Saiba tudo sobre a minissérie da Globo Justiça

Quatro prisões em uma única noite de 2009. Uma coincidência que une quatro pessoas de origens diferentes em Recife, cujos efeitos serão sentidos por muito tempo – muito mais do que a pena de sete anos de reclusão a que foram condenados. A razão pela qual cada um foi julgado culpado é questionável. Não pelos crimes em si, mas pelos caminhos que percorreram até o banco dos réus.

Essa história não narra a rotina dos tribunais nem questiona a aplicação das leis. É uma obra que, de maneira demasiadamente humana, propõe uma reflexão sobre o justo na prática, no cotidiano dos personagens envolvidos. É uma discussão que começa sete anos depois da ação principal, quando essas quatro pessoas cruzam os portões da penitenciária após saldarem suas dívidas com a Justiça – se é que elas existiram um dia. “Não é uma minissérie sobre o sistema penal, tratamos sobre o que é justo. São histórias ligadas por um tema e por uma cidade”, explica a autora Manuela Dias.

O sentimento de uma mãe capaz de ir às últimas consequências para vingar a morte de um filho. O desespero no coração de um homem que se vê obrigado a tirar a vida do seu grande amor. A ação da polícia guiada pelo racismo que destrói o futuro brilhante de uma jovem que acaba de passar no vestibular. A história de uma mulher que vai presa por defender seu filho de um cachorro.

Humana e tocante, ‘Justiça’ reúne quatro histórias, independentes, mas conectadas, que chegam ao público por meio da emoção. Escrita por Manuela Dias, com a colaboração de Mariana Mesquita, Lucas Paraizo e Roberto Vitorino, a minissérie tem direção artística de José Luiz Villamarim, e direção de Luisa Lima, Walter Carvalho e Isabella Teixeira. A obra estreia no dia 22 de agosto, com 20 capítulos e uma maneira intrigante de compor a narrativa. “Não é uma discussão forense. É uma provocação para o público. Saber o que é justo é uma questão particular”, pondera Villamarim.

O formato

Exibida de segunda a sexta-feira, com exceção de quarta, ‘Justiça’ pode ser descrita como um grande mosaico composto por quatro histórias distintas, mas intercaladas. Cada dia da semana será o momento de entrar na vida de um determinado núcleo e conhecer seus dramas e conflitos. Em comum, a cidade onde tudo acontece. A frenética Recife. “Os diálogos são muitos bons. A Manuela escreve com muita verdade e deixa o público muito próximo da trama. Isso é maravilhoso. E tem esse formato fascinante, que exige uma matemática na hora de cruzar as histórias para tornar a obra crível”, resume José Luiz Villamarim.

Os personagens

Elisa e Vicente

Às segundas-feiras, o público conhece a história de Vicente (Jesuíta Barbosa). Acostumado a uma vida de  playboy  em  Recife,  entre  farras e atos  inconsequentes,  ele vê seu mundo  desmoronar quando a empresa do pai, Euclydes Menezes (Luiz Carlos Vasconcellos) abre falência. Antenor (Antonio Calloni), um dos sócios de Euclydes na GTransportes, comete um desfalque de grandes proporções.

Intempestivo e controlador, Vicente não se conforma com a bancarrota e a ideia dos tempos duros que estão por vir. Como se não bastasse, a nova realidade deve adiar o casamento que ele acaba de propor à noiva, Isabela (Marina Ruy Barbosa). Fútil, a patricinha passa a reconsiderar os planos de uma vida em comum quando as vantagens financeiras do relacionamento com o herdeiro viram pó.

Mas antes de decidir pelo rompimento e ter a conversa definitiva com o noivo, Isabela se torna vítima de um crime passional. Ao flagrá-la nos braços do ex-namorado, Otto (Pedro Lamin), Vicente tira a vida da noiva na sala da casa dela. A mãe de Isabela, a professora Elisa (Deborah Bloch), que nunca viu o relacionamento dos dois com bons olhos justamente por causa do temperamento explosivo do futuro genro, assiste à cena, em choque.

Condenado por assassinato, Vicente passa sete anos preso. Mas, para uma mãe que perdeu a filha de maneira tão violenta, a cadeia não é castigo suficiente. Ao sair do presídio, ele já é casado com Regina (Camila Mardila), a prima de um detento que está disposta a ajudá-lo a recomeçar a vida. Os dois são pais de uma menina, curiosamente batizada como Isabela (Fabiana Ferreira). Mesmo tendo saldado sua dívida com a Justiça, ele terá de lidar com o inconformismo de Elisa (Débora Bloch), que planeja vingar a morte da filha.

Fátima e o casal Douglas e Kellen

Às terças-feiras, a trajetória da doméstica Fátima (Adriana Esteves) é acompanhada de perto. Mulher simples e de fibra, é casada com o motorista de ônibus Waldyr (Angelo Antonio), e mãe de Mayara (Leticia Salatiel / Julia Dalavia) e Jesus (Bernardo Berruezo/Tobias Carrieres). Moradora de uma periferia rural, ela considera a família seu maior bem. De uma hora para outra, entretanto, a vizinhança perde o sossego quando o encrenqueiro casal Douglas (Enrique Diaz) e Kellen (Leandra Leal) se muda para a casa ao lado. Ele é um policial de má índole, do tipo que não honra a farda que veste e se aproveita do poder para humilhar os outros. Ela é uma perua com um aguçado senso de sobrevivência e cujos defeitos superam as qualidades.

Por causa das invasões constantes do cachorro de Douglas no quintal de Fátima, o caso acaba passando de mera picuinha entre vizinhos para assunto de polícia com consequências inimagináveis. Depois de vários incidentes com patos e galinhas, o cão feroz morde o filho mais novo de Fátima. Tomada por instintos maternos protetores, ela não hesita e mata o animal. É uma tentativa desesperada de proteger o pequeno Jesus.

Mas, transtornado pela ira, Douglas não deixa por menos. Ele usa o poder de policial para armar um flagrante contra Fátima.  Por causa disso, ela passa sete anos presa. Mas, quando conquista a liberdade, Fátima não pensa em vingança – só quer sua família de volta. Do lado de fora da prisão, ela encontra um mundo completamente diferente.

Waldyr (Angelo Antonio) está morto. Sem adultos por perto, Jesus (Tobias Carrieres) perambula pelas ruas com um bando de moleques, aplicando furtos. Já com 18 anos, Mayara (Julia Dalavia) agora é conhecida como Suzy e trabalha como prostituta no Snack Night Club, uma sauna administrada por Kellen (Leandra Leal). Com rancor decantado durante anos, o objetivo da jovem é vingar a prisão da mãe.

Débora e Rose

A história das quintas-feiras se desenvolve sobre uma grande amizade. Débora (Luisa Arraes), a filha da patroa, e Rose (Jéssica Ellen), a filha da empregada da casa, cresceram como amigas, quase irmãs. Uma estuda em escola particular e a outra, em escola pública. Rose mora com a mãe, Zelita (Teca Pereira), no quarto dos fundos da casa de Débora, mas isso nunca importou no cotidiano das duas jovens.

Na noite anterior ao seu aniversário de 18 anos, Rose recebe a notícia de que foi aprovada no vestibular para Jornalismo, e as adolescentes decidem comemorar num luau à beira-mar. Durante uma confusão entre frequentadores da festa, a polícia é chamada e separa os jovens a serem revistados – entre negros e brancos. Rose é pega com drogas, uma quantidade de substâncias que ela dividira pouco antes com Débora e outros amigos. Livre da revista, por ser branca, Débora assiste à cena de longe, sem ação. Não consegue reunir coragem para apoiar a amiga no momento da detenção.

Sob a acusação de tráfico, Rose tem a promessa de um futuro brilhante sequestrada e passa sete anos presa. Quando conquista a liberdade, não pode mais contar com sua mãe, que morreu no período em que estava atrás das grades. Sem mágoa, ela procura a amiga que parou de visitá-la na cadeia anos atrás. Rose encontra, então, uma nova Débora. Ela está casada com Marcelo (Igor Angelkorte), trabalha como professora de educação infantil e está tentando adotar um filho. Mas está longe de ser feliz: enquanto Rose estava presa, Débora foi vítima de um estuprador num beco escuro de Recife.

Agora em liberdade, Rose não pensa duas vezes ao estender a mão para Débora. Juntas, elas iniciam uma caçada para encontrar o homem que a violentou.

Maurício e Antenor

Maurício (Cauã Reymond) não vê outra saída para acordar de um pesadelo. Em 2009, ele vive um dos momentos mais felizes de sua vida, orgulhoso com a realização da mulher, Beatriz (Marjorie Estiano), bailarina que acabara de estrear um espetáculo de grande sucesso.

Mas não serão apenas momentos de glórias a cercá-lo. Na GTransportes, a empresa na qual atua como assistente de contabilidade, o proprietário, Euclydes (Luiz Carlos Vasconcellos), acaba de sofrer um golpe do sócio, o inescrupuloso Antenor (Antonio Calloni). O episódio se torna um grande escândalo nacional e ainda vai interferir de maneira trágica na vida de Maurício (Cauã Reymond). Em fuga com uma mala de dinheiro, Antenor ultrapassa um ônibus em alta velocidade e atropela Beatriz, que saía do teatro após mais uma de suas apresentações. Ele deixa a bailarina estendida numa avenida de Recife, sem prestar socorro. Maurício assiste à cena, incrédulo.

Ao acordar no hospital, Beatriz recebe uma notícia acachapante: está tetraplégica.
                                   
A bailarina decide que, se for para nunca mais voltar a dançar, não quer mais viver. E suplica a Maurício uma eutanásia, procedimento proibido no país. Atordoado pelo sofrimento de Beatriz, o marido cede ao apelo e acaba preso ainda no hospital. Julgado e condenado pela morte da mulher que tanto ama, ele passa sete anos na prisão.

Nesta reviravolta, a articulação de um plano para se vingar de Antenor vira o principal objetivo de Maurício. Quando deixa a prisão, já em dias atuais, o empresário segue impune e está em plena campanha para governador do estado de Pernambuco. Como parte de sua estratégia, Maurício se aproxima de Vânia (Drica Moraes), a instável candidata a primeira-dama. Aproveitando-se da carência dela, o contador tentará, a qualquer custo, fazer justiça com as próprias mãos.
 
As conexões

As tramas de ‘Justiça’ caminham independentes e paralelamente mas, quanto mais o espectador se aprofunda nelas, mais se torna capaz de entender as sutilezas de suas conexões. Um novo fato em uma das quatro tramas pode, por mais que pareça corriqueiro à primeira vista, se tornar uma pista importante no contexto de outro personagem.

Dessa forma, a narrativa se complementa entre protagonistas e coadjuvantes, que mudam de posição conforme a trama do dia. “Toda semana há um grande evento que une todas as histórias”, adianta a autora Manuela Dias.

Elisa (Débora Bloch), por exemplo, é patroa de Fátima (Adriana Esteves). Coadjuvante na história exibida às segundas, a doméstica é a dona de casa que tem seu caminho tranquilo interceptado pela crueza de Douglas (Enrique Diaz). E é ele mesmo, um policial preconceituoso, que não hesita em prender Rose (Jéssica Ellen), sob a acusação de tráfico de drogas.

Desde antes da prisão que mudou radicalmente sua vida, Rose mantém uma paquera com Celso (Vladimir Brichta), dono de um quiosque e sócio de Maurício (Cauã Reymond). O assistente de contabilidade trabalha para o pai de Vicente (Jesuíta Barbosa), noivo de Isabela (Marina Ruy Barbosa), filha de Elisa (Débora Bloch). Euclydes (Luiz Carlos Vasconcellos) é pai de Vicente, dono da GTransportes e sócio de Antenor (Antonio Calloni) que, em fuga, atropela a esposa de Maurício, Beatriz (Marjorie Estiano).

Esse emaranhado de ligações é reforçado pela autora, que construiu a minissérie amarrada por cenas que se repetem ao longo da exibição, mas sempre revelando pontos de vista de diferentes personagens. E assim, é possível passear por cada drama e experimentar as várias sensações que a reflexão sobre o que é justo pode trazer. “Criei uma trama no sentido de ter vários fios, que cercassem a percepção do justo. São histórias conectadas por um tema e uma cidade”, complementa a autora.

Crueza nas cores e nas formas

Quando o diretor artístico, José Luiz Villamarim, pôs os olhos no projeto de ‘Justiça’ imediatamente viu a força da narrativa. Além do texto preciso e instigante, uma dramaturgia com um desafiador. Para contar essa história na medida exata das palavras da autora Manuela Dias, a estética ideal para Villamarim precisava ter um firme compromisso: o realismo.

A minissérie começou a ser gravada em maio deste ano, em Recife, com parte do elenco. Adriana Esteves, Cauã Reymond, Enrique Diaz, Angelo Antônio, Julia Dalavia, Marjorie Estiano, Vladimir Brichta, Luisa Arraes, Jéssica Ellen, Jesuíta Barbosa e Drica Moraes são alguns dos atores que passaram por lá. “A geografia de Recife é horizontal e isso está muito relacionado com a minissérie. Aqui as pessoas se cruzam nas ruas. Recife é uma síntese do Brasil”, explica Villamarim. A história se passa na capital pernambucana e contempla diversas classes sociais.  

Caracterizados com roupas que traduzem o espírito de Recife, das ruas, das pessoas que circulam pelo centro da cidade, os atores passaram por um processo de desconstrução. A encomenda foi de Villamarim, que pediu para deixar fora do set qualquer artifício que afastasse os personagens da realidade. Por isso, a equipe trabalhou com o mínimo de maquiagem e um figurino sem glamour. Nem mesmo as unhas as atrizes foram pintadas, à exceção das que trabalham no Snack Night Club.

Lu Moraes, a responsável pela caracterização dos atores, conta que antes de propor qualquer caminho, fez um levantamento para evitar que seus personagens se assemelhassem com antigos trabalhos dos atores envolvidos. Foi assim que nasceu a ideia de clarear os cabelos de Julia Dalavia e Vladimir Brichta, por exemplo. Lu abraçou o desafio proposto por Villamarim e passou a olhar para o elenco buscando o que é simples. “Aqui não há brilho, tampouco cabelos com cara de festa, tem gente com olheiras por noites mal dormidas. A história é fictícia, mas o que se sente ao conhecer os personagens é crível, humano, visceral”, esclarece Lu Moraes.

Outro desafio da caracterização foi transitar entre os anos de 2009 e em 2016. Como a gravação das cenas não segue uma ordem cronológica, a equipe precisou usar artifícios para deixar os personagens ora mais jovens, ora mais velhos – apesar da pequena passagem de tempo. Cauã Reymond ganhou mais fios brancos e óculos para aparentar mais idade. Luisa Arraes usou uma franja nas sequências em que mostram a sua adolescência. Além disso, uma questão crucial é que sobreviver em uma prisão por anos tira o frescor de qualquer pessoa. Adriana Esteves, por exemplo, ao aparecer nas cenas atuais, relevará uma pele maltratada pelo tempo, pela tristeza. Manchas foram aplicadas em seu rosto.

Muita coisa foi comprada em Recife, especialmente o figurino do núcleo de Fátima (Adriana Esteves). O que se buscou no comércio de lá foram peças que se assemelhassem com o tipo de estampa e material usado na região. Cao Albuquerque e Natália Duran assinam o figurino. “Trouxemos de Recife muita coisa feita com tecido sintético. O Cao foi a campo e eu fui às compras”, conta Natália. O texto de Manuela Dias, claro, foi o ponto de partida, mas o trabalho de composição desses personagens contou com uma pesquisa ampla, de campo, que levou os profissionais da produção a verem de perto como se comportam pessoas reais que se assemelham a esses personagens.

Das locações usadas em Recife aos cenários erguidos no Rio, a ordem também era a de criar ambientes reais. Em Pernambuco, muito pouco foi mexido nos locais escolhidos como cenários. Após sair da prisão, Vicente (Jesuíta Barbosa) vai viver em um apartamento simples, bem diferente de sua realidade antes de ser preso. O local escolhido foi um dos apartamentos do edifício Holiday, arquitetura colossal muito conhecida na cidade. Fabio Rangel, cenógrafo da minissérie, reforça que a equipe entrou no apartamento, onde vivia uma família, e não mexeu em quase nada. “Não tiramos nada do lugar. Eu fiquei bastante impressionado ao ver os atores circulando naquele cenário. É muito realista”, diz Fabio.

Trabalhando em parceria com a cenografia, Moa Batsow, responsável pela produção de arte, também andou afinado com essa estética, de buscar o que é real. Ele conta que comprou muito artesanato em Recife, peças que ajudaram a compor as casas recriadas nos Estúdios Globo. Moa confessa que também trouxe de viagem uma jangada, “para as cenas que acontecem no entorno do quiosque de Celso, personagem de Vladimir Brichta”.

 Entrevista com a autora Manuela Dias

Com 20 anos de carreira, a baiana Manuela Dias vem se destacando na teledramaturgia. Formada em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia e aluna do mestre Gabriel García Marquez na Escuela Internacional de Cine de Cuba, ela chegou a atuar em séries de televisão, mas optou pela carreira de autora de TV com seriados como ‘A Grande Família’ (2001-2014), ‘Fama’ (2002) e ‘Sandy e Júnior’ (1999-2002), e colaboradora de novelas de sucesso como ‘Cordel Encantado’ (2011) e ‘Joia Rara’ (2014). No início de 2015, foi destaque com a adaptação do clássico de Choderlos de Laclos ‘Ligações Perigosas’, minissérie exibida pela TV Globo no começo do ano. Com trajetória também no cinema, Manuela tem trabalhos premiados, como os roteiros dos longas-metragens ‘Deserto Feliz’ (2007), de Paulo Caldas, e ‘O Céu Sobre os Ombros’ (2010), de Sérgio Borges.

‘Justiça’ tem narrativa e formato inovadores. Como você classifica a minissérie?
‘Justiça’ defende uma ideia que desembocou nesse formato. Foi um casamento natural e necessário entre forma e conteúdo. É uma minissérie que conta quatro histórias independentes, porém interligadas. O formato funciona quase como uma lasanha: dá pra comer só uma camada de queijo e sentir o gosto, mas é comendo tudo junto que se tem a experiência do todo.

Como surgiu a ideia de uma narrativa tão incomum?
A partir de um caso verídico: a moça que trabalhava na minha casa me pediu ajuda porque o marido estava preso por ter matado o cachorro do vizinho. Aquilo me deu um estalo sobre a esfera pessoal da questão das leis e punições. Observar a vida daquela mulher à beira da devastação depois desse acontecimento jurídico me mobilizou e acendeu a chama da minissérie.

Perdão e arrependimento. Podemos afirmar que essas duas questões são essenciais nessas histórias?
‘Justiça’ não trata de leis ou processos jurídicos, mas sim do conceito de justo. O que é justo, certo ou errado sob o ponto de vista ético e moral e não sob o ponto de vista circunstancial ou social como as leis que variam com o tempo e de sociedade para sociedade. Perdão e arrependimento são questões satélites desse questionamento do justo, assim como a vingança. Justiça e vingança são conceitos que se misturam o tempo todo a depender do ponto de vista que olhamos para a questão.

‘Justiça’ traz histórias fortes. Você espera que a crueza das situações crie uma empatia especial com o público?
A dramaturgia sempre busca provocar a identificação por parte do público, porque sem identificação não tem transferência e o processo de experiência vicária não se dá. A ideia de criar histórias tem a ver com ampliar as nossas experiências, traçar uma trama fictícia, virtual, na qual as pessoas possam testar seus valores e limites sem necessariamente matar alguém, trair etc. Em ‘Justiça’, a linguagem realista, que flerta com o documentário, incentiva ainda mais essa identificação, mesclando o material ficcional com o que entendemos por realidade cotidiana.

A interligação entre os personagens é engenhosa e nada óbvia. Como foi esse processo?
Foi como tecer uma malha, fio por fio, criando um desenho. A brincadeira era justamente essa, investir no que chamei de cenas conjuntas, nas quais os personagens comungam um mesmo espaço.

Das quatro histórias, qual delas você aponta como sendo a mais difícil para o personagem em questão?
A pior injustiça é aquela que nos atinge. Quando estou contando a história de Elisa (Débora Bloch), que vê sua filha ser assassinada, acho essa a pior história. Quando me coloco sob o ponto narrativo de Fátima (Adriana Esteves), presa injustamente por sete anos, e isso causa uma diáspora familiar, acho que a dela é a pior história. Já quando estou escrevendo para Rose (Jéssica Ellen) e Débora (Luisa Arraes), uma jovem que foi estuprada, penso que essa deve ser a pior experiência, uma vez que mesmo que o estuprador seja preso, nada fará o tempo voltar atrás. Porém, quando passo para a história de sexta-feira, e vejo que Maurício (Cauã Reymond) acabou cometendo eutanásia na mulher que amava e por isso ficou preso e atado a um sentimento de vingança, acho que ele é o maior injustiçado.

Como se sentiu ao criar histórias tão humanas e tocantes? Como autora, chega a passar por um certo desgaste emocional?
Sou fascinada pela complexidade da vida. O feio e o pesado apontam naturalmente para o belo e o leve. A injustiça aponta para a justiça. Os conceitos caminham lado a lado com seus opostos. É essa oposição que delineia tudo. Eu sou definida por tudo que é não-eu. Escrever histórias pesadas traz a leveza na mesma proporção. Assim como escrever comédias pode ser deprimente. Pensar na morte nos liga à vida e não ao contrário.

O que há de mais desafiador em costurar todas essas histórias? De que maneira o formato da minissérie influencia no ritmo dos acontecimentos e dos diálogos?

Nessa minissérie, forma é conteúdo. Não são coisas que podemos pensar separadamente. A ideia do formato e a ideia das histórias nasceram juntas. O que é justo depende do ponto de vista em que vemos a questão, por isso, contar a história sob diversos ponto de vista é uma questão estrutural que explora o conteúdo trazendo uma nova forma narrativa.

Como foi o trabalho em parceria com o diretor artístico José Luiz Villamarim?
O Zé é um parceiro dos sonhos. Profundo no conteúdo e leve no trato. Uma pessoa de extremo bom gosto sem ser um esteticista. Para ele as imagens são geradas no conteúdo, que é sempre o ideal, porque imagem por imagem não conta história. E é isso que somos: contadores de histórias. Nos conhecemos  já para esse trabalho. O Moa Batsow, diretor de arte, que é meu amigo e sempre trabalha com o Zé, apresentou ‘Justiça’ pra ele. Graças a essa extrema sensibilidade, o Zé viu nos textos os traços documentais, buscou na obra escrita os caminhos para a realização – isso gera um casamento perfeito entre roteiro e direção.



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