e Cordel Encantado, Nanda é bonita e talentosa. Construiu uma suburbana reconhecível e deliciosa. Já Rodrigo Lombardi como o mocinho revela a insistência da autora em repetir atores em papéis. Clara tentativa de ressuscitar a “sensação Raj”. Não precisava. Bom ver Giovanna Antonelli de volta num trabalho da autora, já que a atriz brilhou como a mocinha Jade, de O Clone. Desta vez no papel de uma delegada durona, Helô, Giovanna vem transitando entre o drama e a comédia de maneira bem desenvolta. Ótima! Só é estranho vê-la como mãe de Mariana Rios (Drika). Ao que tudo indica, boa parte das personagens da novela teve filhos na adolescência. Seu parceiro de cena, Alexandre Nero (Stenio), tem se mostrado um ator bastante versátil, mas começa a desgastar a imagem. Claudia Raia, como a grande vilã Lívia, promete bons momentos. A personagem ainda não se mostrou por inteiro, mas tem tudo para decolar.

Salve Jorge é um grande mais do mesmo de Gloria Perez, tudo muito bem temperado e criado para despertar emoções imediatas na plateia. A autora usa todas as suas armas, e é inegável que ela comanda este universo particular como ninguém. A trama tem tudo para pegar e se tornar mais um sucesso em seu currículo.

por André San


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