Teledramaturgia da Record precisa se inspirar em “José do Egito”

5 de fevereiro de 2013 0 Por Endrigo Annyston

Em sua quarta incursão no segmento das minisséries bíblicas, a Record mostra clara evolução com José do Egito. A emissora tem sabido aprender com os erros e, a cada nova produção, capricha ainda mais. A minissérie anterior, Rei Davi, já havia provado esta significativa melhora e, não por acaso, fez merecido sucesso e deu trabalho à Globo. José do Egito dá um passo além, promovendo um deslumbre visual, com fotografia, cenários e direção de arte impecáveis. O resultado foi positivo: a minissérie impulsionou os números da grade noturna da Record.

O primeiro capítulo, exibido na última quarta-feira, deu provas desta excelência. Takes cinematográficos e a qualidade da imagem chamaram a atenção. A trama também envolveu, sobretudo a história de Diná (Marcela Barroso) e Siquém (Paulo Nigro). O capítulo explorou a violência sexual sofrida por Diná, e o consequente arrependimento de Siquém, que se propõe a reparar o erro e se casar com ela. A moça, claro, não quer ter como marido o homem que a estuprou, mas seus irmãos veem ali a chance de simular uma aliança com os hebreus. Entre seus irmãos está o personagem-título, José (Ricky Tavares), que se posicionou contra os planos dos demais. José, aliás, teve pouco espaço no episódio de estreia, e apareceu mais em cenas em que se reforçava a preferência de seu pai por ele.

Foi o drama de Diná que movimentou e despertou o interesse em José do Egito. Drama eficiente, que serviu para arrebatar o telespectador para seguir com a minissérie. No entanto, é justamente dentro deste drama que está um dos problemas da produção: a direção dos atores. A diferença entre o trabalho de veteranos como Denise Del Vecchio (Lia) e Celso Frateschi (Jacó) e jovens, como Paulo Nigro, chegou a incomodar. Nigro decepcionou nas cenas mais dramáticas, fazendo com que seu conflito perdesse força. Ricky Tavares, o José, também não demonstrou grande força (que não demore para que Angelo Paes Leme, grande ator, assuma de vez o personagem). Marcela Barroso se saiu melhor como Diná. Além disso, o texto de Vivian de Oliveira, muitas vezes, resvala num didatismo desnecessário. Não era preciso reforçar tantas vezes a preferência de Jacó por José, tal fato já havia ficado claro. E os diálogos, muitas vezes, descambam para o mais puro clichê.

Sendo assim, ficou claro que a evolução da Record no segmento está, principalmente, na técnica. Atuações e texto ainda estão aquém do que se espera numa superprodução nesta categoria. Mesmo assim, os acertos são maiores que os erros. A emissora acerta ao se inspirar na Bíblia, mas sem descambar para a evangelização. A ideia é contar uma história, uma boa história, e isso ela tem sabido fazer bem. Só é questionável a opção pela exibição semanal. Minissérie não é seriado, merecia uma exibição contínua. No mais, é continuar acompanhando para ver se a narrativa terá fôlego para atravessar o primeiro semestre em episódios semanais.

Curioso notar que as minisséries bíblicas da emissora evoluem naturalmente, enquanto suas novelas parecem fazer o caminho contrário. Faz tempo que o canal não acerta num folhetim. Desde que passou a investir pesado em dramaturgia, a Record apresentou algumas das melhores novelas brasileiras da última década, como Vidas Opostas e Poder Paralelo. Soube chamar a atenção do público com tramas bem produzidas, como Prova de Amor, Caminhos do Coração, Amor e Intrigas, Bela, a Feia e Chamas da Vida. No entanto, desde Ribeirão do Tempo, a qualidade dos folhetins só cai. Vidas em Jogo foi uma boa novela, mas longe do que suas antecessoras foram. Máscaras revelou-se um equívoco, enquanto Balacobaco até agora não disse a que veio.

 A impressão que fica é que a política da emissora é dar atenção apenas ao que está funcionando, e deixar de lado tudo o que não rende. Assim, as minisséries bíblicas foram dignas de todas as atenções, enquanto as novelas foram jogadas para escanteio. É claro que as minisséries foram um acerto e merecem, sim, todo o cuidado demonstrado. Mas as novelas eram um dos pilares de sustentação da grade da emissora, logo, não mereciam tanto descaso. Se as últimas produções não renderam o esperado, o ideal era dar ainda mais atenção ao setor, buscando melhorá-lo e identificando os erros, para que eles não sejam repetidos. Uma emissora capaz de produções do naipe de José do Egito tem a obrigação de oferecer novelas melhores. Capacidade pra isso tem, falta vontade.

Recentemente, o núcleo de dramaturgia da emissora trocou de direção e as coisas parecem mais organizadas lá dentro. Balacobaco vem crescendo na audiência (embora o texto continue sofrível) e isso pode ser o incentivo que faltava para que a emissora volte aos tempos das boas novelas. Dona Xepa, de Gustavo Reiz, e Vida Bandida, de Carlos Lombardi, vêm aí, com a promessa de melhorar este cenário. Fica a torcida pra que 2013 seja o ano da ressurreição da teledramaturgia da Record.

Por André San


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