“The Voice Brasil”: a redenção dos realities musicais?

A era dos reality shows começou há pouco mais de uma década e, ao que tudo indica, veio para ficar. A profusão de formatos variados de atrações que exploram o lado pessoal de quem participa é um indício de que o gênero já está enraizado como um importante pilar na grade de programação. Neste contexto, a era dos realities trouxe como uma de suas consequências a reformulação de um formato que se confunde com a própria história da televisão: o bom e velho show de calouros. Manteve-se a busca por novos talentos e o corpo de jurados, e incluiu-se formato de documentário para explorar a vida pessoal de seus participantes, que agora compõem o tabuleiro de uma competição de grandes proporções.

No Brasil, os shows de calouros sempre fizeram sucesso e não foram poucos os ídolos que surgiram depois que apareceram em programas da categoria. No entanto, contam-se nos dedos as personalidades de expressão que realmente foram reveladas nestes realities musicais. E programas do gênero surgiram aos baldes. Desde o início dos anos 2000, diferentes competições musicais apareceram. Porém, ao contrário do que acontece em seus países de origem, onde esses programas se tornam febre e mobilizam torcidas, por aqui boa parte destes programas passam em brancas nuvens.

Popstars, do SBT, e Fama, da Globo, foram os primeiros realities musicais produzidos no Brasil. O primeiro tinha como objetivo formar um grupo musical, enquanto o segundo mostrava os aspirantes a cantores em aulas para aperfeiçoar suas qualidades vocais. Popstars rendeu dois grupos musicais: o feminino Rouge e o masculino Br’Oz. Rouge fez muito sucesso em seus primeiros anos, enquanto Br’Oz teve vida mais curta. No entanto, o programa Popstars nunca rendeu grandes índices de audiência ao SBT. Apenas passou. No caso de Fama, a atração também não teve uma audiência espetacular, mas tinha a vitrine da Globo a seu favor. Mas isso não foi o suficiente para tornar seus participantes famosos. Muitos dos cantores que ali passaram voltaram ao ostracismo ao término da atração, inclusive alguns vencedores. Outros tiveram mais sorte e conquistaram sobrevida no cenário musical, como Thiaguinho, Marina Elali ou Roberta Sá.

Mais tarde veio Ídolos, versão nacional do famoso American Idol. A atração estreou num SBT meio capenga, atravessando a pior crise de sua história, e conseguiu chamar a atenção, sobretudo pela generosa dose de humor que permeia a fase de seleção. No entanto, passada a peneira, a audiência do reality cai consideravelmente. Isso porque acaba o humor e começa a competição com real qualidade vocal, mas nenhum dos que permanecem se mostra capaz de mobilizar torcidas, como acontece lá fora. Assim, o vencedor de Ídolos dificilmente decola. Lá se foram duas edições no SBT, e mais cinco na Record, e nada acontece. Nesta edição 2012, Ídolos já dá claro sinais de desgaste, e a Record já avisou que será a última edição do reality. A emissora planeja para 2013 sua versão do Got Talent, atração que recebe não apenas cantores, mas outros tipos de talento. Será que agora vai?

Em meio a este cenário pouco favorável, um novo formato que desembarcou por aqui recentemente tem chamado a atenção. The Voice Brasil estreou há dois meses, nas tardes de domingo da Globo, e tem feito um barulho interessante. The Voice chega quando a era das redes sociais está em franca ebulição, e se mostra com uma poderosa repercussão na internet. Quando está no ar, o reality toma conta das conversas virtuais, e não faltam fãs ardorosos ou críticos ferrenhos on line. Mas The Voice não é somente um campeão de repercussão: o programa aumentou de maneira bastante satisfatória os índices de audiência da Globo nas tardes de domingo, e vem sendo considerado um de seus acertos na programação de 2012.

The Voice tem suas diferenças e semelhanças com relação aos outros programas do gênero já exibidos no Brasil. Tem seus jurados, claro, mas aqui eles atuam também como técnicos. Sua primeira fase, com audições às cegas nas quais o jurado apenas ouve a voz do calouro, é um importante diferencial. Deste modo, The Voice Brasil mostrou-se, desde o início, como uma competição musical séria, sem espaço para bizarrices. A qualidade vocal dos participantes é evidente desde o começo. Depois, quando os jurados montaram seus times e começaram os duelos, já foi possível observar o aparecimento de torcidas. Há algo de diferente na repercussão do The Voice, comparados aos outros programas do gênero, sem dúvidas.

The Voice Brasil também foi feliz na formação de seu elenco. Thiago Leifert tem se mostrado um bom anfitrião, sabendo dosar bem os momentos de descontração com os momentos mais tensos; e Daniele Suzuki aparece como importante apoio. Os jurados e técnicos Carlinhos Brown, Lulu Santos, Claudia Leitte e Daniel também foram escolhas acertadas, já que suas diferenças conferem um molho interessante à competição. The Voice Brasil trouxe algo de diferente ao formato, não é mais do mesmo, o que em si já é uma grande novidade. E as tardes de domingo careciam mesmo de uma injeção de ânimo.

Assim, audiência e repercussão têm andado juntas e transformado The Voice Brasil num sucesso legítimo. Esta soma pode fazer com que, finalmente, um reality show musical realizado no Brasil consiga resultados concretos. Ao que tudo indica, tem tudo para conseguir. É esperar para ver.

Por André San


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