SBT: E as portas da esperança?

20 de novembro de 2010 0 Por Endrigo Annyston

por Emanuelle Najjar

Não seria exagero dizer que muito da minha infância se deve a emissora do tio Sílvio Santos. Junto com a Manchete, o SBT foi a personificação da infância de muitos, com seus desenhos e séries, com aquela programação enlatada que no fundo é o sonho de toda criança. Também foi com o SBT que aprendi conceitos importantes sobre a vida em sociedade como a pontualidade e a relatividade do tempo – afinal, quem pode com aquela programação inconstante? E que mesmo com todos os defeitos, ainda poderíamos ser bem sucedidos. Veja só o exemplo: mesmo com tudo isso ela ainda podia entrar em briga direta pela audiência, especialmente pela oferta de bundas, peitos e barracos na telinha aos domingos.

E também embalou alguns dos sonhos infantis de consumo, tornando metas mais realistas, pois sempre haveria o sonho secreto de um dia fazer parte da plateia de algum dos programas do tio generoso e entrar na briga por um daqueles aviõezinhos de bufunfa.

Os anos se passaram e algumas coisas mudaram, embora o cerne continue praticamente o mesmo. A programação instável e “Chaves” continuaram ali, assim como as novelas mexicanas. No mais, o SBT sofreu os efeitos do tempo: os aviõezinhos do tio mudaram devido as trocentas novas moedas que estiveram em circulação, os enlatados mudaram assim como os apresentadores, os barracos continuaram, embora o erotismo tenha diminuído e muito… e o domínio de outrora parece ter ficado na lembrança. Outras tomaram seu lugar, relegando a emissora quase ao inglório traço.

A que um dia foi a vice na liderança e escancarava tal privilégio ou as vitórias que ocorriam de vez em quando em cada vinheta provocativa se transformou na “emissora mais feliz do Brasil”, com cenas dignas de pastelão quando até mesmo Sílvio entrou na dança e disse em pleno palco do Teleton que o SBT era uma bagunça. Agora, talvez nem esteja mais tão feliz assim.

Há um clima de insegurança no ar desde que os problemas do Banco Panamericano vieram a tona, e as empresas do Grupo Sílvio Santos foram dadas como garantia para empréstimo no valor de R$ 2,5 bilhões e assim equilibrar as contas:  a empresa de cosméticos Jequiti, a Liderança Capitalização, as lojas do Baú da Felicidade, SBT e outros empreendimentos.

Não se sabe bem o que esperar ou o que sentir. Muitas perguntas estão no ar, o futuro parece incerto. Muitos já estão falando em tragédia, buraco, fim das contas. Outros preferem a esperança e o otimismo. Alguns já lamentam antecipadamente a chance de que haja o fim das madrugadas divertidas em favor da programação religiosa, e outros já se enfrentam em comentários de sites perguntando afinal qual o problema em ter uma programação de Deus…

Seja como for, no fundo o futuro continua sendo uma incógnita. As coisas mudam, nenhum domínio permanece inalterado a vida toda. Com quedas ou voos, com mortes ou renascimentos. Inalteradas, apenas lembranças, e mesmo assim correndo um risco de interpretação e contexto. Opto pelo otimismo. Melhor para todos.

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* Perfil: Emanuelle Najjar – Jornalista, formada pela FATEA em 2008, pesquisadora da área de telenovelas. Editora do Limão em Limonada (limaoemlimonada.com.br)