Telenovelas: entre sucessos e fracassos há também o exercício do ego e da humildade

O assunto pode parecer algo vindo de um repentino deja vú, mas a verdade é que se quisermos falar de televisão e sobretudo de teledramaturgia, ele será uma constante. Trata-se daquela que é o maior atributo das telenovelas e ao mesmo tempo aquilo que representa seu maior perigo: sua qualidade de obra aberta, pela qual o público pode ser facilmente o seu coautor.

Falar em uma novela como obra aberta, significa dizer que, a grosso modo, nada é definitivo. O decorrer da história pode mudar em função de motivos fortes e variados, sendo que o mais forte deles diz respeito a audiência e a rejeição do público. Embora a autoria de qualquer obra seja motivo de orgulho para um alguém, a verdade é que escrever uma telenovela é um exercício para o ego e para a humildade, para o bem ou para o mal.

Não é novidade que algumas novelas desandem frente ao público e a salvação seja uma operação tremendamente arriscada. O último exemplo emblemático disso foi Tempos Modernos, escrito por Bosco Brasil. A trama passou por grandes mudanças, não somente na história quanto na personalidade dos personagens, tornando-se outro folhetim, mas no fim houve o naufrágio definitivo. Esse exemplo, aliás, foi o mais usado nos últimos tempos para falar no assunto, porém surgiram mais outros para que o tema continue a ter o status de atual.

Recentemente, “Morde e Assopra”, de Walcyr Carrasco e “Amor e Revolução” de Tiago Santiago passaram pelo mesmo dissabor. Cada uma com suas peculiaridades, muito além das emissoras onde são exibidas. Uma se dispunha a ser uma história leve em um horário onde isso é o esperado, sem responsabilidades maiores que a de manter o seu público e ter audiência o bastante para deixar a alta cúpula satisfeita. A outra tinha a responsabilidade de ser grande, de ser sucesso, estando em um horário nobre e estreando com pompa e circunstância para dar destaque a uma emissora que agora tem a obrigação de lutar por seu espaço.

Ambas tiveram de enfrentar baixos índices, tiveram de lutar em busca do público, mas tiveram um resultado bem diferente. “Morde e Assopra” retirou alguns personagens de circulação, deu destaque para outras histórias, deu margem ao que o seu autor sabia fazer de melhor, ainda que muito do que role seja o mashup de sucessos e formulas antigas. E deu certo.

Já Amor e Revolução agoniza a céu aberto. Ok, pode parecer um panorama dramático demais para ser descrito de tal forma, mas de qualquer modo a expressão serve bem ao propósito. A trama tinha tudo para ser boa e para se sobressair, desde o pleno destaque até uma época boa para que certas histórias fossem contadas: tudo isso, mas não rolou. Os diálogos entre os personagens pareciam ser inspirados em uma cartilha para a 4ª série e aparentemente qualquer medida que pudesse salvar o barco na hora certa acabou ficando pelo meio do caminho. A insistência no didatismo continuou, como se fosse pirraça de quem não quer dar o braço a torcer, restando apenas o óbvio ululante e a armadilha típica para todo e qualquer ator de ficção: erotismo e violência.

Certo, a violência tinha lá o seu contexto, mas não funcionou ainda mais porque o recurso saiu um pouco da medida. Já o erotismo parece estar em cena definitivamente: a polêmica de outro beijo gay, agora entre homens, foi vetado por Sílvio Santos em função de um público mais conservador que seria o perfil dos que ainda assistiam Amor e Revolução. Em contrapartida, o clima do amor livre pareceu ter tomado conta já que muito se especulou a respeito da entrada dos descamisados, que aliás não tem nada a ver com algum tipo de serviço social. Embora tudo isso esteja na mídia, outra informação interessante que veio através da coluna de Flávio Ricco no Uol é a de que foi dado início a uma operação pente-fino para filtrar cenas julgadas como inadequadas, seja por sexo, violência ou até palavrões. E mesmo assim, o ritmo de gravações está acelerado para que a trama acabe o quanto antes.

Triste panorama, mas é parte do jogo. Muitas vezes devo ter citado o público como tendo aquele quê de tirania, mas pensar em agradá-lo é  uma necessidade. As vezes funciona, outras não. O fato de uma história não funcionar não é demérito de ninguém, pode acontecer com qualquer autor. Lutar para que o barco volte a navegar em bons mares não é vergonha. Perder também não. O triste é ver naufrágios acontecendo por pura teimosia.

Que ninguém se engane: escrever novelas é uma experiência que poderia resultar em um excelente estudo, digno de palestras de best-sellers de autoajuda. Exercer a humildade não tá fácil pra ninguém.

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* Perfil: Emanuelle Najjar – Jornalista, formada pela FATEA em 2008, pesquisadora da área de telenovelas. Editora do Limão em Limonada (limaoemlimonada.com.br)

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