“Salve Jorge”: só Helô salvou!

Terminou Salve Jorge, a novela que todos amaram odiar. Se a trama anterior das nove da Globo, Avenida Brasil, serviu para mostrar como uma novela pode ganhar status de cult por conta da força das redes sociais, Salve Jorge provou que as mesmas redes sociais também têm força na hora de esculhambar um folhetim. A história de Gloria Perez teve tantos furos quanto qualquer outra novela, mas os espectadores atentos não deixavam nada passar em branco. Por que, afinal, os erros de Salve Jorge não foram dignos do perdão da audiência como nas novelas anteriores?

A resposta está nas próprias “inovações”  do texto tanto alardeadas por Gloria Perez. A autora, como se sabe, é adepta do folhetim rasgado, o que dá margem a uma série de situações absurdas, conflitos sem muito sentido e passagens inconsistentes. Todas as suas novelas foram assim, e todas chamaram a atenção da plateia. Novelas como O Clone, América e Caminho das Índias foram sucessos incontestáveis. No entanto, em Salve Jorge, a autora, pela primeira vez, se aventurou numa trama essencialmente policial. Seu estilo, digamos, “livre”, bateu de frente com a coerência que uma saga de cores policiais exige.

As “pirações” de Gloria caem como uma luva nas sagas tomadas por paixões arrebatadoras, conflitos fortes e cheios de reviravoltas rocambolescas. Mas, quando se pretende falar de um assunto saído direto das páginas policiais, com a intenção da denúncia, tudo calcado na realidade, exige-se um mínimo de pés no chão. Havia uma quadrilha internacional de tráfico humano no centro da história. É um assunto sério, de meter medo. Mas como ter medo da quadrilha mostrada por Gloria, que mais parecia um bando de fanfarrões saídos de comédia da Sessão da Tarde?

Livia Marine (Claudia Raia), a chefona, era caracterizada pelo estilo sóbrio, afinal precisava se manter acima de qualquer suspeita. Mas não demorou para que ela perdesse a mão de sua posição, ao sacar sua seringa assassina indiscriminadamente. É evidente que a polícia passaria a desconfiar que todo mundo que a cercava começava a “morrer de overdose” de repente. Enquanto isso, Russo (Adriano Garib) era uma caricatura, que fazia maldades ao mesmo tempo em que acariciava seu gato. Um vilão de desenho animado. E Irina (Vera Fischer), que nem ao menos se dava ao trabalho de se levantar? Estava cansada? A única que se salvou nesta quadrilha de palermas foi Wanda (Totia Meirelles), a única que soube imprimir credibilidade. O resto era remake de Os Trapalhões.

A mesma Livia Marine séria e centrada vista nos primeiros capítulos da novela acabou perdendo a cabeça numa inacreditável paixão por Theo (Rodrigo Lombardi), um dos mocinhos mais sem graça da história das telenovelas. O fato de a vilã ter se transformado em razão de uma paixão não fazia qualquer sentido. Até meados da trama, ela era dura, determinada, racional, implácavel. Do nada, passou a se comportar como uma boboca, tola, choramingando pelos cantos. Soou falso, simplesmente não combinava com o perfil de Livia. A vilã, que nunca passou lá muita credibilidade, se perdeu de vez.

Morena (Nanda Costa), a grande vítima de todo o tráfico do qual tratava a novela, foi uma excelente mocinha. Salve Jorge quebrou alguns tabus ao colocar na liderança de seu enredo uma heroína favelada, mãe adolescente, briguenta, sem papas na língua, e que ainda foi obrigada a se prostituir. Nanda Costa vestiu a camisa e esteve ótima em cena. As falhas de sua trajetória aconteceram, sobretudo, devido ao texto fraco do enredo. A jovem caiu numa armadilha dos vilões da novela e se viu em maus lençóis. Mas ela não podia escapar desta armadilha tão cedo, senão não havia novela. Assim, Salve Jorge ficou andando em círculos. Morena teve várias chances de escapar, mas inexplicavelmente não o fez. Somente quando foi “autorizada pela autora” a se mexer que a novela ganhou ritmo.

Faltou também sensibilidade à Gloria Perez para compreender que a temática do tráfico humano era suficiente para segurar sua obra. No entanto, a autora, mais uma vez, lançou mão do questionável artifício de oferecer um sem-número de “embriões de núcleos paralelos”. Por exemplo: a autora escolheu a Turquia como país ao qual Morena seria traficada. OK. Mas era mesmo necessário haver todo um núcleo turco ao redor? Não, claro que não. Mesmo assim, estavam lá vários personagens turcos que fizeram figuração de luxo durante praticamente toda a obra. Ou você se lembrava que a personagem de Elizângela se chamava Esma? Ou que Ernani Moraes era o Kemal? A Buquet de Narjara Turetta passou em branco, assim como o Murat de Anderson Muller, que só teve algum momento na novela quando fingiu ser o namorado de Morena. Oh!

Outro núcleo que se mostrou desnecessário foi o dos Flores Galvão. A história (boba) das irmãs Aída (Natália do Valle) e Rachel (Ana Beatriz Nogueira), de olho na herança da madrasta Leonor (Nicette Bruno) que, por sua vez, queria contemplar apenas uma cadelinha, obviamente não aconteceu e foi deixada de lado. Aí as personagens passaram a tomar outros rumos, em busca de uma nova função. Mas, enquanto não a encontravam, passavam horas batendo papo furado ou assistindo televisão pelo tablet na sala de casa. E alguém lá assiste TV pelo tablet em casa? Não é mais fácil ligar a televisão? Enfim. A bizarrice deste núcleo foi consagrada com a morte de Rachel, numa das cenas mais toscas da história da teledramaturgia.

Ainda neste núcleo, havia Carlos (Dalton Vigh), que, casado com Amanda (Lisandra Souto), se envolvia com Antonia (Leticia Spiller). Tal história de amor teve seus altos e baixos, mas manteve-se morna por praticamente toda a obra. Além disso, Carlos devia ser algum chefão do tráfico de pessoas, já que vários personagens ao seu redor desapareciam misteriosamente. Seu filho Caíque (Duda Nagle) sumiu, mesmo morando na mesma casa do pai. Voltou no final sem razão aparente. Sua ex-mulher Yolanda (Cristiana Oliveira) foi tragada pela terra, retornando apenas para revelar um segredo idiota: Carlos não era um legítimo Flores Galvão! Oh! Até mesmo dona Dália (Eva Todor), grande amiga de sua mãe, também desapareceu. Quando reapareceu, foi pra revelar o segundo segredo do núcleo: Celso (Caco Ciocler) era filho bastardo do marido de Leonor com Isaurinha (Nivea Maria), melhor amiga da senhora elegante. O tal segredo matou Arturo (Stenio Garcia), marido de Isaurinha, que também andava meio sumido. Oh!

São tantos personagens e tramas sem razão aparente, que fica até difícil enfileirar todos aqui. Mas lançar mão de tantas tramas para desenvolver apenas algumas é um artifício que devia ser combatido dentro da Globo. Afinal, mantém uma série de atores talentosos à disposição de uma obra, sem dar o devido espaço a todos. Com isso, ficam todos presos a uma novela sem motivos, enquanto poderiam ser mais úteis numa outra produção. Sem falar no desrespeito ao artista, que merece consideração. Isso não se faz.

Em meio a tantos problemas, salvou-se Helô (Giovanna Antonelli), a delegada implacável de Salve Jorge. A personagem foi a única da obra que manteve uma linha coerente ao longo de toda a trama. E a intérprete soube transitar muito bem entre o drama e a comédia, dosando como ninguém a Helô durona do trabalho, com a perua tresloucada, apaixonada e ligeiramente insegura em sua vida pessoal. Mais um trabalho genial de Giovanna.

Os erros no texto, somados a uma direção equivocada, ajudaram Salve Jorge a ficar ainda mais desacreditada. No fim, a trama valeu mesmo apenas por sua função social, ao colocar sob os holofotes um assunto sério e, até então, um tanto obscuro. No mais, serviu mais para irritar do que entreter. Gloria Perez pode bater o pé e fazer beicinho no Twitter, chamando seus críticos de “o bonde dos recalcados”. Mas, desta vez, não funcionou. Salve Jorge já vai tarde!

Por André San


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4 thoughts on ““Salve Jorge”: só Helô salvou!

  1. A repercussão de Amor a Vida nesses primeiros capítulos acabou de enterrar Salve Jorge.
    Sempre disse a Gloria foi pupila da Janete Claer que quando foi pedida pra salvar uma novela de outro autor chamada Anastácia fez um terremoto e matou grande parte dos personagens a Glória devia ter usado o exemplo de sua mestra
    ass Cláudia Taissa

  2. Como o texto era muito grande e com esse início que mencionei no comentário anterior eu nem ia ler, mas voltei. Excelente texto. Queria ver a Glória lendo esse texto.
    Ela diria que na parte em que mostra pessoas assistindo tv no tablet é porque ela é inovadora como em barriga de aluguel, explode coração e bla bla bla, porém ela esquece que a novela se passa nos dias atuais e se no futuro isso se tornar uma prática do dia a dia será algo DO FUTURO. Hoje em dia NINGUÉM faz isso.

  3. Giovana Antonelli é mesmo uma grande atriz e se especializou em se destacar em novelas c/ baixa audiencia,isso aconteceu também em "tres irmãs" onde ela a melhor personagem da trama que foi um fracasso.

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