Telenovela: círculo vicioso impede autores de inovar

A vida dos autores de novelas nunca pareceu tão difícil quanto nos últimos tempos. Não que ela tenha sido fácil algum dia, mas nos últimos anos ela bem que poderia ter sido inclusa em um ranking de profissões mais estressantes.

Creio que qualquer um minimamente interessado no tema sabe que uma das principais características da telenovela é justamente o fato de ser uma obra aberta, ou seja: não há acontecimento ou história que não possa ser mudado, nem personagens com destinos pré-estabelecidos. Tudo pode mudar num piscar de olhos conforme a vontade do público.

Não, não estamos falando do finado “Você Decide”, mas sim de algo pouco mais complexo. Trata-se de mais do que decidir o final. A grosso modo, significa que o autor da trama apresenta os seus personagens, faz uma proposta de história e depois disso ele não será mais que alguém agindo por pauta. Para agradar seu público e alavancar os números de audiência (ou salvá-los) talvez ceda a pressões inúmeras e escreve uma nova novela usando minimamente a base de sua própria história.

Isso já aconteceu com muitas novelas que não caíram no gosto do telespectador. Um caso emblemático foi “Anastácia, a mulher sem destino” escrita por Emiliano Queiroz e exibida pela Globo em 1967. A trama passava por um grande inchaço de personagens e não tinha repercussão junto a audiência, e quando a autora Janete Clair foi chamada para assumir a história e dar um jeito na situação, ela escreveu um terremoto que matou quase todos os personagens, uma passagem de tempo de vinte anos e começou praticamente do zero. Em Torre de Babel, de Sílvio de Abreu e transmitida em 1998, a explosão do shopping Tropical Tower – um dos principais cenários da história – serviu também para eliminar personagens rejeitados pelo público. Em Bang Bang (2009), escrita por Mário Prata, os capítulos acabaram apelando para o humor pastelão e a duração dos capítulos chegou a ser encurtada. Já em Tempos Modernos (2010), a tecnologia que era um dos motes da novela de Bosco Brasil foi deixada de lado em prol de um romance choroso.

Como deu para perceber, os exemplos não faltam. E mais recentemente pode ser que algo do gênero volte a acontecer com “Morde e Assopra” de Walcyr Carrasco. Alguns colunistas de televisão já afirmaram que tais mudanças estão em curso, como por exemplo a volta de Naomi (Flávia Alessandra) como humana e o fim de sua personagem como robô, além do aumento das cenas de comédia e de romance. Mudanças que foram julgadas como sendo tão grandes que chamaram de uma “nova novela”.

O que dizer? Bom, de minha parte digo que lamento por ver histórias interessantes se perderem pelo desespero. Claro que gosto é gosto, que audiência e repercussão são importantes, mas a cobrança por resultados rápidos tem sido devastadora em casos em que um pouco de paciência seria adequada. Sem contar ainda as condições em que esse gosto atribuído ao público em geral é levado a sério, afinal quando falamos em audiência os números divulgados sempre dizem respeito a Grande São Paulo. Até que ponto a rejeição é verdadeira?

Além disso, o que está faltando? O público está cada vez mais exigente, cobrando inovações, ao mesmo tempo rejeitando a maior parte delas de forma sistemática e alegando que as tramas antigas que eram boas. Escritores tem medo de inovar, e quando o tentam costumam ser barrados pelas emissoras. Um tremendo circulo vicioso de contradições e trapalhadas digno de pastelão.

Talvez escrever novelas seja a nova “missão impossível”. Alguém duvida disso?

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* Perfil: Emanuelle Najjar – Jornalista, formada pela FATEA em 2008, pesquisadora da área de telenovelas. Editora do Limão em Limonada (limaoemlimonada.com.br)

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